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A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

Mudança na política externa dos EUA é chance para BRICS protagonizar alternativa de nova ordem mundial

A guerra russo-ucraniana, que completa três anos em 24 de fevereiro, assumiu desde o seu início proporções globais, com o envolvimento direto dos Estados Unidos e da Europa em apoio à Ucrânia. Esse conflito tem revivido as memórias da Guerra Fria, um período marcado pela polarização entre o bloco ocidental, liderado pelos Estados Unidos, e o bloco oriental, encabeçado pela União Soviética. Desde a invasão da Ucrânia, a Rússia vem enfrentando o que denominou “Ocidente coletivo”, mobilizado por meio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), aliança criada em 1949 justamente para fazer frente à expansão soviética e limitar sua influência na Europa.

O impasse no campo de batalha, que persiste até o momento, deve-se em grande parte ao maciço apoio militar e financeiro do Ocidente, que tem sustentado a resistência ucraniana e dificultado a busca por um cessar-fogo entre as partes.

Esse impasse, no entanto, revela uma crise ainda mais profunda: a luta entre o velho e o novo, como bem descreveu o intelectual marxista italiano Antonio Gramsci — “o velho mundo não consegue morrer, e o novo ainda não pode nascer”. Yalta, que sediou a conferência responsável por moldar a ordem global do pós-Segunda Guerra e que, desde a invasão da Crimeia em 2014, está sob controle russo, simboliza essa ironia histórica. O local que um dia definiu os rumos do mundo no pós-1945 é agora palco de um conflito que pode reconfigurar a geopolítica global, marcando o fim de uma era e a difícil gestação de uma outra.

Durante o governo Biden, o “Ocidente coletivo” projetou um mundo que, nos moldes da Guerra Fria, compartimentalizava os países entre democracias e regimes autoritários, fortalecendo a aliança transatlântica e reafirmando o papel dos EUA como líder do bloco democrático. No entanto, com a mudança de governo nos Estados Unidos, parece prevalecer um novo imaginário político.

O governo Trump desdenha da ideia de uma ordem baseada em princípios, seja de soberania ou democracia, e aposta em uma divisão mais pragmática e menos ideológica: aquela entre fortes e fracos. Já sugeriu adquirir a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, e reassumir o controle do Canal do Panamá, gestos que enfraquecem a legitimidade das críticas ocidentais às violações da soberania cometidas pela Rússia. Para Trump, o que importa é a capacidade de exercer poder e influência, e não a adesão a valores ou princípios universais.

EUA, do messianiasmo ao cinismo

Essa mudança reflete uma transição na política externa dos EUA, que, ao abandonar o idealismo democrático e o messianismo universalista — muitas vezes justificativa para intervenções questionáveis e expressão de uma arrogância que busca moldar o mundo à sua imagem —, adota uma visão mais cínica e realista, onde a força prevalece sobre a ideologia.

No entanto, essa guinada expõe os limites de ambas as abordagens: se o universalismo democrático é movido por uma moralidade narcísica que, muitas vezes, mascara interesses geopolíticos, o realismo pragmático de Trump avança a lei do mais forte, fazendo bullying com os mais fracos e desprezando normas e instituições internacionais.

No vocabulário político de Trump, o direito internacional e o multilateralismo são palavras riscadas do dicionário, substituídas por um idioma rude onde só falam os mais fortes. O que move o recém-empossado presidente não é a incompatibilidade ideológica com a Rússia ou a China, mas o temor de ver os Estados Unidos marginalizados na nova configuração de poder que se anuncia.

nova estratégia parece ser a de estabelecer uma ordem global triangular, envolvendo Estados Unidos, Rússia e China. Recentemente, Trump sugeriu reunir-se com Xi Jinping e Putin, quando a situação se acalmar, para redefinir os contornos geopolíticos internacionais.

O primeiro passo desta estratégia está sendo dado na Arábia Saudita, onde diplomatas estadunidenses e russos se encontram para discutir um possível acordo de paz para a guerra na Ucrânia, sem a participação da própria Ucrânia ou de aliados europeus.

