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Novas resoluções do TSE contra uso da desinformação são um avanço, mas ainda há lacunas estruturais

Novas resoluções do TSE contra uso da desinformação são um avanço, mas ainda há lacunas estruturais Alana Maria Passos Barreto , Universidade Federal de Sergipe As eleições brasileiras de 2022 foram marcadas por um fenômeno que vai além da disputa entre candidatos: a desinformação operou como uma estratégia discursiva de contágio, mobilizando afetos e opiniões por meio das redes sociais digitais de forma sistemática e coordenada . A narrativa sobre a suposta “fraude nas urnas eletrônicas”, amplamente difundida pelo então candidato Jair Bolsonaro, não foi um episódio isolado – foi o resultado de um ecossistema informacional vulnerável, alimentado por algoritmos, bolhas digitais e pela ausência de um marco regulatório eficaz para a propaganda eleitoral na internet. Quatro anos depois, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou, em março de 2026, 14 resoluções destinadas a orientar as eleições gerais deste ano. Entre os temas centrais estão o uso de inteligência artificial...

Análise: como a Inteligência Artificial está mudando o equilíbrio global de poder

Análise: como a Inteligência Artificial está mudando o equilíbrio global de poder

Robert Muggah, Instituto Igarapé; Princeton University

A corrida para dominar a inteligência artificial não é, em sua essência, uma história sobre microchips. Os chips são a ponta visível de uma disputa mais profunda por poder. Trata-se de uma competição global para decidir quem define os termos da segurança internacional, quem obtém os lucros e os ganhos de produtividade; e quem escreve os padrões e regras que determinam como a informação circula, quais sistemas são interoperáveis e quais atores ficam de fora.

A IA já está remodelando a ordem global por meio das cadeias internacionais de suprimentos, da política industrial, dos mercados de trabalho, do planejamento energético e do espaço informacional. De fato, a geopolítica da IA não pode ser reduzida a um único ranking dos países com os melhores modelos ou as empresas mais ricas. O verdadeiro campo de batalha se estende por todo o sistema que faz a IA funcionar — das matérias-primas aos modelos de linguagem, passando pela regulação.

Um balanço de como a IA está moldando o equilíbrio de poder começa pelos minerais e pelo refino necessários para construir chips, servidores, redes elétricas e sistemas de armazenamento. Passa pelas ferramentas e fábricas de semicondutores. Depende de plataformas de nuvem e data centers. E termina nas plataformas de IA, nos padrões, nas regras de exportação e em quem pode vender onde. Os chips importam, mas estão inseridos em um sistema industrial e regulatório mais amplo, projetado para privilegiar alguns atores e restringir outros.

Estados Unidos e China ditam o ritmo

Muitos países estão correndo para dominar a corrida tecnológica. A União Europeia combina regulação com financiamento público, na esperança de transformar governança em vantagem. Os países do Golfo estão tentando comprar sua relevância financiando capacidade de computação, talentos e data centers. A Índia constrói infraestrutura digital pública e busca converter escala em capacidade em IA. Taiwan e os Países Baixos continuam indispensáveis porque os equipamentos avançados de fabricação de chips e litografia estão em gargalos que raramente viram manchete, até que algo dê errado.

Ainda assim, o ritmo é definido pelos Estados Unidos e pela China. Ambos combinam dinheiro, capacidade industrial e estratégia nacional explícita de uma forma que outros não conseguem. Apenas quatro empresas americanas — Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft — devem investir cerca de US$ 650 bilhões em IA em 2026, aproximadamente 60% a mais do que no ano anterior.

Washington tenta defender a vantagem na fronteira tecnológica enquanto transforma gargalos em armas por meio de restrições à exportação e coordenação com aliados. Pequim busca redundância e difusão, empurrando a IA para a economia física — chamado de “IA incorporada” — enquanto reduz a exposição a cadeias de suprimento estrangeiras.

Para a maioria das potências médias, o movimento racional é evitar escolher lados entre as grandes potências. Em vez disso, elas fazem hedge e misturam fornecedores. Cortejam investimentos em data centers e talentos. Mantêm portas abertas porque, uma vez que um país se prende a uma pilha tecnológica, muitas vezes herda a política de outro. Claro, a dependência nunca é puramente técnica. Ela vem acompanhada de regras e alavancas de poder, e na era da IA essas restrições vão moldar a soberania tanto quanto qualquer tratado.

Saber quem está à frente depende da métrica

Na fronteira tecnológica, os Estados Unidos ainda mantêm uma liderança modesta. Grande parte do principal talento de pesquisa está concentrado em empresas e universidades americanas. As maiores plataformas de nuvem que treinam e operam sistemas de ponta são americanas.

