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A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

Acordo Mercosul-UE rumo a assinatura: o que está em jogo no torneio de poder e sustentabilidade

Lula e Ursula von der Leyen durante anúncio do avanço final do acordo Mercosul–União Europeia, previsto para assinatura em 20 de dezembro.
Imagem gerada por Inteligência Artificial (DALL·E)

Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social
Repórter: Fabiano C. Prometi · Editor-Chefe: Fabiano C. Prometi
Data de publicação: 23 de novembro de 2025


Acordo Mercosul-UE rumo a assinatura: o que está em jogo no torneio de poder e sustentabilidade

Brasília / Joanesburgo – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste domingo (23) que o tão aguardado acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) será assinado em 20 de dezembro, durante a presidência rotativa brasileira do Mercosul. Agência Brasil+2Jornal do Comércio+2 A declaração foi dada na capital sul-africana, onde Lula participava da cúpula de líderes do G20. Agência Brasil

Este momento representa não apenas uma vitória diplomática para o Brasil e para seus parceiros latino-americanos, mas também um ponto de inflexão nas dinâmicas globais de comércio, soberania econômica, e meio ambiente. A seguir, uma análise aprofundada dos aspectos políticos, econômicos e sociais desse acordo, suas origens, potenciais impactos e desafios.


Origens e trajetória histórica

A gênese das negociações entre Mercosul (formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e a União Europeia remonta a mais de duas décadas. As discussões começaram no fim dos anos 1990, com promessas de integração comercial e cooperação estratégica. No entanto, só em dezembro de 2024, após 25 anos de idas e vindas diplomáticas, os blocos chegaram a um texto final. Agência Brasil+2Serviços e Informações do Brasil+2

O acordo, quando plenamente ratificado, será um dos mais ambiciosos já firmados pelo Mercosul. Conforme informações do Planalto, o texto final contempla 20 capítulos, além de diversos anexos e documentos adicionais. Serviços e Informações do Brasil+1 A dimensão simbólica é tão poderosa quanto a econômica: segundo Lula, trata-se de uma afirmação do multilateralismo, uma resposta ao protecionismo crescente no cenário global. Serviços e Informações do Brasil+1


Principais termos do acordo e lógica econômica

De acordo com declarações oficiais, o tratado envolve cerca de 722 milhões de pessoas e representa aproximadamente US$ 22 trilhões de Produto Interno Bruto (PIB) agregado. Agência Brasil Esses números ressaltam o tamanho estratégico da parceria para ambos os lados.

Do ponto de vista comercial, o plano é que o Mercosul reduza ou elimine tarifas sobre uma grande parte das exportações da UE, enquanto os europeus removerão progressivamente tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul ao longo de até dez anos, conforme expectativas colocadas por Lula nas conversas com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Reuters+1

Além disso, defensores do acordo argumentam que ele pode modernizar a base industrial do Mercosul, integrando suas cadeias produtivas às europeias, além de reforçar fluxos de investimento estrangeiro direto. Serviços e Informações do Brasil+1 A UE, por sua vez, vê no Mercosul uma fonte confiável de matérias-primas críticas, como o lítio metálico, usado em baterias para a transição energética. Agência Brasil


Resistências políticas e ambientais: os riscos e as tensões

Apesar do otimismo de Lula, o acordo ainda enfrenta resistência significativa. Um dos principais opositores dentro da UE é a França, que expressa preocupações sobre a produção agrícola sul-americana. Agência Brasil+1 Paris exige cláusulas de salvaguarda (“safeguard”) para poder bloquear importações caso haja dano à sua indústria, além de controles robustos para garantir que produtos do Mercosul atendam a normas europeias. Reuters+1

Lula tem reinterpretado a relação comercial como complementar: segundo ele, a agricultura de pequena e média escala no Brasil pode dialogar com a francesa sem conflito. Serviços e Informações do Brasil No entanto, a divergência regulatória permanece séria. Macron, por exemplo, tem criticado o que considera insuficientes os mecanismos ambientais previstos no acordo, sobretudo no que toca a pesticidas proibidos na Europa, mas usados em alguns países do Mercosul. Serviços e Informações do Brasil

Também pesa a questão da ratificação legislativa: o Parlamento Europeu precisa aprovar o tratado com maioria simples (50%+1 dos deputados), enquanto pelo menos 15 dos 27 países da UE devem ratificar, representando pelo menos 65% da população do bloco. Agência Brasil No Mercosul, a implementação será individual por país — ou seja, a entrada em vigor não depende da ratificação simultânea de todos os integrantes. Agência Brasil


Consequências socioeconômicas e ambientais

A concretização deste acordo pode trazer ganhos relevantes para os países sul-americanos: a ampliação de exportações industriais, o aumento da competitividade global e a atração de investimentos serão vetores-chave. Especialistas têm destacado que, para o Brasil, isso significa não apenas diversificar mercados, mas também reduzir dependência geopolítica de atores como a China. Reddit

