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A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

Diplomacia Brasileira em Xeque: Entre a Tradição do Equilíbrio e a Ousadia de Lula no Conflito Israel-Palestina

Horizontes do Desenvolvimento - Inovação, Política e Justiça Social

Reportagem Especial

Diplomacia Brasileira em Xeque: Entre a Tradição do Equilíbrio e a Ousadia de Lula no Conflito Israel-Palestina

Análise aprofundada da recente mudança na política externa brasileira, que oscila entre a busca por protagonismo global e o risco de isolamento diplomático.

Repórter: Fabiano C Prometi Editor-Chefe: Fabiano C Prometi

15 de junho de 2025 - A política externa brasileira, historicamente pautada pelo pragmatismo e pela busca de uma posição de equilíbrio, vive um momento de inflexão e intenso debate. A recente e contundente postura do governo de Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao conflito Israel-Palestina tem gerado uma onda de reações globais, colocando o Brasil no centro de uma das mais complexas e sensíveis questões geopolíticas da atualidade. Este artigo analisa a gênese dessa nova abordagem, suas implicações e os desafios que se impõem à diplomacia do país em sua almejada projeção como líder global.


Do Pragmatismo Histórico à Crítica Aberta: A Evolução da Posição Brasileira

A tradição diplomática brasileira no que tange ao Oriente Médio sempre foi marcada pela "política de equidistância". Desde a participação decisiva na criação do Estado de Israel em 1947, com Osvaldo Aranha na presidência da Assembleia Geral da ONU, o Itamaraty buscou manter um diálogo aberto e isento com ambos os lados do conflito. Essa postura, consolidada durante os governos militares e aprofundada nos anos 1970 em função da crise do petróleo, visava resguardar os interesses nacionais e garantir ao Brasil um papel de mediador confiável.

Contudo, o terceiro mandato de Lula sinaliza uma mudança significativa nesse paradigma. O Brasil tem adotado um tom cada vez mais crítico às ações militares de Israel na Faixa de Gaza, culminando na controversa declaração do presidente, que comparou a situação humanitária no enclave palestino ao Holocausto. A fala, proferida durante uma viagem à Etiópia em fevereiro de 2024, desencadeou a mais grave crise diplomática entre Brasil e Israel em décadas.

[Imagem: Presidente Lula ao lado do chanceler Mauro Vieira em reunião no Palácio do Itamaraty. Legenda: O governo Lula tem defendido a solução de dois Estados e um cessar-fogo imediato em Gaza. Fonte: Ricardo Stuckert/PR.]

A Crise Diplomática: "Persona Non Grata" e as Consequências da Retórica Presidencial

A reação de Israel foi imediata e dura. O governo de Benjamin Netanyahu declarou o presidente Lula persona non grata, e o chanceler israelense, Israel Katz, convocou o embaixador brasileiro, Frederico Meyer, para uma reprimenda pública em um local de forte simbolismo, o memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém. O Itamaraty considerou o ato "inaceitável" e, em resposta, chamou seu embaixador de volta a Brasília para consultas, um gesto de clara insatisfação diplomática.

A crise escalou e gerou uma polarização no debate público brasileiro. Enquanto setores da oposição e parte da comunidade judaica no Brasil criticaram duramente o que consideraram uma "banalização do Holocausto", movimentos sociais, intelectuais e partidos de esquerda defenderam a coragem de Lula em denunciar o que classificam como um "genocídio" do povo palestino.

Análise de Especialistas: Liderança Global ou Aventura Diplomática?

Para aprofundar a análise, "Horizontes do Desenvolvimento" consultou diferentes vozes do campo das relações internacionais.

Segundo Guilherme Casarões, professor da FGV e especialista em política externa, a fala de Lula, embora tenha gerado uma crise, também posicionou o Brasil como uma voz dissonante e de liderança no Sul Global. "Lula buscou usar o capital político do Brasil para forçar um debate que muitos líderes ocidentais evitavam. É uma aposta de alto risco, mas que reforça a imagem de um Brasil autônomo e defensor dos direitos humanos", afirma Casarões.

Por outro lado, há quem veja na nova postura um afastamento do pragmatismo que sempre caracterizou o Brasil. Para um diplomata ouvido em condição de anonimato, "a tradição do Itamaraty é a de construir pontes, não de dinamitá-las. Uma retórica inflamada pode isolar o Brasil e diminuir sua capacidade de atuar como mediador eficaz no futuro".

A posição brasileira encontra eco em propostas apresentadas no Conselho de Segurança da ONU, onde o Brasil ocupou a presidência rotativa e defendeu resoluções por um cessar-fogo imediato, embora estas tenham enfrentado vetos. A diplomacia brasileira argumenta que sua posição está alinhada com o direito internacional e com a maioria da comunidade internacional, que expressa crescente preocupação com a crise humanitária em Gaza.

[Gráfico: Votações do Brasil em Resoluções da ONU sobre a Palestina (2003-2024). Legenda: Análise histórica demonstra uma crescente convergência do Brasil com as posições do Grupo Árabe na ONU. Fonte: Elaborado a partir de dados da plataforma da ONU.]

Os Desafios Futuros: Relações Comerciais e a Busca por Protagonismo

O futuro da relação Brasil-Israel permanece incerto. Embora as relações comerciais e de cooperação, especialmente nas áreas de tecnologia e segurança, sejam relevantes, a crise política impõe um obstáculo significativo. O desafio para a diplomacia brasileira será o de navegar essa tensão, mantendo a coerência de sua política externa sem sacrificar interesses estratégicos.

A grande questão que se coloca é se a postura mais assertiva do Brasil se consolidará como um novo pilar de sua política externa, capaz de alçar o país à liderança global que almeja, ou se resultará em um isolamento prejudicial à sua influência no cenário mundial. Os próximos capítulos dessa história serão decisivos para definir o lugar do Brasil na nova ordem geopolítica que se desenha.


Bibliografia


Créditos e Direitos Autorais

  • Reportagem: Fabiano C Prometi
  • Edição: Fabiano C Prometi
  • Equipe Editorial: Horizontes do Desenvolvimento

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