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Papel térmico de madeira: a inovação sustentável que pode transformar uma indústria de bilhões entre saúde, ambiente e justiça social
Papel térmico de madeira: a inovação sustentável que pode transformar uma indústria de bilhões entre saúde, ambiente e justiça social
Data de publicação: 24 de janeiro de 2026Por Fabiano C. Prometi – Repórter e Editor
A indústria global de papel térmico — presente em tudo, de talões de caixa a bilhetes de transporte e recibos bancários — enfrenta um ponto de inflexão histórico impulsionado por avanços científicos que colocam a sustentabilidade no centro da produção de materiais impressos. Tradicionalmente produzido a partir de polpa de madeira e revestido com químicos reativos ao calor, o papel térmico tem sido alvo de crescentes críticas ambientais e de saúde pública devido ao uso de compostos como bisfenol A (BPA) e bisfenol S (BPS), associados a desregulação endócrina e impactos adversos à saúde humana.
Nos laboratórios da Ecole Polytechnique Fédérale de Lausanne (EPFL), um grupo de pesquisadores liderado por Jeremy Luterbacher e Harm-Anton Klok apresentou, no início de 2026, uma alternativa promissora: papel térmico fabricado com lignina e compostos derivados de açúcares vegetais, retirando progressivamente a dependência de químicos sintéticos perigosos. Esses materiais — extraídos da própria madeira e de biomassa não-alimentar — apresentam um desempenho de impressão comparável ao papel térmico convencional, com densidade de cor dentro da faixa comercial necessária e estabilidade de armazenamento de longo prazo, sem os riscos toxicológicos associados aos bisfenóis tradicionais.
O papel térmico convencional surgiu na década de 1960, com a introdução de impressoras térmicas capazes de gerar imagens sem tinta, revolucionando o setor de pontos de venda e serviços financeiros por sua eficiência e baixo custo. Seu uso expandiu-se globalmente nas décadas seguintes, consolidando-se em múltiplos setores econômicos. Enquanto isso, entretanto, a ciência começou a evidenciar que os químicos utilizados em sua camada sensível ao calor podiam entrar em contato direto com a pele de milhões de trabalhadores e consumidores, levar à contaminação ambiental e complicar processos de reciclagem.
A produção de papel térmico tradicional é um ciclo intensivo de recursos que começa com a conversão de madeira em polpa. A indústria de papel e celulose figura entre os mais significativos consumidores industriais de energia e madeira globalmente, sendo responsável por cerca de 6% do uso energético industrial e por impactos ambientais associados ao uso extensivo de biomassa florestal.
A inovação surgida na EPFL usa lignina — um dos componentes naturais da madeira — que anteriormente era removido no processo de fabricação tradicional por prejudicar as propriedades mecânicas e cromáticas do produto final. A equipe científica desenvolveu métodos que transformam essa lignina em polímeros funcionais capazes de reagir ao calor de forma controlada, gerando imagens nítidas em papéis térmicos sem a necessidade de bisfenóis. Simultaneamente, compostos sensitizadores feitos de xilanose, um açúcar vegetal, promovem a interação adequada entre corante e desenvolvedor durante o processo de impressão térmica.
Os testes demonstraram que esses papéis não são apenas funcionais, mas apresentam perfis toxicológicos muito inferiores aos dos materiais tradicionais — com atividade estrogênica reduzida em ordens de magnitude — e estabilidade de impressão e armazenamento que atestam sua viabilidade comercial potencial.
Do ponto de vista social e ambiental, a tecnologia de papel térmico à base de madeira e biomassa representa uma convergência entre inovação tecnológica e justiça social. Em um mundo que busca reduzir a exposição humana a toxinas comuns em produtos de uso cotidiano e simultaneamente diminuir o impacto ambiental de cadeias produtivas, alternativas sustentáveis como essas respondem a demandas urgentes de consumidores, reguladores e profissionais de saúde. Além disso, o desenvolvimento de materiais impressos mais seguros pode influenciar regulamentos internacionais sobre químicos perigosos, potencialmente reduzindo a carga de substâncias nocivas no meio ambiente e nas cadeias de reciclagem.