Por outro lado, há riscos ambientais e sociais palpáveis. Críticos apontam que um aumento na exportação de commodities agrícolas pode estimular desmatamento, pressões sobre comunidades indígenas e práticas agrícolas pouco sustentáveis. Organizações ambientais alertam que, sem mecanismos rigorosos de monitoramento, o tratado pode reforçar padrões predatórios em nome da competitividade. The Guardian

A proposta de cláusulas de salvaguarda proposta pela França abre espaço para uma disputa por regulamentações mais rígidas, mas também pode ganhar contornos protecionistas que limitam o potencial de exportação dos países do Mercosul. Há, ainda, o desafio de assegurar que normas sociais e ambientais sejam vinculantes — não apenas retóricas — nos mecanismos de aplicação.


Perspectivas geopolíticas e justiça social

Para Lula, o acordo representa um momento estratégico para reposicionar o Brasil e o Mercosul no xadrez geopolítico global: segundo ele, este é “o melhor sinal que regiões como a nossa podem dar em face do retorno do unilateralismo e do protecionismo tarifário” (“the best response our regions could offer,” nas palavras traduzidas de declarações à imprensa). Serviços e Informações do Brasil+1

Do ponto de vista da justiça social, a promessa de inclusão dos pequenos e médios agricultores – especialmente no Brasil, com milhões de propriedades rurais modestas – é crucial. Lula tem defendido que o acordo deve favorecer esses produtores, reforçando a complementaridade agrícola entre Mercosul e Europa. Serviços e Informações do Brasil Mas a efetividade desse compromisso depende não só de texto, mas de políticas nacionais de suporte: linhas de crédito, capacitação técnica, certificações e acesso a mercados.


Futuro e riscos de implementação

Se a cerimônia marcada para 20 de dezembro de fato ocorrer, será o ponto de partida para um longo caminho: a assinatura formal não implica vigência automática. Há etapas cruciais:

  1. Revisão legal e tradução do texto acordado. Serviços e Informações do Brasil

  2. Ratificação pelos parlamentos dos países-membros de ambos os blocos. Agência Brasil

  3. Implementação gradual das reduções tarifárias previstas nos primeiros dez anos. Reuters+1

  4. Monitoramento e fiscalização de cláusulas ambientais e de salvaguarda.

Caso esses passos sejam bem geridos, o tratado pode se consolidar como um modelo de cooperação comercial moderna e sustentável. Se falhar em aspectos regulatórios, corre o risco de replicar velhos desequilíbrios: exportação de commodities, pressões socioambientais e baixa inclusão dos mais vulneráveis.


Conclusão

A previsão de assinatura em 20 de dezembro simboliza uma virada diplomática para o Mercosul sob liderança brasileira. Mas o “acordo do século” – como alguns o denominam – traz consigo tensões históricas e assimetrias de poder: entre interesses agrícolas conservadores da Europa, demandas por salvaguardas ambientais, e as esperanças latino-americanas de crescimento justo e sustentável.

Mais do que um tratado comercial, trata-se de um experimento geopolítico. Se for bem-sucedido, poderá ser um impulso ao multilateralismo, ao desenvolvimento social e à inovação nas cadeias produtivas. Se fracassar, pode exacerbar desigualdades e comprometer a reputação dos blocos como promotores de desenvolvimento equitativo.

Nos próximos meses, o mundo estará de olho – e os cidadãos sul-americanos, especialmente os mais vulneráveis, devem acompanhar com atenção cada passo deste processo.


Bibliografia

  • Agência Brasil. “Acordo Mercosul-UE será assinado em 20 de dezembro, diz Lula.” Agência Brasil, 23 nov. 2025. Acesso em 23 nov. 2025.

  • Ministério das Relações Exteriores / Planalto. “Lula sobre acordo Mercosul-União Europeia: reforço ao multilateralismo.” Comunicação Social, 7 jun. 2025. Acesso em 23 nov. 2025.

  • Ministério das Relações Exteriores / Planalto (en). “Lula expresses optimism about concluding Mercosur-European Union agreement.” 5 jun. 2025. Acesso em 23 nov. 2025.

  • Investing.com (Reuters). “Acordo entre União Europeia e Mercosul deve ser assinado em 20 de dezembro, diz chanceler.” 6 nov. 2025. Acesso em 23 nov. 2025.

  • Le Monde (via Reuters). “Lula presses Macron on Mercosur trade deal during Paris visit.” 6 jun. 2025. Acesso em 23 nov. 2025.

  • Reuters. “EU-Mercosur trade deal still needs work to be acceptable for France, says government.” 19 nov. 2025. Acesso em 23 nov. 2025.


Nota de autoria: Reportagem por Fabiano C. Prometi, para o “Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social”. Conteúdo de propriedade do blog “Grandes Inovações Tecnológicas”; reprodução ou divulgação só com autorização prévia da equipe editorial. 

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