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A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

Butantan-DV: a virada histórica no combate à dengue

Butantan-DV: a virada histórica no combate à dengue

30 de novembro de 2025

Em um marco que poderá redesenhar de forma profunda a estratégia de saúde pública contra a dengue no Brasil — e potencialmente no mundo — a Instituto Butantan teve aprovado, pela Anvisa, o registro da Butantan-DV: a primeira vacina contra dengue do mundo que exige apenas uma dose. Instituto Butantan+2Agência Brasil+2



Entre 2016 e 2024, mais de 16 mil voluntários distribuídos por 14 estados brasileiros participaram dos estudos clínicos da fase 3 — e os resultados mostraram eficácia geral de 74,7% contra dengue sintomática, 91,6% contra formas graves e 100% contra hospitalizações por dengue no grupo de 12 a 59 anos. Instituto Butantan+2Instituto Butantan+2

O resultado marca não só um avanço científico, mas um possível ponto de inflexão na autonomia tecnológica nacional, na gestão sanitária e na equidade no acesso à saúde. A seguir, um panorama crítico e contextualizado desse feito.

Das origens científicas aos desafios da dengue

A dengue — causada por quatro sorotipos distintos do vírus Dengue (DENV-1 a DENV-4) — representa há décadas um dos maiores desafios à saúde pública em áreas tropicais e subtropicais. Desde o século XX, com a expansão urbana e a disseminação do vetor Aedes aegypti, a doença se consolidou no Brasil, com surtos cíclicos e altos custos em mortalidade, internações e sobrecarga do sistema de saúde. Wikipédia+2SpringerLink+2

O desenvolvimento de vacinas contra dengue revelou-se, no entanto, uma tarefa extraordinariamente complexa. A existência de quatro sorotipos implica que a imunização deve gerar proteção equilibrada contra todos, sob risco de não neutralizar adequadamente ou — pior — provocar fenômenos como o chamado “antibody-dependent enhancement” (ADE), no qual anticorpos não neutralizantes favorecem infecções graves. Frontiers+2PMC+2

Até recentemente, as vacinas disponíveis — como Dengvaxia (da empresa Sanofi) e TAK-003 (da empresa japonesa Takeda Pharmaceuticals) — impunham limitações importantes: a Dengvaxia só era recomendada para pessoas com infecção prévia confirmada; o TAK-003 exige duas doses, o que complica logística e adesão vacinal. Wikipedia+2ResearchGate+2

Por isso, a conquista de uma vacina tetravalente, de dose única, com eficácia e segurança apropriadas representa um salto qualitativo — algo que parecia distante há poucos anos.

A emergência da Butantan-DV

O Butantan iniciou o protocolo para registro da sua vacina em dezembro de 2024, após concluir a submissão dos dados referentes aos ensaios clínicos. Agência SP+1

A vacina utiliza tecnologia de vírus vivo atenuado — método consagrado em imunizações como tríplice viral, febre amarela e pólio — e sua composição contempla os quatro sorotipos de DENV, com produção do ingrediente ativo e controle de qualidade totalmente realizados no Brasil. Instituto Butantan+2Sociedade Brasileira de Imunologia+2

Mesmo antes da aprovação oficial, o Butantan já havia produzido mais de 1 milhão de doses e firmado parcerias internacionais (com a empresa chinesa WuXi Biologics) para ampliar a produção, com perspectiva de entregar cerca de 30 milhões de doses até meados de 2026. Instituto Butantan+2Instituto Butantan+2

Impacto imediato e potencial para saúde coletiva

O contexto atual reforça a urgência da nova vacina. No Brasil, foram registrados quase 6,5 milhões de casos prováveis de dengue em 2024 — um aumento abrupto que evidencia a vulnerabilidade estrutural de políticas de controle vetorial e prevenção. Instituto Butantan+2Estado de Minas+2

A Butantan-DV, com dose única, pode alterar substancialmente a logística de campanhas de imunização: facilita a adesão, reduz custos operacionais e acelera a cobertura vacinal em regiões periféricas, urbanas e rurais. Autoridades federais e estaduais já indicam que a vacina será incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) a partir de 2026. Agência Brasil+2Instituto Butantan+2