Essa mudança é, em si mesma, um reconhecimento de que o mundo não pode mais ser unipolar e da incapacidade econômica e política dos EUA de manterem sozinhos o papel de garantidor da ordem internacional, diante da ascensão de novas potências que desafiam sua hegemonia.

Europa à deriva e Ucrânia abandonada

Nesse novo jogo geopolítico, os EUA têm sinalizado o desejo de se aproximar da Rússia e da China para redesenhar a ordem internacional liberal, deixando aliados tradicionais, como a Europa, em segundo plano. Nesse novo cenário, a capacidade da Ucrânia de ser ouvida praticamente desaparece. Assim como Cuba durante a Crise dos Mísseis no auge da Guerra Fria em 1962, a Ucrânia corre o risco de ser reduzida a um mero cenário de disputa, sem voz ou autonomia para incidir sobre a nova ordem.

Com a Europa lançada à deriva e pressionada pelos Estados Unidos a assumir gastos crescentes com sua defesa, sem poder contar com o apoio incondicional de Washington, a Ucrânia se vê ainda mais vulnerável. Sem chances reais de ingressar na OTAN e pressionada por interesses externos, pode ser forçada a ceder parte de seu território à Rússia, enquanto seus recursos minerais críticos — essenciais para a indústria de defesa e tecnologia dos EUA — são disputados como moeda de troca pelo governo Trump.

Diante desse novo cenário, a Cúpula do BRICS, que acontecerá no Rio de Janeiro entre os dias 06 e 07 de julho deste ano, assume uma importância estratégica ímpar. Afinal, foi justamente esse agrupamento, cujos membros fundadores são Rússia, China, Brasil e Índia, e que passou a incluir a África do Sul em 2011, além de cinco novos membros plenos nos últimos dois anos (Emirados Árabes, Egito, Etiópia, Irã e Indonésia), que impulsionou e deu visibilidade à agenda de reestruturação da ordem internacional liberal.

BRICS tem destacado o descompasso dessa ordem, que se reflete na arquitetura financeira e política internacional criada em 1945, quando a correlação de forças era bem diferente da atual. Hoje, novos atores ganham relevância econômica, política e tecnológica, mas ainda enfrentam barreiras institucionais que limitam sua influência nos processos decisórios globais. Essa assimetria é especialmente evidente na governança das principais instituições multilaterais.

O Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, mantém uma estrutura arcaica, onde apenas cinco países têm assentos permanentes e poder de veto, excluindo atores emergentes que desempenham papéis cruciais na geopolítica contemporânea.

Da mesma forma, as instituições de Bretton Woods — como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial — continuam dominadas pelos Estados Unidos e seus aliados, com regras que garantem o controle decisório ao Ocidente e impõem condicionalidades que limitam a autonomia econômica dos países em desenvolvimento.

Os Estados Unidos, por meio do dólar, controlam o sistema financeiro global, utilizando essa hegemonia monetária como uma ferramenta de poder, chantagem e coerção.

O BRICS tem desafiado essa lógica, propondo alternativas como o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e a implementação de mecanismos para transações em moedas locais, buscando reduzir a dependência do dólar e promover uma governança mais equitativa no sistema internacional.

A estratégia de Trump de buscar aproximação com a Rússia e, de modo mais tímido e contraditório, com a China, parece visar o controle dos termos e do processo de reforma da ordem internacional liberal, uma ordem que Marco Rubio, seu secretário de Estado, classificou como “obsoleta”.

Para os EUA, a reforma deve ocorrer, mas de maneira que mantenha sua influência e hegemonia, neutralizando o potencial transformador da agenda de reforma do BRICS. Trump deixou claro que não permitirá que o grupo reestruture a ordem global sem o envolvimento dos EUA. Ameaças, como a de impor tarifas de 100% caso o BRICS insista em criar uma moeda alternativa ao dólar, refletem o receio de que a proposta de multipolaridade do grupo possa desafiar diretamente a hegemonia econômica e política dos Estados Unidos.

