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A paz de Trump significa guerra em 2026: militarização, tecnologia e o colapso do multilateralismo

A paz de Trump significa guerra em 2026: militarização, tecnologia e o colapso do multilateralismo

Data de publicação: 3 de janeiro de 2026

O discurso da “paz pela força”, reiterado por Donald Trump desde sua primeira passagem pela Casa Branca, voltou ao centro do debate internacional em 2026 com consequências concretas e violentas. Longe de representar estabilidade, a retórica trumpista de segurança tem se materializado em uma escalada militar sem precedentes recentes, marcada por intervenções unilaterais, enfraquecimento do multilateralismo e uso intensivo de tecnologias bélicas avançadas. O paradoxo é evidente: a paz anunciada como slogan político se converte, na prática, em guerra aberta, instabilidade regional e aprofundamento das desigualdades globais.

A doutrina da “paz pela força” não é nova. Suas raízes remontam à Guerra Fria, quando os Estados Unidos consolidaram uma estratégia de dissuasão baseada na superioridade militar e tecnológica. No século XXI, entretanto, essa lógica foi reatualizada por Trump com contornos ainda mais agressivos, combinando nacionalismo econômico, desprezo por organismos internacionais e aposta irrestrita no complexo industrial-militar. Ao abandonar acordos multilaterais, como tratados de controle de armas e compromissos climáticos, o trumpismo reposicionou os Estados Unidos como uma potência disposta a agir sozinha, mesmo à custa da legalidade internacional.

Nesse contexto, a tecnologia ocupa papel central. O uso crescente de drones armados, sistemas de vigilância baseados em inteligência artificial, armas de precisão guiadas por satélite e plataformas cibernéticas redefine a natureza da guerra contemporânea. Dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) indicam que os gastos militares globais ultrapassaram US$ 2,4 trilhões em 2025, com os Estados Unidos respondendo por cerca de 39% desse total. Esse investimento maciço não se traduz em segurança coletiva, mas em uma corrida armamentista que beneficia grandes corporações de defesa e aprofunda a assimetria de poder entre nações.

A ofensiva norte-americana contra países considerados “ameaças” ou “instáveis”, como a Venezuela, insere-se diretamente nessa lógica. A combinação entre sanções econômicas, guerra híbrida e, mais recentemente, ações militares diretas evidencia uma estratégia de mudança de regime apoiada em superioridade tecnológica. Sistemas de reconhecimento aéreo, satélites de vigilância e operações cibernéticas são empregados não apenas para fins militares, mas também como instrumentos de pressão política e econômica. Trata-se de uma forma sofisticada de dominação, que dispensa ocupações prolongadas, mas produz efeitos devastadores sobre populações civis.

Os desdobramentos futuros desse modelo são preocupantes. A normalização do uso unilateral da força tende a fragilizar ainda mais a Organização das Nações Unidas e outros fóruns multilaterais, abrindo espaço para um mundo regido pela lei do mais forte. Além disso, a difusão de tecnologias militares avançadas aumenta o risco de conflitos assimétricos e de erros de cálculo com consequências globais. Especialistas alertam que a integração entre inteligência artificial e armamentos autônomos reduz o controle humano sobre decisões letais, criando dilemas éticos e riscos sistêmicos inéditos.

Do ponto de vista social, os impactos são igualmente profundos. Recursos que poderiam ser destinados a políticas públicas, inovação social e combate às desigualdades são desviados para a indústria da guerra. Em países do Sul Global, as intervenções militares e sanções econômicas associadas ao trumpismo resultam em crises humanitárias, deslocamentos forçados e colapso de serviços essenciais. A promessa de paz, nesse cenário, revela-se uma narrativa ideológica que encobre interesses geopolíticos e econômicos específicos.

Um elemento visual elucidativo desse processo é a evolução dos gastos militares globais entre 2000 e 2025, que demonstra crescimento contínuo, especialmente após 2017. Figura 1 – Evolução dos gastos militares globais (2000–2025). Fonte: SIPRI, 2025. O gráfico evidencia como a retórica de segurança tem sido acompanhada por uma expansão constante do orçamento bélico, sem correlação direta com a redução de conflitos armados.

Sob uma perspectiva crítica e alinhada aos valores da esquerda, é fundamental reconhecer que a chamada “paz de Trump” representa, na verdade, a consolidação de um projeto de poder baseado na coerção, na exclusão e na mercantilização da guerra. Ao transformar a tecnologia em instrumento de dominação e ao subordinar a política externa a interesses corporativos, esse modelo mina qualquer possibilidade de segurança duradoura e justiça internacional.

Condenar essa lógica não é apenas uma posição ideológica, mas uma exigência ética e política. A construção da paz verdadeira passa pelo fortalecimento do multilateralismo, pela cooperação internacional, pelo controle democrático das tecnologias e pela centralidade dos direitos humanos. Em 2026, a experiência concreta demonstra que a paz prometida por Trump significa, para muitos povos, mais guerra, mais sofrimento e menos futuro.


Bibliografia

STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE. Trends in World Military Expenditure 2025. Estocolmo: SIPRI, 2025. Disponível em: https://www.sipri.org. Acesso em: 3 jan. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Charter of the United Nations. São Francisco: ONU, 1945. Disponível em: https://www.un.org. Acesso em: 3 jan. 2026.

OCafezinho. A paz de Trump significa guerra em 2026. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://www.ocafezinho.com.br. Acesso em: 3 jan. 2026.

KALDOR, Mary. New and Old Wars. 3. ed. Cambridge: Polity Press, 2012.


Créditos

Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

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Sob o discurso da “paz pela força”, Trump empurra o mundo para um novo ciclo de guerras, militarização e colapso do multilateralismo. Uma análise dura sobre tecnologia, poder e interesses que ameaçam a estabilidade global.

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