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A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

Entre promessas de produtividade e alertas sobre declínio cognitivo, o uso massivo da IA generativa reacende debates sobre o papel do conhecimento, da educação e da consciência crítica na era digital.

Entre promessas de produtividade e alertas sobre declínio cognitivo, o uso massivo da IA generativa reacende debates sobre o papel do conhecimento, da educação e da consciência crítica na era digital.

Por Fabiano C. Prometi — Repórter especial | Editor-chefe: Fabiano C. Prometi
Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social


O espelho preto da inteligência artificial

Desde o lançamento do ChatGPT em 2022, o mundo vive uma revolução silenciosa e vertiginosa no modo como escreve, aprende, pesquisa, consome informação e até pensa. Ferramentas de IA generativa, como o próprio ChatGPT, passaram a ser amplamente utilizadas por jornalistas, programadores, estudantes, professores, profissionais liberais e até juízes. O que antes parecia ficção científica se tornou prática cotidiana. Mas com a popularização dessa tecnologia, emergem dúvidas inquietantes: estamos nos tornando mais produtivos ou intelectualmente preguiçosos? A IA nos liberta ou nos emburrece?

Um artigo publicado pela The Conversation em julho de 2025, com o provocativo título “O ChatGPT está nos deixando estúpidos?”, deu novo fôlego ao debate. Nesta reportagem especial, investigamos com profundidade os efeitos cognitivos, sociais e políticos dessa tecnologia, dialogando com especialistas, revisando estudos acadêmicos e refletindo sobre o lugar da consciência humana na era das máquinas que escrevem, respondem e até pensam por nós.


A Gênese da IA Generativa: entre linguística e big data

A tecnologia por trás do ChatGPT pertence à família dos modelos de linguagem de larga escala (Large Language Models, ou LLMs). Seu funcionamento baseia-se em redes neurais treinadas com bilhões de palavras e contextos extraídos da internet. A arquitetura central, chamada transformer, foi desenvolvida pelo Google em 2017, mas aprimorada pela OpenAI para gerar textos que simulam compreensão e criatividade humanas.

Segundo o cientista de dados Clément Delangue, da Hugging Face, "esses modelos não pensam nem entendem o mundo, mas calculam padrões linguísticos com enorme precisão, produzindo respostas estatisticamente plausíveis" (DELANGUE, 2023). O ChatGPT-4, por exemplo, foi treinado com mais de 1 trilhão de tokens (fragmentos de palavras) e continua aprendendo com feedback humano e interações em tempo real. A consequência é um sistema que escreve dissertações, roteiros, relatórios jurídicos e poemas — tudo em segundos.

Mas o que parece mágica algorítmica levanta questões sobre autoria, autonomia e o futuro da cognição humana.


Os Efeitos Cognitivos: produtividade ou preguiça mental?

Estudos recentes sugerem que o uso recorrente de IA para tarefas intelectuais pode reduzir a atividade crítica do cérebro. Um relatório do MIT Media Lab de 2024 indicou que usuários que delegam tarefas intelectuais à IA com frequência tendem a aceitar respostas prontas sem questionamento, reduzindo o esforço analítico e a memória operacional (MIT, 2024).

Em entrevista ao Horizontes do Desenvolvimento, a neurocientista Eliane Trotta (UFMG) alerta:

“Ao terceirizar nossa capacidade de formular perguntas, comparar fontes ou escrever ideias, perdemos o treino cognitivo que sustenta o pensamento autônomo. É como usar uma calculadora para tudo e depois esquecer a tabuada.”

Um exemplo prático está nas universidades. Professores relatam aumento de trabalhos padronizados, com vocabulário avançado, mas sem argumentação consistente. “Parece tudo escrito por IA, e muitas vezes é mesmo”, confidencia um docente da USP sob anonimato. A Universidade de Cambridge, em resposta, passou a exigir que os estudantes incluam análises críticas manuais como parte obrigatória dos ensaios — mesmo que utilizem IA na redação.

A psicóloga e pesquisadora Maryanne Wolf (2023) adverte para um "declínio da leitura profunda", efeito colateral da dependência de resumos gerados por IA e textos escaneáveis. Essa superficialização ameaça habilidades como empatia, contextualização histórica e reflexão ética.


IA e Educação: a aula virou um prompt?

Se no início a IA era temida como ameaça ao ensino, hoje ela é cada vez mais incorporada como “ferramenta pedagógica”. Há escolas no Brasil que usam o ChatGPT para gerar exercícios de gramática, corrigir redações e simular debates históricos. Mas isso é inclusão digital ou comodismo educacional?