Além disso, a autonomia técnica e produtiva no país — com insumo e produção nacionais — representa um avanço estratégico para a soberania sanitária, reduzindo dependência de importações e vulnerabilidades associadas a crises internacionais. Instituto Butantan+1

Limitações, riscos e desafios futuros

Apesar do otimismo, há aspectos que demandam cautela e vigilância. Primeiro: a eficácia de 74,7% contra dengue sintomática, embora significativa, não equivale a proteção absoluta — o risco de infecção continua, ainda que grandemente reduzido. Além disso, até o momento, os dados referem-se a população de 12 a 59 anos. A ampliação da vacina para crianças menores e idosos depende de novos estudos. Instituto Butantan+2Instituto Butantan+2

Segundo: embora o perfil de segurança tenha se mostrado satisfatório — com reações adversas leves ou moderadas, e eventos graves raríssimos — a vigilância pós-comercialização será essencial, sobretudo para acompanhar a duração da imunidade e possíveis efeitos em longo prazo.

Terceiro: a dengue permanece sob influência de determinantes estruturais — pobreza, falta de saneamento, desigualdades urbanas, mudanças climáticas — que favorecem a proliferação do vetor. A vacinação é uma ferramenta imprescindível, mas não substitui políticas de controle ambiental e social.

Finalmente, há o desafio da cobertura vacinal equitativa: garantir acesso para comunidades vulneráveis, sobretudo nas periferias urbanas e áreas rurais remotas — sob risco de repetição das desigualdades estruturais que marcam a história da dengue no Brasil.

Perspectivas globais e o papel do Brasil

O avanço do Butantan insere o Brasil em posição de protagonismo global no combate à dengue. Em um momento em que a disseminação do vetor se intensifica com as mudanças climáticas e a urbanização descontrolada, a disponibilidade de uma vacina tetravalente e de dose única pode inspirar outros países endêmicos a reavaliar suas estratégias.

A adoção da Butantan-DV pode também estimular maior investimento em pesquisa de vacinas e terapias para arboviroses, inclusive no campo das novas tecnologias — como vacinas de mRNA, candidatas para o vírus da dengue segundo revisões recentes da literatura científica. arXiv+1

Conclusão: entre esperança e responsabilidade social

A aprovação da Butantan-DV representa uma conquista notável da ciência nacional e uma oportunidade concreta de transformar o panorama da dengue no Brasil. Se bem implementada, com equidade de acesso e combinada a políticas de saneamento e controle vetorial, pode significar uma redução substancial de sofrimento humano, internações e mortes — especialmente nas populações vulneráveis historicamente mais afetadas.

Contudo, esse avanço não pode ser tratado isoladamente como panaceia. É preciso enxergá-lo como parte de uma estratégia ampla de saúde pública, que articule ciência, política social, infraestrutura e justiça territorial. A democratização da saúde — princípio caro a este espaço editorial — depende de que este marco seja convertido em ação concreta e transformadora.


Bibliografia

BUTANTAN. Vacina da dengue do Instituto Butantan, primeira do mundo em dose única, é aprovada pela Anvisa. São Paulo: Instituto Butantan, 26 nov. 2025. Disponível em: https://butantan.gov.br/noticias/vacina-da-dengue-do-instituto-butantan-primeira-do-mundo-em-dose-unica-e-aprovada-pela-anvisa. Acesso em: 30 nov. 2025. Instituto Butantan

IZMIRLY, A. M. et al. Challenges in Dengue Vaccines Development. Frontiers in Immunology, 2020. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/immunology/articles/10.3389/fimmu.2020.01055/full. Acesso em: 30 nov. 2025. Frontiers

DENG, S. Q.; LEE, J. H.; et al. A review on dengue vaccine development. Vaccines, v. 8, n. 1, 2020. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-393X/8/1/63. Acesso em: 30 nov. 2025. MDPI

LARA, J. T. et al. A emergência da dengue como desafio virológico. História, Ciência, Saúde – Manguinhos, 2022. SciELO

SALLES, T. S.; et al. History, epidemiology and diagnostics of dengue in the Americas. Parasites & Vectors, 2018. Disponível em: https://parasitesandvectors.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13071-018-2830-8. Acesso em: 30 nov. 2025. SpringerLink


Nota de autoria
Reportagem de Fabiano C. Prometi, para o site “Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social”. Proibida reprodução parcial ou total sem autorização prévia da equipe editorial.

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