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A vitória de Mamdani em Nova York: o colapso silencioso da hegemonia trumpista e a reinvenção da política global

Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social
📅 Publicação: 9 de novembro de 2025


A vitória de Mamdani em Nova York: o colapso silencioso da hegemonia trumpista e a reinvenção da política global

Por Fabiano C. Prometi – Repórter e Editor-Chefe


A surpreendente eleição de Zohran Mamdani como prefeito de Nova York, em 2025, não representa apenas uma guinada política local. É um evento de alcance civilizacional, um marco simbólico do esgotamento da hegemonia representada por Donald Trump e da crise do neoliberalismo político que moldou o Ocidente nas últimas décadas. O triunfo de um político abertamente socialista, imigrante e filho de refugiados em uma das cidades mais influentes do planeta revela o esgotamento de uma narrativa e o nascimento de outra — mais plural, solidária e voltada para a reconstrução da esfera pública.

Mamdani, nascido em Kampala, Uganda, e criado em Nova York, é filho do renomado cientista político Mahmood Mamdani, intelectual que há décadas denuncia o imperialismo cultural e as desigualdades estruturais do capitalismo global. Sua trajetória, marcada por militância comunitária e ativismo antirracista, se insere no movimento mais amplo de rearticulação da esquerda norte-americana pós-Bernie Sanders. A vitória de Mamdani, portanto, é o produto de uma crise ideológica profunda: a falência moral e prática do trumpismo como projeto de nação.


A crise da hegemonia e a desarticulação do centro

A ascensão de Trump em 2016 inaugurou uma era de regressão política marcada pelo populismo autoritário, pela manipulação das emoções e pelo desprezo à racionalidade democrática. Inspirado na retórica do ressentimento, o trumpismo construiu uma identidade baseada na exclusão: o “nós” branco, cristão e nacionalista contra o “eles” — imigrantes, mulheres, negros e dissidentes. Esse discurso, embora politicamente eficaz, revelou-se insustentável diante das contradições sociais do próprio capitalismo americano.

Estudos do Pew Research Center (2024) indicam que 67% dos jovens entre 18 e 29 anos nos Estados Unidos veem o socialismo “com bons olhos”, enquanto apenas 35% associam o capitalismo à ideia de prosperidade. Essa mudança geracional é o combustível do chamado novo progressismo americano, que ganhou força com figuras como Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar e agora Mamdani.

A eleição do novo prefeito de Nova York é o reflexo direto da implosão do centro político: um sistema bipartidário paralisado, refém do lobby financeiro e incapaz de responder à crise climática, à desigualdade e à precarização do trabalho. Como afirma Nancy Fraser (2022), o neoliberalismo progressista – que uniu Wall Street e a retórica da diversidade – chegou ao fim. O vazio deixado por ele abre espaço para alternativas radicais, tanto à esquerda quanto à direita.


Nova York como laboratório da política pós-hegemônica

Mamdani representa a síntese dessa nova etapa. Sua campanha foi construída sobre pilares de justiça social, redistribuição de renda e desmilitarização da polícia, dialogando com movimentos de base e comunidades historicamente marginalizadas. Em contraste com o pragmatismo corporativo de seus antecessores, Mamdani defende políticas públicas voltadas para habitação popular, transporte gratuito e neutralidade climática até 2040.

Sob sua gestão, Nova York pode se tornar o primeiro grande centro urbano a adotar um modelo de economia solidária digital, combinando inovação tecnológica e participação cidadã. Em parceria com universidades locais, o novo governo pretende criar plataformas públicas de dados e moedas digitais municipais voltadas para o bem-estar coletivo — um experimento inédito que desafia o monopólio das big techs sobre a infraestrutura digital urbana.

Esse modelo remete ao conceito de “democracia energética e tecnológica”, formulado por pensadores como Jeremy Rifkin (2019), segundo o qual as cidades do futuro serão o epicentro de uma nova economia colaborativa, descentralizada e sustentável.


O impacto internacional: o fim do império simbólico

A eleição de Mamdani também ecoa globalmente como um abalo na narrativa imperial que sustentava o excepcionalismo americano. Desde o pós-guerra, os Estados Unidos se apresentavam como farol da democracia liberal e do livre mercado. Hoje, essa imagem está corroída por dentro: polarização extrema, violência armada, crise habitacional e deslegitimação das instituições.

A derrota simbólica do trumpismo revela a erosão dessa hegemonia e abre espaço para novas formas de articulação política transnacional. Países do Sul Global — especialmente na América Latina, África e Ásia — observam com interesse o surgimento de lideranças que combinam tecnologia, diversidade e justiça social. O “efeito Mamdani” pode inspirar movimentos progressistas a reimaginar o papel das cidades como motores de transformação democrática.


Conclusão: o colapso como oportunidade histórica

A vitória de Mamdani não encerra uma era — inaugura outra. O colapso da hegemonia trumpista e da política neoliberal representa, paradoxalmente, a abertura de um novo ciclo histórico. Um ciclo em que o poder volta a ser disputado não apenas nos parlamentos ou nas bolsas de valores, mas nas ruas, nos coletivos, nas redes e nas comunidades.

Como escreveu o próprio Mahmood Mamdani (2020), “toda hegemonia cai quando perde sua capacidade de convencer; o império ruirá não por um golpe, mas por falta de sentido”. Nova York, sob Mamdani, pode se tornar o primeiro laboratório dessa reinvenção simbólica do poder. 🌍🗽


Referências (Normas ABNT)

FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal: Como o sistema devora democracia, cuidados e natureza. São Paulo: Boitempo, 2022.

MAMDANI, Mahmood. Neither Settler nor Native: The Making and Unmaking of Permanent Minorities. Cambridge: Harvard University Press, 2020.

PEW RESEARCH CENTER. Public Views on Capitalism and Socialism. Washington, D.C., 2024. Disponível em: https://www.pewresearch.org/. Acesso em: 9 nov. 2025.

RIFKIN, Jeremy. The Green New Deal: Why the Fossil Fuel Civilization Will Collapse by 2028. New York: St. Martin’s Press, 2019.

THE CONVERSATION BRASIL. Eleição de Mamdani a prefeito de Nova York expõe a crise interna da hegemonia representada por Trump. Disponível em: https://theconversation.com/eleicao-de-mamdani-a-prefeito-de-nova-york-expoe-a-crise-interna-da-hegemonia-representada-por-trump-269255. Acesso em: 9 nov. 2025.


Créditos e Direitos Autorais

🖋 Reportagem: Fabiano C. Prometi
📘 Edição e Revisão: Equipe editorial de Horizontes do Desenvolvimento
📄 Propriedade intelectual: Blog Grandes Inovações Tecnológicas
📢 Licença: Este conteúdo está sob licença Creative Commons CC BY-NC-SA 4.0.
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