Para a pedagoga Silvia Dias (UNB), o risco está na forma:

“Quando o professor apenas delega à IA a produção do conteúdo, perde-se a mediação crítica. O aluno vira receptor de informação polida, mas não desenvolve argumentação, dúvida ou criatividade.”

Em contrapartida, há experiências inovadoras: a Escola Estadual Zuleika de São Paulo integrou IA como recurso de apoio para alunos com dislexia, permitindo adaptação textual sob medida. Já a UFRGS lançou um projeto piloto para ensinar ética e viés algorítmico com base na interação crítica com o ChatGPT.

🔍 Infográfico sugerido: comparação entre uso passivo e uso crítico da IA na educação, com dados do CIEB (Centro de Inovação para Educação Brasileira).


Vício em Respostas: o risco do fast-thought

O professor e filósofo norte-americano Evan Selinger cunhou o termo fast-thought addiction (vício em pensamento instantâneo) para descrever a tendência de recorrer a IA para tudo: desde decisões profissionais até dilemas existenciais. “Estamos formando uma geração que acredita que toda resposta pode ser clicada, sem reflexão ou frustração”, alerta.

Pesquisas do Pew Research Center mostram que 52% dos jovens norte-americanos entre 18 e 24 anos usam IA generativa ao menos uma vez por dia para estudar ou se informar. No Brasil, dados do DataSenado indicam que 38% dos estudantes do ensino médio em escolas particulares já usaram o ChatGPT em tarefas escolares — a maioria sem conhecimento dos professores (DATASENADO, 2024).

🧠 Gráfico sugerido: curva de uso de IA por faixa etária e nível educacional, comparando Brasil e EUA (2022–2025).


Um novo tipo de ignorância: automatizada e sofisticada

O mais alarmante, segundo o pesquisador Luciano Floridi (Oxford Internet Institute), é que a IA não apenas distribui respostas, mas cria uma nova forma de ignorância: "uma ignorância polida, bem redigida, convincente — porém acrítica." Ele argumenta que, se não for guiado por humanos conscientes e educados, o ChatGPT pode reforçar vieses, simplificações perigosas e até deepfakes de ideias.

Exemplo emblemático ocorreu em 2024, quando uma decisão judicial nos EUA citou uma jurisprudência inexistente sugerida por IA — um erro detectado apenas semanas depois. A chamada alucinação algorítmica ainda é um problema frequente.


Conclusão: a escolha é nossa

A IA generativa é uma ferramenta poderosa — mas como todo instrumento, seu impacto depende do uso. O ChatGPT pode ser um aliado da aprendizagem crítica, se usado com discernimento, ou um catalisador da superficialidade, se adotado como oráculo absoluto. O alerta não é contra a IA, mas contra o abandono do pensamento autônomo.

Como escreve Neil Postman, “toda tecnologia concede e retira poder ao mesmo tempo.” O desafio da nossa geração é usar a IA para ampliar a inteligência humana — e não substituí-la.


Créditos e Licença

Reportagem: Fabiano C. Prometi | Editor-chefe: Fabiano C. Prometi
Conteúdo exclusivo do blog Grandes Inovações Tecnológicas. Reprodução permitida apenas mediante autorização prévia.
Licença: Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0)


Bibliografia (formato ABNT)

DELANGUE, Clément. Understanding Large Language Models. Hugging Face Blog, 2023. Disponível em: https://huggingface.co/blog/llm. Acesso em: 27 jul. 2025.

MIT MEDIA LAB. AI and Cognitive Shortcuts: A Report on Decision-Making Patterns. Cambridge, 2024.

PEW RESEARCH CENTER. Teens and Tech 2024. Washington, 2024. Disponível em: https://pewresearch.org. Acesso em: 27 jul. 2025.

DATASENADO. Uso de IA entre estudantes brasileiros. Brasília, 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/datasenado. Acesso em: 27 jul. 2025.

WOLF, Maryanne. Reader, Come Home: The Reading Brain in a Digital World. New York: HarperCollins, 2023.

FLORIDI, Luciano. The Logic of Information: A Theory of Philosophy as Conceptual Design. Oxford: Oxford University Press, 2019.

POSTMAN, Neil. Technopoly: The Surrender of Culture to Technology. New York: Knopf, 1992.

SELINGER, Evan. Addiction by Design: AI and the Seduction of Fast Thought. Rochester Institute of Technology, 2024.

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