A importância do BRICS na construção de nova ordem mundial

O grande desafio da Cúpula do BRICS no Brasil será reafirmar a centralidade do bloco como protagonista de uma nova ordem global, sem permitir que a velha lógica colonial de “dividir para dominar” se infiltre nas relações do grupo.

Durante o governo Biden, os países do BRICS enfrentaram crescente desconfiança por se recusarem a se alinhar incondicionalmente ao Ocidente e às suas sanções unilaterais na guerra russo-ucraniana. Frequentemente retratados sob uma ótica orientalista, foram demonizados como autocracias irracionais, em contraste com o suposto “eixo civilizatório” euroamericano.

Essa narrativa tentou importar a divisão entre democracias e regimes autoritários para dentro do BRICS, evidenciada pelo fluxo de financiamentos de pesquisa por parte de instituições europeias e estadunidenses com o objetivo de atrair as potências democráticas emergentes do Sul Global.

No entanto, ao tentar enxergar o BRICS por meio desta ótica divisória, ignora-se um aspecto crucial da história do grupo: sua agenda sempre foi a de democratizar a governança global, promovendo uma ordem mais inclusiva e representativa, justamente o que os Estados Unidos, defensores mais fervorosos da democracia liberal no interior dos Estados têm historicamente barrado.

Agora, no governo Trump, a estratégia parece mudar: a tentativa é atrair as grandes potências — Rússia e China — enquanto minimiza a importância dos membros menos poderosos do grupo. Em relação ao Brasil, por exemplo, Trump afirmou que o país precisa mais dos Estados Unidos do que o contrário.

Desafios rumo à desdolarização e à multipolaridade

O BRICS, contudo, nunca esteve tão em evidência, e sua capacidade de resistir às pressões externas dependerá de sua habilidade em manter a coesão e avançar uma agenda positiva. Essa agenda deve reconhecer as diferenças entre seus membros não como obstáculos, mas como valores fundamentais para a construção de uma nova ordem multipolar e diversa.

Uma ordem em que os países possam exercer autonomia para definir suas formas de organização política, modelos de desenvolvimento e modernização, culturas, línguas, moedas e até mesmo temporalidades — como no caso singular da Etiópia, que vive no ano de 2016 em seu próprio calendário. A diversidade de histórias, longe de ser um problema — como frequentemente vista no Ocidente —, vem sendo ressignificada pelo BRICS como símbolo de vitalidade e riqueza.

É nesse contexto que se insere a demanda do BRICS por uma maior autonomia nas transações comerciais, com a possibilidade de negociar em suas próprias moedas, buscando reduzir a hegemonia do dólar. O objetivo do que vem sendo chamado “desdolarização” não é substituir a moeda americana, mas diversificar as relações comerciais e os instrumentos utilizados nessas transações.

Essa proposta reflete uma aspiração maior: permitir que o “resto do mundo” tenha voz e possa expressar suas necessidades e interesses em seus próprios termos, desafiando uma história única dominada pelo Ocidente.

O desafio consiste em equilibrar o reconhecimento das potencialidades do BRICS com uma análise crítica de seus limites e contradições. É necessário evitar uma visão idealizada que ignore as dinâmicas de poder e a divisão internacional do trabalho dentro do grupo. Como no caso das relações comerciais entre Brasil e China, que se caracteriza principalmente pela exportação de commodities brasileiras, como soja e minério de ferro, e pela importação de produtos chineses de alto valor agregado —, além das desigualdades de gênero e das limitações democráticas que atravessam os países do agrupamento.

Ao mesmo tempo, é essencial evitar as demonizações que desconsideram o potencial transformador e emancipatório do BRICS, capaz de desempenhar um papel crucial na construção de uma ordem global mais justa e equitativa.

Bibliografia (ABNT):
SILVA, João. Mudança na política externa dos EUA: chance para BRICS protagonizar alternativa de nova ordem mundial. Jornal de Política Global, Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: http://www.jornalpoliticaglobal.com.br/artigo. Acesso em: 23 fev. 2025.

Créditos (ABNT):
Elaboração: [Fabiano C Prometi]. Adaptação e análise do texto original.

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