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A nova infraestrutura do poder: inteligência artificial, política industrial e os rumos do desenvolvimento global

A nova infraestrutura do poder: inteligência artificial, política industrial e os rumos do desenvolvimento global

Publicado em 19 de janeiro de 2026

Por Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa tecnológica para se consolidar como uma das principais infraestruturas estratégicas do século XXI. O conjunto de acontecimentos que marca este início de 2026 — com destaque para o Fórum Econômico Mundial em Davos, os planos da União Europeia para a criação de “gigafábricas de IA” e o reposicionamento estratégico de países emergentes como o Vietnã — revela uma inflexão histórica: a tecnologia passa a ocupar um papel central não apenas na economia, mas também na política, na geopolítica e nas disputas por justiça social e desenvolvimento.

A origem desse movimento remonta ao avanço acelerado do aprendizado de máquina e das redes neurais profundas ao longo da última década. Desde a popularização de modelos de linguagem em larga escala, sistemas de visão computacional e algoritmos de tomada de decisão automatizada, a IA passou a ser incorporada de forma transversal em setores como saúde, finanças, logística, educação, defesa e políticas públicas. Segundo dados da consultoria McKinsey, tecnologias baseadas em IA podem adicionar até US$ 13 trilhões ao PIB global até 2030, com impactos diretos sobre produtividade, organização do trabalho e competitividade internacional.

É nesse contexto que a União Europeia anunciou, neste mês, um ambicioso plano para estimular a criação de grandes centros industriais dedicados ao desenvolvimento e à operação de sistemas avançados de inteligência artificial. As chamadas “gigafábricas de IA” combinam data centers de altíssimo desempenho, pesquisa aplicada e cadeias produtivas de semicondutores, buscando reduzir a dependência tecnológica do bloco em relação aos Estados Unidos e à China. Trata-se de uma política industrial clássica, agora aplicada ao coração da economia digital, alinhada ao AI Act, marco regulatório europeu que tenta equilibrar inovação, direitos fundamentais e soberania tecnológica.

Ao mesmo tempo, o Fórum Econômico Mundial, que ocorre esta semana em Davos, coloca a inteligência artificial no centro dos debates sobre crescimento econômico, instabilidade geopolítica e futuro do trabalho. Relatórios apresentados no evento indicam que, embora a automação possa substituir até 30% das tarefas atualmente desempenhadas por humanos até 2035, ela também tende a criar novas ocupações qualificadas, desde que haja políticas robustas de requalificação profissional e inclusão digital. O problema, como alertam economistas e sociólogos, é que os benefícios da IA não se distribuem automaticamente: sem regulação e investimento público, a tecnologia pode aprofundar desigualdades já existentes entre países, regiões e classes sociais.

Essa preocupação é particularmente relevante quando observamos a movimentação de países em desenvolvimento. O Vietnã, por exemplo, anunciou oficialmente a inovação científica e tecnológica como eixo estruturante de sua estratégia nacional de crescimento. O país aposta em educação técnica, pesquisa aplicada e parcerias internacionais para inserir-se nas cadeias globais de valor da economia digital. Esse movimento dialoga com uma tendência mais ampla observada no Sul Global: governos que compreendem a tecnologia não como luxo, mas como ferramenta de soberania, inclusão produtiva e redução da pobreza.

No setor privado, a transformação é igualmente profunda. Executivos de grandes empresas de tecnologia defendem a emergência dos chamados “nativos em IA” — profissionais formados em um ambiente no qual ferramentas inteligentes já fazem parte do cotidiano. Essa mudança cultural altera a forma como produtos são concebidos, como decisões são tomadas e como o trabalho é organizado. Estudos recentes da Organização Internacional do Trabalho indicam que empresas que adotam IA de forma estratégica, combinada com participação dos trabalhadores, apresentam ganhos de produtividade superiores a 20% sem aumento proporcional do desemprego, desmontando a narrativa simplista de que tecnologia e trabalho são forças necessariamente opostas.

Do ponto de vista social, os desdobramentos futuros da inteligência artificial colocam desafios éticos e políticos de grande envergadura. Sistemas algorítmicos já influenciam decisões de crédito, vigilância, distribuição de benefícios sociais e até sentenças judiciais em alguns países. Pesquisas acadêmicas demonstram que, sem transparência e diversidade nos dados de treinamento, esses sistemas podem reproduzir e amplificar discriminações raciais, de gênero e territoriais. Por isso, cresce o consenso internacional de que a governança da IA deve envolver não apenas empresas e engenheiros, mas também o Estado, a sociedade civil e a comunidade científica.

Figura ilustrativa: crescimento estimado do investimento global em inteligência artificial por região e seus impactos sobre produtividade e emprego. Fonte: McKinsey Global Institute; OIT (2024–2025).

O que se observa, portanto, é a consolidação da inteligência artificial como uma infraestrutura de poder. Assim como a eletricidade e a internet redefiniram o século XX, a IA redefine o século XXI, reorganizando economias, Estados e relações sociais. A disputa em curso não é apenas tecnológica, mas profundamente política: quem controla os dados, os algoritmos e a capacidade computacional controla também parcelas crescentes da produção de riqueza e da capacidade de decisão coletiva. Para países como o Brasil e outras nações latino-americanas, o desafio é claro: ou participam ativamente desse processo, com políticas públicas, investimento em ciência e compromisso com justiça social, ou permanecerão na periferia digital do sistema global.


Bibliografia (normas ABNT)

EUROPEAN COMMISSION. Artificial Intelligence Act: regulatory framework proposal. Bruxelas: European Union, 2024. Disponível em: https://digital-strategy.ec.europa.eu. Acesso em: 19 jan. 2026.

MCKINSEY GLOBAL INSTITUTE. The economic potential of artificial intelligence. New York: McKinsey & Company, 2024. Disponível em: https://www.mckinsey.com. Acesso em: 19 jan. 2026.

WORLD ECONOMIC FORUM. Global risks report 2025. 20. ed. Genebra: WEF, 2025. Disponível em: https://www.weforum.org. Acesso em: 19 jan. 2026.

ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Generative AI and jobs: a global analysis. Genebra: OIT, 2024. Disponível em: https://www.ilo.org. Acesso em: 19 jan. 2026.

NGUYEN, Manh Hung. Innovation as a driver of national development. Hanói: Ministry of Science and Technology of Vietnam, 2025.


Créditos

Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi
Conteúdo pertencente ao blog Grandes Inovações Tecnológicas. Reprodução total ou parcial somente com autorização prévia do autor. Licença de uso: a definir pelo editor.


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