O capital de risco e os mercados públicos reforçaram essa vantagem, financiando trilhões em computação, experimentação e aquisição de talentos que poucos concorrentes conseguem igualar. Washington construiu um ecossistema capaz de queimar dinheiro e eletricidade em escala e, em se tratando de IA, essa escala muitas vezes se traduz em capacidade.

Mas a vantagem é mais estreita do que muitos supõem. Desenvolvedores chineses reduziram diferenças de desempenho em benchmarks importantes e se tornaram hábeis em lançar sistemas “bons o suficiente”, rápidos e baratos. Na geopolítica, “bom o suficiente” pode ser decisivo. O que importa não é apenas o melhor modelo em um determinado dia, mas a capacidade de produzir sistemas competitivos, precificá-los agressivamente e implantá-los rapidamente em uma economia vasta.

Uma segunda métrica é a amplitude nas tecnologias habilitadoras e a difusão no mundo real. Por esse critério, a China frequentemente parece mais forte do que o debate ocidental sugere. Ela não compete apenas em software e avança em manufatura, robótica, logística e infraestrutura, maquinaria pouco glamourosa da produtividade. Pequim trata a IA como um projeto nacional integrado, e não como uma série de apostas corporativas. Isso importa porque a próxima fase da vantagem em IA não viverá apenas nas telas. Ela também estará em portos, fábricas, cadeias de suprimento e nos sistemas físicos que determinam quem produz o quê e com que rapidez.

Dois manuais, duas fontes de vantagem

Os Estados Unidos têm se dedicado a preservar uma vantagem de fronteira e a controlar pontos de gargalos. A computação avançada é tratada, na mais recente estratégia de defesa nacional, como infraestrutura estratégica crítica. Controles de exportação e triagem de investimentos são usados para desacelerar o acesso da China aos chips mais avançados e a componentes sensíveis. O objetivo é preservar o tempo de liderança enquanto se fortalecem cadeias de suprimento com aliados, sendo uma forma de contenção tecnológica calibrada que se ajusta conforme mercados e política mudam.

A abordagem chinesa parte do pressuposto de que as restrições persistirão — e possivelmente se intensificarão. A resposta de Pequim é construir redundância e alternativas domésticas em todo o sistema: chips quando possível, capacidade local de nuvem, modelos locais e aplicações locais. A aposta estratégica é que, mesmo que a fronteira absoluta permaneça limitada no curto prazo, a China ainda pode vencer ao saturar a economia física com automação e projetar eficiência que reduza custos unitários. Trata-se menos de implantar o modelo perfeito e mais de realizar um bilhão de implantações.

Infraestrutura está se tornando destino

Tanto nos Estados Unidos quanto na China, a IA começa a parecer menos software e mais cidades. Data centers são enormes instalações industriais. Precisam de terra, licenças, conexões à rede elétrica, resfriamento e energia de backup. Pressionam redes de transmissão e podem elevar preços de energia onde as redes já estão sobrecarregadas. Também provocam disputas políticas locais em torno de ruído, uso de água e concessões fiscais.

Essa mudança importa geopoliticamente porque energia e minerais são intensamente estratégicos. Escalar a IA significa escalar redes elétricas, transmissão, servidores, armazenamento e capacidade industrial. Isso exige minerais refinados e capacidade de processamento de forma ampla e sustentada. Em um mundo de gargalos, a vantagem pode mudar rapidamente — não porque um laboratório lança um modelo melhor, mas porque um Estado consegue conectar energia mais rápido, garantir insumos com mais confiabilidade e construir em ritmo acelerado.

Minerais e processamento como alavanca

Os minerais críticos são a base silenciosa tanto da expansão da IA quanto da eletrificação. A alavanca muitas vezes não está na mina, mas na etapa de refino e processamento, onde as cadeias de suprimento se concentram e as dependências se cristalizam.

A China detém uma vantagem estrutural sobre os Estados Unidos e outros países no processamento e refino de vários minerais, além das cadeias de suprimento de ímãs de terras raras, que estão por trás de motores elétricos, turbinas eólicas e partes da produção avançada de defesa. Esses ímãs parecem banais até se perceber quantos sistemas modernos dependem deles — e quão difícil é substituir rapidamente essa capacidade.

Os Estados Unidos estão menos protegidos do que sua estratégia industrial às vezes sugere. Diversificar o suprimento leva anos. Licenciamento e oposição comunitária podem atrasar mineração e processamento domésticos. Em uma competição definida por velocidade e escala, essas restrições se traduzem em alavancagem para quem controla insumos-chave e para quem consegue processá-los de forma confiável, barata, em volume e a um custo que outros têm dificuldade de igualar.

Regras, padrões e acesso a mercados

A disputa pela IA não é apenas tecnológica. É também uma disputa por regras. Quais padrões se tornam o modelo global? Quais regulações se difundem? Onde os dados são armazenados? Quais plataformas de nuvem dominam? Quais chips e softwares são permitidos? Essas decisões podem parecer comerciais à primeira vista, mas carregam consequências estratégicas porque regras moldam mercados — e mercados moldam poder.

