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A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

Roupa anticalor com nanopartículas — uma esperança (e um desafio) para o mundo do trabalho e do conforto térmico

Roupa anticalor com nanopartículas — uma esperança (e um desafio) para o mundo do trabalho e do conforto térmico

02 de dezembro de 2025

No auge da crise climática e com ondas de calor cada vez mais frequentes, a busca por vestimentas que ajudem o corpo humano a lidar com altas temperaturas ganha urgência social e tecnológica. Recentemente, a reportagem do portal Inovação Tecnológica divulgou o avanço de uma “roupa anticalor” — um tecido especial capaz de refletir até 96% da radiação solar, reduzindo a temperatura da pele e mantendo o usuário mais fresco, seco e confortável. inovacaotecnologica.com.br

Este é o tipo de inovação que convém acompanhar com olhar crítico: de um lado, representa um avanço real com potência de impacto social; de outro, desperta uma série de dilemas práticos, econômicos e políticos. Ao longo deste texto, discutiremos desde a gênese da tecnologia até suas possibilidades concretas — e os desafios que podem surgir.

A ideia de roupas que vão além do mero vestir não é nova. Tecidos funcionais já existiam no mercado — peças térmicas, com isolamento para frio ou com fibras especiais para esportes, entre outras aplicações. Blog Columbia Sportswear+2Gazeta do Povo+2 Contudo, no contexto das mudanças climáticas globais, a atenção se volta à capacidade de manter o corpo humano dentro de sua zona de conforto térmico sem recorrer a sistemas energéticos pesados como ar-condicionado ou ventilação intensiva.

A “roupa anticalor” mencionada pela Inovação Tecnológica baseia-se em um tecido tratado com nanopartículas ou estrutura especial, de modo a impedir que a radiação solar penetre e aqueça o corpo — refletindo a maior parte da energia recebida. inovacaotecnologica.com.br+1 Esse tipo de abordagem dialoga com um ramo crescente da pesquisa global: os chamados tecidos de “radiative cooling” ou “cooling fabrics”, que combinam alta refletância solar, emissão térmica (infra-vermelho), ventilação e leveza — permitindo que o próprio corpo dissipe calor de modo mais eficiente. Wikipedia+2ScienceDaily+2

Recentes avanços acadêmicos e industriais intensificam o debate. Um exemplo é a pesquisa publicada por uma equipe da The Hong Kong Polytechnic University, que desenvolveu uma “roupa robótica suave” (soft-robotic clothing): mediante atuadores têxteis que se expandem com o calor, a roupa dobra sua resistência térmica, chegando a manter a superfície interna até 10 °C mais fria do que roupas resistentes ao calor convencionais — mesmo com a superfície externa a 120 °C. ScienceDaily+1

Além disso, outra pesquisa emergente demonstra que tecidos com compostos como polilactídeo (PLA) e nanosheets de nitreto de boro (BNNS) podem refletir elevada parcela da radiação solar e permitir a liberação do calor corpóreo, reduzindo a temperatura da pele em até 2 °C sob sol direto ou 3,8 °C à noite — sem uso de energia. Phys.org+1

Essas inovações ganham especial relevância quando se considera os números assustadores associados aos impactos do calor sobre a saúde e a produtividade: conforme relatório citado pela equipe de HK PolyU, entre 2000 e 2019 ocorreram aproximadamente 489 mil mortes por ano atribuídas ao calor extremo no mundo — evidenciando a urgência de soluções individuais e coletivas para lidar com o calor crescente. ScienceDaily

Mas que significado prático e social pode ter a “roupa anticalor” em contextos concretos, especialmente no mundo do trabalho, da desigualdade e das condições precárias?

Para muitos trabalhadores de setores informais ou de atividades expostas — agricultura, construção civil, serviços de rua, entregas, comércio ambulante, transporte, entre outros — o calor não é mero desconforto: é questão de saúde, produtividade e dignidade. Em países tropicais como o Brasil, com longos períodos de calor intenso e desigualdade social, uma roupa que realmente proteja do sol e do calor sem precisar de ar-condicionado ou refrigeração pode representar uma ferramenta de justiça social.

Além disso, em contextos urbanos com menor acesso à moradia digna, ar-condicionado ou ventilação adequadas — como favelas, periferias, assentamentos informais — o uso de roupas com tecnologia de resfriamento corporal poderia aliviar o sofrimento térmico no dia a dia.

