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Como a bem sucedida missão Artemis II se insere na nova corrida espacial Fernanda Brandão , Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio Nos últimos dias, a comunidade internacional acompanhou com atenção e expectativa a missão Artemis II, da NASA, que enviou a cápsula Orion ao espaço. O principal objetivo era circundar a Lua e fazer imagens da face oculta do satélite natural da Terra. A missão acontece 54 anos depois da última expedição que levou o homem à superfície lunar, a Apollo 17, em 1972. A perspectiva é de que em 2028 a NASA realize uma nova missão, a Artemis IV , com o objetivo de pousar na Lua e posteriormente dar início à construção de uma estação lunar até 2030. Contudo, a retomada do esforço de pousar na Lua acontece em um cenário de crescente competição entre as principais potências globais e uma retomada da corrida espacial. Como argumenta o cientista político Barry Posen , para ser o poder hegemônico em termos militares, é preciso que o país que ocupa essa posiçã...

Entre Davos e a desigualdade global: a política internacional em disputa no início de 2026

Entre Davos e a desigualdade global: a política internacional em disputa no início de 2026

Publicado em 19 de janeiro de 2026

Por Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

O início de 2026 expõe, com clareza inédita, as contradições estruturais da política internacional contemporânea. Enquanto chefes de Estado, executivos e organismos multilaterais se reúnem na Suíça para mais uma edição do Fórum Econômico Mundial, indicadores econômicos e decisões políticas revelam um cenário marcado por concentração de riqueza, instabilidade comercial e enfraquecimento do multilateralismo. A política global se move, cada vez mais, em um campo de tensão entre cooperação retórica e competição real por poder econômico e influência geopolítica.

A divulgação, nesta semana, de um relatório da Oxfam trouxe números que ajudam a dimensionar esse quadro. Segundo a organização, a riqueza acumulada pelos bilionários ultrapassou US$ 18 trilhões em 2025, com crescimento de dois dígitos em apenas um ano. Trata-se de um fenômeno que não é novo, mas que se intensifica à medida que políticas fiscais regressivas, financeirização da economia e assimetrias tecnológicas se consolidam como pilares do sistema global. Economistas críticos apontam que essa concentração não é apenas um efeito colateral do crescimento, mas um elemento estruturante do atual modelo de globalização, com impactos diretos sobre a democracia e a capacidade dos Estados de formular políticas redistributivas.

É nesse ambiente que o Fórum de Davos se inicia, cercado por críticas e expectativas. Criado nos anos 1970 como espaço de diálogo entre governos e empresas, o evento passou a simbolizar, para muitos analistas, a desconexão entre elites globais e as demandas sociais concretas. Em 2026, essa percepção se aprofunda diante da forte influência exercida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja agenda internacional volta a enfatizar tarifas comerciais, acordos bilaterais assimétricos e pressão direta sobre aliados. Reportagens de agências internacionais indicam que a simples possibilidade de novas barreiras comerciais anunciadas por Washington já foi suficiente para provocar quedas em bolsas de valores e elevar a volatilidade dos mercados globais.

A política comercial, aliás, reaparece como instrumento central de poder. O uso de tarifas e sanções como mecanismo de coerção diplomática reflete uma tendência de retorno ao nacionalismo econômico, em contraste com o discurso liberal que marcou o pós-Guerra Fria. Dados do Fundo Monetário Internacional mostram que, entre 2018 e 2024, o número de medidas comerciais restritivas adotadas por países do G20 quadruplicou. Em 2026, esse movimento continua a produzir efeitos sistêmicos, afetando cadeias globais de produção, inflação e crescimento, especialmente em economias dependentes de exportações.

No eixo asiático, a política internacional também passa por redefinições importantes. O anúncio do Asian Financial Forum, em Hong Kong, e a realização de uma reunião decisiva do Partido Comunista do Vietnã indicam o esforço da região em afirmar maior protagonismo nas decisões econômicas globais. O Vietnã, em particular, tornou-se um exemplo emblemático de como Estados nacionais buscam combinar planejamento político, inserção internacional e atração de investimentos em um contexto de rivalidade entre China e Estados Unidos. Esse reposicionamento asiático evidencia que o centro de gravidade da política internacional segue em deslocamento, ainda que de forma desigual e conflituosa.

Paralelamente, a atuação dos organismos multilaterais enfrenta um momento de fragilidade. Debates recentes no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas sobre direitos humanos, conflitos regionais e sanções econômicas expõem os limites de uma governança global baseada no consenso entre grandes potências. Pesquisadores em relações internacionais observam que o aumento de vetos, a politização de agendas humanitárias e a escalada dos gastos militares enfraquecem a capacidade da ONU de atuar como mediadora efetiva. Segundo o SIPRI, os gastos militares globais superaram US$ 2,4 trilhões em 2024, alcançando o maior patamar desde o fim da Guerra Fria.

Figura ilustrativa: evolução da concentração de riqueza, dos gastos militares globais e do uso de tarifas comerciais como instrumento político. Fontes: Oxfam; SIPRI; FMI (2024–2025).

Do ponto de vista social, os desdobramentos desse cenário são profundos. A combinação entre desigualdade econômica, instabilidade política e fragmentação institucional cria um ambiente propício ao avanço de discursos autoritários e à erosão de direitos sociais. Estudos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento indicam correlação direta entre aumento da desigualdade e queda nos índices de confiança democrática. Assim, a política internacional de 2026 não pode ser compreendida apenas como jogo entre Estados, mas como um processo que afeta diretamente a vida cotidiana de bilhões de pessoas, do preço dos alimentos ao acesso a políticas públicas.

Em síntese, o que se desenha neste início de ano é uma ordem internacional em transição, marcada por disputas abertas entre globalização e nacionalismo, cooperação e coerção, democracia e concentração de poder. A retórica do diálogo global, frequentemente celebrada em fóruns internacionais, convive com práticas que aprofundam assimetrias e fragilizam instituições. Para países periféricos e sociedades desiguais, o desafio central permanece o mesmo: transformar a política internacional em instrumento de desenvolvimento e justiça social, e não apenas em arena de interesses das grandes potências.


Bibliografia (normas ABNT)

OXFAM. Survival of the richest: how global inequality shapes politics. Oxford: Oxfam International, 2026. Disponível em: https://www.oxfam.org. Acesso em: 19 jan. 2026.

WORLD ECONOMIC FORUM. Global risks report 2025. 20. ed. Genebra: WEF, 2025. Disponível em: https://www.weforum.org. Acesso em: 19 jan. 2026.

INTERNATIONAL MONETARY FUND. World economic outlook. Washington, DC: IMF, 2025. Disponível em: https://www.imf.org. Acesso em: 19 jan. 2026.

STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE. Trends in world military expenditure 2024. Estocolmo: SIPRI, 2025. Disponível em: https://www.sipri.org. Acesso em: 19 jan. 2026.

UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME. Human development report 2024. New York: UNDP, 2024. Disponível em: https://hdr.undp.org. Acesso em: 19 jan. 2026.


Créditos

Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

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