Por isso o mundo não se divide claramente em dois campos. Muitos Estados tentarão manter sistemas interoperáveis e evitar ficar presos em blocos rivais. Mas regras de compras públicas, preocupações de segurança e riscos de dependência os puxam em direções diferentes. Suas escolhas, em conjunto, determinarão se o mundo caminhará para uma divisão parcial em sistemas rivais ou para um ecossistema mais integrado, porém ainda contestado.

Por que os riscos são tratados como secundários

A segurança da IA e seus danos sociais são amplamente reconhecidos, mas mal governados e cronicamente subfinanciados. O problema não é ignorância. É, fundamentalmente, um problema de incentivos. Em uma corrida estratégica pela dominância em IA, a contenção parece atrito, e exigências de verificação podem desacelerar a implantação. Controles mais fortes podem parecer uma desvantagem unilateral quando se presume que rivais estão avançando rapidamente e quando os mercados punem a hesitação.

Essa lógica de soma zero explica por que a disrupção do trabalho, a desordem informacional, a escalada cibernética e os riscos biológicos de uso dual são frequentemente tratados por formuladores de política como externalidades gerenciáveis, em vez de desafios centrais. É uma leitura perigosa. Esses riscos moldarão profundamente a estabilidade — e a estabilidade é um elemento central do poder nacional.

Risco de escalada e a lógica da velocidade

Vários riscos já são reais. Os mercados de trabalho começam a sentir pressão na codificação e no trabalho profissional de nível básico, a camada que forma as futuras gerações. A mídia sintética reduz o custo das operações de influência e torna mais fácil inundar eleições e crises com falsidades plausíveis.

As operações cibernéticas se expandem à medida que a IA reduz as barreiras de habilidade e automatiza a exploração, a engenharia social e a preparação de ataques. No submundo do crime cibernético, isso equivale a uma revolução de eficiência.

O caminho mais sombrio é a escalada militar possibilitada pela IA. A IA encurta os ciclos de decisão em inteligência, planejamento militar e operações cibernéticas. Loops mais rápidos deixam menos tempo para pensar e menos tempo para verificar. Em uma crise envolvendo rivais com armas nucleares, a deliberação cuidadosa pode começar a parecer um risco. Percepções e cálculos errados tornam-se mais prováveis quando os líderes sentem pressão para agir antes de perderem a vantagem e quando as máquinas aceleram o ritmo.

O risco existencial

A categoria mais grave é incerta, mas não pode ser ignorada, especialmente à medida que as discussões sobre a IGA se tornam mais intensas. A pressão competitiva pode impulsionar a implantação de sistemas cada vez mais capazes e autônomos antes que a segurança, o controle e a supervisão estejam maduros.

Os prazos e as probabilidades são debatidos. A distribuição dos resultados é o ponto: o lado positivo pode ser enorme, mas o lado negativo pode ser catastrófico e irreversível.

A IA agênica aumenta ainda mais os riscos. Ferramentas que podem realizar ações, chamar serviços, mover recursos e acionar outros sistemas criam novos caminhos para falhas em cascata. A responsabilização se torna mais difícil porque a responsabilidade se fragmenta entre fornecedores, operadores e cadeias de ferramentas. Quando algo dá errado, a primeira pergunta é quem é o responsável, e a resposta raramente é simples.

O que realmente está em jogo

A geopolítica da IA não é uma simples disputa sobre qual modelo de linguagem grande é o mais avançado. É uma luta pela profundidade industrial, infraestrutura, energia, minerais e as regras que governam o acesso. Os Estados Unidos estão otimizando para dominar as fronteiras e controlar os gargalos. A China está otimizando para a difusão na economia física e para a vantagem de custo impulsionada pela escala.

A ironia é que a rivalidade que acelera o progresso da IA também torna mais difícil a contenção coletiva e a criação de barreiras de proteção. Cada lado teme ser aquele que desacelera. O sistema então deriva para um resultado familiar, no qual a velocidade é recompensada, a cautela é penalizada e os custos são socializados.

A história oferece poucos exemplos tranquilizadores de grandes potências que administram essa dinâmica com elegância. A IA não será a primeira tecnologia de uso geral a remodelar a concorrência global. Mas pode ser a primeira a comprimir decisões e ampliar a capacidade com rapidez suficiente para ultrapassar as instituições destinadas a mantê-la dentro dos limites, e fazê-lo em um mundo já desgastado pela desconfiança, pela desigualdade e pela escalada da crise.The Conversation

Robert Muggah, Richard von Weizsäcker Fellow na Bosch Academy e Co-fundador, Instituto Igarapé; Princeton University

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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