No entanto, várias perguntas críticas surgem. Primeiro: qual será o custo dessas peças? Será essa “roupa anticalor” acessível para as camadas mais vulneráveis — os trabalhadores de baixa renda? Se a tecnologia depender de materiais caros, nanotecnologia, produção especializada e certificações, ela pode se tornar algo elitista, acessível apenas a quem já tem privilégios.

Segundo: durabilidade e manutenção. Tecidos com nanopartículas, tratamentos especiais ou estruturas sofisticadas podem exigir cuidados específicos de lavagem, reativação, substituição — o que, de novo, restringe seu uso real nas camadas populares. Esse problema já afeta roupas com fotoproteção UV ou térmicas tradicionais, que nem sempre mantêm suas propriedades após várias lavagens. CNN Brasil+1

Terceiro: riscos ambientais e de descarte. Muitos tecidos high-tech dependem de polímeros sintéticos, nanopartículas ou materiais não-biodegradáveis — o que levanta questões sobre lixo têxtil, reciclabilidade e impacto ambiental. Num contexto em que a urgência climática exige consumo responsável, soluções sustentáveis precisam considerar não apenas desempenho, mas ciclo de vida, materiais e impacto ecológico.

Outra tensão reside no contraste entre medidas individuais (roupas “anticalor”) e necessidades estruturais: acesso a espaços sombreados, moradia digna, cidadania urbana, ar-condicionado (ou ventilação passiva eficiente), políticas públicas de adaptação à mudança climática. A ênfase exagerada no consumo de tecnologia pessoal não pode servir como desculpa para negligenciar transformações sociais amplas.

Por fim, há a dimensão simbólica e cultural: roupas projetadas para reduzir o sofrimento térmico são uma resposta adaptativa à crise climática — mas não deve ser a única. Se encaradas como “salvação pessoal”, podem desviar o foco de mudanças sistêmicas necessárias no planejamento urbano, proteção social, justiça ambiental e trabalho decente.

Todavia, a tecnologia é promissora. Se combinada com políticas públicas, produção sustentável e compromisso com o acesso universal, tecidos anticalor podem representar um passo concreto para adaptar sociedades vulneráveis às novas realidades climáticas — reduzindo sofrimento, doenças, mortes por calor e desigualdades.

Em síntese: a “roupa anticalor” tem potencial real de se tornar um instrumento de justiça social e adaptação, mas seu impacto dependerá de escolhas políticas, econômicas e éticas. A tecnologia não elimina a urgência de políticas climáticas, moradia digna, proteção laboral e direitos sociais — mas pode ser uma ferramenta útil no repertório de uma adaptação humana digna ao calor crescente do planeta.


Referências

– The Hong Kong Polytechnic University. Intelligent soft robotic clothing for automatic thermal adaptation in extreme heat. ScienceDaily, 15 ago. 2024. Acessado em 28 nov. 2025. ScienceDaily
– “New fabric reflects 96% of sunlight to keep wearers cooler in extreme heat.” Phys.org, 20 nov. 2025. Acessado em 2 dez. 2025. Phys.org
– “The new fashion: Clothes that help combat rising temperatures.” ScienceDaily, 10 out. 2024. Acessado em 28 nov. 2025. ScienceDaily
– “Sweat-sensitive adaptive warm clothing.” PMC, 2005. PMC
– “Roupas térmicas: entenda a importância e a tecnologia por trás delas.” Blog Columbia Sportswear, 30 mar. 2021. Acessado em 28 nov. 2025. Blog Columbia Sportswear
– “Com tecnologia da NASA, camisa não esquenta no calor e aquece no frio.” Gazeta do Povo, 25 set. 2014. Acessado em 28 nov. 2025. Gazeta do Povo
– “Roupas com fotoproteção funcionam? Saiba mais sobre a tecnologia.” CNN Brasil, 16 dez. 2023. Acessado em 28 nov. 2025. CNN Brasil


Créditos
Reportagem de: Repórter Fabiano C. Prometi — editor-chefe: Fabiano C. Prometi
Conteúdo originalmente produzido para o site “Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social”. Todo o conteúdo é de propriedade do blog; sua reprodução ou divulgação depende de autorização prévia da equipe editorial.

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