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A paz de Trump significa guerra em 2026: militarização, tecnologia e o colapso do multilateralismo

Mundo reage ao ataque de Trump contra a Venezuela com choque diplomático, condenações e divisões ideológicas


Mundo reage ao ataque de Trump contra a Venezuela com choque diplomático, condenações e divisões ideológicas

Data de publicação: 3 de janeiro de 2026

A ofensiva militar lançada pelos Estados Unidos contra a Venezuela na madrugada de 3 de janeiro de 2026 provocou uma das mais intensas ondas de reação internacional desde o fim da Guerra Fria. Ordenado pelo presidente Donald Trump, o ataque incluiu bombardeios seletivos em território venezuelano e a captura do presidente Nicolás Maduro, posteriormente levado para os Estados Unidos. A operação, justificada pela Casa Branca como parte de uma suposta estratégia de combate ao “narcoterrorismo” e de “restauração da democracia”, foi recebida com choque, condenações formais e profundas divisões ideológicas ao redor do mundo.

A ação ocorre em um contexto histórico marcado por décadas de tensões entre Washington e Caracas. Desde a ascensão do chavismo, no final dos anos 1990, os Estados Unidos adotaram uma política crescente de sanções econômicas, isolamento diplomático e apoio a forças oposicionistas. Ainda assim, mesmo nos momentos mais agudos da crise venezuelana, a intervenção militar direta sempre foi considerada uma linha vermelha, dada a centralidade do princípio da soberania nacional no direito internacional contemporâneo. O ataque de 2026 rompe esse tabu e reabre feridas históricas na América Latina, região profundamente marcada por intervenções externas ao longo do século XX.

As reações na América Latina foram imediatas e contundentes, especialmente entre governos progressistas. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, classificou a ofensiva como uma violação inaceitável da soberania venezuelana e afirmou que a ação norte-americana ameaça a própria ordem multilateral construída após a Segunda Guerra Mundial. Para o governo brasileiro, trata-se de um precedente perigoso que fragiliza a Carta das Nações Unidas e normaliza o uso unilateral da força como instrumento de política externa. México e Chile adotaram posição semelhante, defendendo a resolução pacífica de conflitos e alertando para os riscos de escalada regional.

Na Colômbia, o governo de Gustavo Petro expressou profunda preocupação com os efeitos humanitários da ofensiva e determinou o reforço militar na fronteira com a Venezuela, diante do temor de novos fluxos migratórios forçados. Cuba foi ainda mais enfática ao classificar a operação como crime de Estado e ato de terrorismo internacional contra o povo venezuelano. Rússia e Irã, por sua vez, denunciaram a ação como agressão armada, reiterando que não houve qualquer autorização do Conselho de Segurança da ONU que pudesse legitimar o uso da força.

Na Europa, as reações foram mais cautelosas, mas majoritariamente críticas. A União Europeia pediu moderação e respeito ao direito internacional, mesmo reconhecendo as limitações democráticas do governo Maduro. França e Espanha enfatizaram que a proibição do uso da força é um dos pilares do sistema internacional pós-1945 e não pode ser relativizada por conveniências políticas. O Reino Unido declarou não ter participado da operação e afirmou que aguardará investigações independentes antes de qualquer posicionamento definitivo.

Em contraste, setores da direita global celebraram a ofensiva como um golpe contra o autoritarismo chavista. Lideranças conservadoras nos Estados Unidos e na América do Sul, como o presidente argentino Javier Milei, saudaram a captura de Maduro como um passo necessário para a “libertação” da Venezuela. Essa narrativa, no entanto, ignora deliberadamente o fato de que a imposição militar de mudanças de regime historicamente produziu instabilidade, guerras prolongadas e colapsos institucionais, como demonstram os casos do Iraque, do Afeganistão e da Líbia.

Do ponto de vista jurídico, a ofensiva norte-americana enfrenta críticas severas. Especialistas em direito internacional apontam que a operação viola frontalmente o Artigo 2º, parágrafo 4º, da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado. Sem autorização explícita do Conselho de Segurança e sem comprovação de legítima defesa imediata, a ação se enquadra na definição de crime de agressão, conceito consolidado após os julgamentos de Nuremberg e central para a arquitetura jurídica internacional contemporânea.

O secretário-geral da ONU alertou que a ofensiva cria um precedente extremamente perigoso, ao sinalizar que grandes potências podem capturar chefes de Estado estrangeiros e intervir militarmente sem consequências institucionais. Tal prática enfraquece mecanismos multilaterais, estimula a lei do mais forte e compromete a segurança coletiva global, especialmente para países do Sul Global.

As implicações geopolíticas e sociais do ataque são profundas. Além de aumentar o risco de instabilidade regional, a ofensiva ameaça agravar a crise humanitária venezuelana, já severamente impactada por anos de sanções econômicas. Também reforça a percepção de que os Estados Unidos retomaram uma política explícita de mudança de regime na América Latina, em clara contradição com o discurso de defesa da democracia e dos direitos humanos. Para movimentos de esquerda e organizações comprometidas com a justiça social, trata-se de um retrocesso histórico que reativa lógicas imperialistas e nega aos povos o direito à autodeterminação.

Sob uma perspectiva crítica, a ação de Washington não pode ser dissociada de interesses estratégicos e econômicos, especialmente relacionados às maiores reservas de petróleo do mundo, concentradas na Venezuela. Ao anunciar que os Estados Unidos assumiriam temporariamente a gestão do país e de sua indústria petrolífera, o governo Trump explicitou motivações que vão muito além de qualquer preocupação humanitária ou democrática.

O ataque à Venezuela, portanto, não representa uma solução para a crise política do país, mas sim um agravamento de suas contradições internas e externas. Ao violar o direito internacional e desprezar o multilateralismo, os Estados Unidos contribuem para a erosão de normas que, apesar de imperfeitas, ainda funcionam como barreira contra a barbárie nas relações internacionais. Para a esquerda global, condenar duramente essa ofensiva é não apenas uma posição ideológica, mas um imperativo ético em defesa da soberania, da paz e da justiça entre as nações.


Bibliografia

REUTERS. World reacts to US strikes on Venezuela. Londres, 2026. Disponível em: https://www.reuters.com. Acesso em: 3 jan. 2026.

REUTERS. Brazil says US crossed 'unacceptable line' over military strikes on Venezuela. Londres, 2026. Disponível em: https://www.reuters.com. Acesso em: 3 jan. 2026.

THE GUARDIAN. Is there any legal justification for the US attack on Venezuela? Londres: Guardian News & Media, 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com. Acesso em: 3 jan. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Carta das Nações Unidas. São Francisco: ONU, 1945.


Créditos

Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

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