A transição para papel térmico de origem sustentável, entretanto, enfrenta desafios notáveis. A qualidade de impressão ainda não supera integralmente os micropapéis comerciais otimizados com químicos tradicionais, e a escala industrial de produção demanda investimentos significativos em processos de extração, purificação de lignina e integração em linhas de fabricação existentes. A pesquisa, publicada em Science Advances, aponta para a necessidade de otimizações adicionais e ensaios de longo prazo antes que uma adoção comercial em massa seja viável.
Gráfico 1 – Comparação de Perfis Toxicológicos: BPA vs. Lignina derivada de papel térmico
Figura 1 – Comparação de perfis toxicológicos entre papel térmico convencional (BPA) e papel térmico à base de lignina
Atividade estrogênica relativa (valores normalizados), comparando formulações tradicionais com bisfenol A (BPA) e formulações experimentais baseadas em lignina derivada de biomassa.
Fonte: Science Advances (2026). Elaboração própria, com base em dados experimentais reportados por Nelis et al. (2026).
Nota: Os valores apresentados são relativos e normalizados (BPA = 1), utilizados para fins comparativos de divulgação científica. Não substituem avaliações toxicológicas completas nem estudos epidemiológicos de longo prazo.
Tabela 1 – Indicadores de Sustentabilidade em Papéis Térmicos
| Indicador Ambiental | Papel Térmico Convencional | Papel Térmico Baseado em Madeira |
|---|---|---|
| Químicos perigosos | Alto (BPA/BPS) | Baixo/Nulo |
| Impacto de saúde | Elevado | Reduzido |
| Dependência de químicos sintéticos | Sim | Não |
| Potencial de reciclagem | Comprometido | Potencial melhor |
| Matéria-prima renovável | Sim | Sim com melhor perfil de extração |
A importância dessa inovação se desdobra em tendências globais de economia circular, segurança química e responsabilidade ambiental. Países como Suíça, membros da União Europeia e mercados que já restringem o uso de bisfenóis em papéis térmicos encontram nessa tecnologia um atalho para atingir metas de saúde pública e sustentabilidade sem sacrificar desempenho técnico.
Por fim, a trajetória do papel térmico de madeira — da pesquisa ao mercado — é emblemática de como ciência, política e sociedade interagem na construção de soluções que vão além do lucro imediato, enfrentando questões de saúde pública, equidade e sustentabilidade ambiental em escala global.
Bibliografia (Normas ABNT)
NELIS, T.; ROLLAND, M. L. B.; BOURMAUD, C. L.; et al. Sustainable Thermal Paper Formulation Using Lignocellulosic Biomass Fractions. Science Advances, v. 12, n. 2, 02 Jan. 2026. DOI: 10.1126/sciadv.adw9912. Acesso em: 24 jan. 2026.
Papel térmico. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Papel_t%C3%A9rmico. Acesso em: 24 jan. 2026.
Is Your Receipt Hurting the Planet? The Truth About Thermal Paper Production. IML Carbon, 26 fev. 2025. Disponível em: https://www.imlcarbon.com/is-your-receipt-hurting-the-planet-the-truth-about-thermal-paper/. Acesso em: 24 jan. 2026.
Safer receipt paper from wood, EPFL, 05 Jan. 2026. Disponível em: https://actu.epfl.ch/news/safer-receipt-paper-from-wood-6/. Acesso em: 24 jan. 2026.
Créditos: Reportagem e edição por Fabiano C. Prometi. Conteúdo pertencente ao blog Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social e ao Inovação Tecnológica. Reprodução apenas com autorização prévia. Conteúdo sob licença Creative Commons quando indicado pelas fontes originais.
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