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Reciclagem Química do PET: a Revolução Sustentável que Pode Fechar o Ciclo do Plástico

Reciclagem Química do PET: a Revolução Sustentável que Pode Fechar o Ciclo do Plástico

Data da Publicação: 19 de novembro de 2025


No panorama contemporâneo da sustentabilidade, a reciclagem química do PET (polietileno tereftalato) emerge como uma das apostas mais promissoras para enfrentar a crise global dos plásticos. Em termos técnicos e sociais, trata-se de uma inovação estratégica que perpassa desde laboratórios até fábricas, com profundas implicações políticas, econômicas e ambientais. Esta reportagem, para o site Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social, com a assinatura do repórter Fabiano C. Prometi, explora os meandros dessa tecnologia, seus desafios e seu potencial transformador.

A reciclagem tradicional do PET, conhecida como mecânica, consiste em coletar garrafas usadas, lavá-las, triturá-las em flocos (flakes) e reprocessá-las para produzir novos produtos. No entanto, esse processo degrada gradualmente a qualidade do material, limitando repetidas reutilizações. Já a reciclagem química — ou terciária — vai além: por meio de reações químicas, ela desconstrói o polímero até seus blocos moleculares básicos (monômeros), possibilitando a produção de PET com qualidade equivalente ao virgem. cefic.org+2chemistry-europe.onlinelibrary.wiley.com+2

A gênese dessa tecnologia remonta a décadas de pesquisa em química de polímeros, mas só recentemente ganhou impulso industrial e comercial expressivo. Entre os métodos mais comuns de despolimerização estão a glicólise, a hidrólise e a metanólise, cada uma com vantagens e limitações. chemistry-europe.onlinelibrary.wiley.com+2ccnh.ufabc.edu.br+2 Por exemplo, a hidrólise alcalina (em meio básico) permite a recuperação do ácido tereftálico (PTA), um dos monômeros originais do PET — conforme demonstrado em estudos a temperaturas relativamente baixas. Periodikos Por outro lado, processos como o da empresa Gr3n aplicam micro-ondas para acelerar a despolimerização, tratando resíduos coloridos ou contaminados e retornando a monômeros puros (TPA e etilenoglicol, MEG), prontos para serem repolimerizados sem perda de qualidade. GR3N | A new recycling concept+1

Um marco recente ocorreu em outubro de 2024, quando a Axens, em parceria com a IFPEN e a japonesa JEPLAN, lançou comercialmente o processo Rewind® PET, após testes bem-sucedidos em escala semi-industrial. IFPEN+1 O processo envolve glicólise contínua e purificação profunda do monômero BHET (bis(hidroxietil) tereftalato), separando aditivos e corantes para gerar um monômero tão puro que pode voltar a plantas de polimerização convencionais — uma prova de que a reciclagem química pode se integrar à infraestrutura industrial já existente. IFPEN

No Brasil, embora a reciclagem química ainda seja pouco difundida, o contexto institucional e de mercado é favorável para sua expansão. O 13º Censo da Reciclagem de PET no Brasil, realizado pela ABIPET, reportou que em 2024 foram recicladas 410 mil toneladas de PET pós-consumo — um crescimento de 14% em relação a 2022. abipet.org.br+2UOL Notícias+2 Ainda assim, a despeito desse avanço, 23% da capacidade das recicladoras ficou ociosa em média, chegando a picos de 40% — segundo a própria ABIPET, por causa da falta de coleta seletiva eficiente. O Dia Esse dado revela um paradoxo: há demanda tecnológica e científica por inovação, mas persistem gargalos logísticos e estruturais que limitam o aproveitamento total da cadeia de reciclagem.

Por que isso importa? A reciclagem química é mais do que um truque de laboratório: ela representa uma rota eficaz para fechar o ciclo do plástico, avançando na economia circular. Ao permitir a depolimerização completa, essa tecnologia evita a degradação da qualidade do material reciclado e oferece um monômero “virgem-quase” para fabricar novos produtos. Isso tem impacto direto nas emissões de carbono — especialmente porque evita o uso de matéria-prima fóssil — e contribui para a diminuição de resíduos enviados a aterros.

No cenário global, outras iniciativas também sinalizam o potencial transformador da reciclagem química. A empresa francesa Carbios, por exemplo, desenvolveu enzimas que quebram o PET em suas unidades básicas rapidamente, uma abordagem biotecnológica que complementa os métodos químicos convencionais. Wikipédia+1 Já no âmbito catalítico, pesquisas recentes investigam fotocatálise: estudos teóricos e experimentais mostram que certos óxidos de alta entropia podem, sob luz, degradar resíduos de PET e produzir hidrogênio limpo. arXiv+1 Além disso, avanços em inteligência artificial ampliam horizontes: há protocolos que geram copolímeros similares ao PET, mas otimizados para menor pegada ambiental e maior reciclabilidade futura. arXiv

Contudo, os riscos e desafios não são triviais. Primeiro, a eficiência energética: muitos processos químicos ainda demandam temperaturas elevadas ou pressões altas, o que pode comprometer os ganhos ambientais se a fonte de energia não for limpa. ccnh.ufabc.edu.br Segundo, a economia de escala: plantas como a Rewind® PET precisam de volume de resíduos consistente para operar com viabilidade financeira. Terceiro, a política pública: sem coleta seletiva eficiente, sem incentivos regulatórios e sem infraestrutura para triagem, a tecnologia corre o risco de ficar restrita a nichos ou depender de subsídios. No Brasil, por exemplo, a ociosidade reportada pelas recicladoras aponta para essa fragilidade estrutural. UOL Notícias+1 Por fim, há a questão social: muitos catadores e cooperativas de reciclagem temem que a automação e a industrialização da reciclagem química desvalorize seu trabalho ou concentre lucros em grandes empresas químicas.

Apesar dessas tensões, o avanço da reciclagem química do PET representa uma virada estratégica no debate sobre sustentabilidade, justiça social e inovação. Para que seu potencial seja plenamente realizado, será necessário um esforço conjunto: governos, empresas químicas, indústrias de bens de consumo, cooperativas de recicladores e a sociedade civil. Políticas que estimulem a coleta seletiva, investimentos em tecnologia limpa e acordos que valorizem a inclusão social são fundamentais para que a promessa da economia circular se torne realidade — não apenas nos laboratórios, mas nas comunidades.


Nota de Rodapé
Reportagem elaborada por Fabiano C. Prometi, repórter, com revisão editorial da equipe do Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social.

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Bibliografia

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Fonseca, Talitha Granja; De Almeida, Yeda Medeiros Bastos; Vinhas, Glória M. Reciclagem Química do PET Pós-consumo: Caracterização Estrutural do Ácido Tereftálico e Efeito da Hidrólise Alcalina em Baixa Temperatura. Polímeros: Ciência e Tecnologia, vol. 24, n. 5, p. 567–571, 2014. Periodikos
Martinbianco, B. Reciclagem química do PET: avaliação das principais metodologias de despolimerização. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 2022. Lume
Santos, C. M. A.; et al. Processo de reciclagem química de PET em meio alcalino. Revista Matéria, 2018. (Processo de despolimerização via hidrólise) SciELO
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Carbios. CARBIOS celebra inauguração de planta de bioreciclagem de PET. Comunicado, abr. 2024. carbios.com
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