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DNA como HD do futuro: avanço científico pode tornar o armazenamento biológico mais simples e escalável

18 de fevereiro de 2026

Por Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

O crescimento exponencial da produção de dados digitais é um dos grandes desafios estruturais do século XXI. Segundo a consultoria International Data Corporation (IDC), o volume global de dados deverá ultrapassar 175 zettabytes até o final desta década — número que coloca pressão sobre infraestruturas físicas, energéticas e ambientais. Nesse contexto, o armazenamento de dados em DNA, antes visto como uma curiosidade laboratorial, consolida-se como uma alternativa concreta e estrategicamente relevante.

Pesquisa recente divulgada pelo portal Inovação Tecnológica aponta que armazenar dados em DNA pode ser mais simples do que se imaginava. O estudo descreve avanços que reduzem etapas complexas do processo de codificação e leitura das informações, abrindo caminho para aplicações mais amplas e economicamente viáveis.

A ideia de usar DNA como meio de armazenamento não é nova. Em 1953, quando James Watson e Francis Crick descreveram a estrutura de dupla hélice, não se imaginava que aquela molécula pudesse, décadas depois, servir como plataforma de arquivamento digital. No entanto, a lógica é direta: o DNA armazena informações biológicas por meio de quatro bases nitrogenadas — adenina (A), timina (T), citosina (C) e guanina (G). Ao converter bits (0 e 1) em combinações dessas bases, torna-se possível gravar dados digitais em sequências sintéticas.

A primeira demonstração prática de armazenamento digital em DNA ocorreu em 2012, quando pesquisadores da Harvard University conseguiram codificar um livro inteiro em material genético sintético. Desde então, gigantes da tecnologia como a Microsoft investem no desenvolvimento da tecnologia em parceria com startups de biotecnologia, buscando reduzir custos e aumentar a velocidade de leitura e gravação.

O potencial é impressionante. Um único grama de DNA pode armazenar até 215 petabytes de informação, segundo estimativas publicadas na revista Nature. Além disso, quando preservado em condições adequadas, o DNA pode manter a integridade das informações por milhares de anos — superando em longevidade discos rígidos, fitas magnéticas e servidores convencionais.

O avanço recente destacado pela reportagem aponta para simplificações no processo de codificação e decodificação, tradicionalmente um dos principais gargalos técnicos. Métodos anteriores exigiam redundâncias extensivas e algoritmos complexos para evitar erros durante a síntese e o sequenciamento. A nova abordagem reduz a necessidade de correções posteriores, tornando o sistema mais eficiente e potencialmente mais barato.

Comparativo de capacidade de armazenamento

Meio de armazenamentoCapacidade aproximadaVida útil estimada
HD convencional1–20 TB5–10 anos
Fita magnética LTOaté 45 TB15–30 anos
DNA sintéticoaté 215 PB/gramacentenas a milhares de anos

Fonte: dados consolidados de publicações científicas e relatórios da IDC (2023–2025).

O impacto ambiental é outro fator decisivo. Data centers consomem cerca de 1% a 1,5% da eletricidade global, segundo a International Energy Agency (IEA). Em um cenário de transição energética e pressão por metas de descarbonização, tecnologias que reduzam consumo energético estrutural são estratégicas. O armazenamento em DNA, por não exigir energia contínua para manter dados preservados, apresenta vantagem significativa no longo prazo.

Entretanto, há desafios importantes. O custo da síntese de DNA ainda é elevado, embora tenha caído drasticamente nas últimas duas décadas. Em 2001, sequenciar um genoma humano custava cerca de US$ 100 milhões; hoje, o valor pode ser inferior a US$ 1.000, segundo dados do National Human Genome Research Institute. A tendência histórica indica que novas reduções são plausíveis, especialmente com a automação e escalonamento industrial.

Outro ponto crítico envolve governança e segurança. Armazenar dados em DNA levanta questões éticas e regulatórias: quem controla os bancos biológicos? Como garantir que informações digitais não sejam misturadas com material genético vivo? Há também implicações geopolíticas, considerando que a biotecnologia se tornou área estratégica na disputa tecnológica entre potências globais.

A convergência entre biologia sintética, ciência de materiais e computação indica que o armazenamento em DNA não substituirá imediatamente os data centers, mas poderá se consolidar como solução para arquivamento de longo prazo — especialmente para bibliotecas nacionais, arquivos governamentais, registros históricos e dados científicos de alto valor. Projetos-piloto já exploram essa aplicação em instituições culturais e acadêmicas.

Do ponto de vista social, a democratização do acesso à tecnologia será determinante. Se permanecer restrita a grandes corporações, pode aprofundar desigualdades no acesso à infraestrutura informacional. Se houver políticas públicas e cooperação internacional, poderá representar uma inovação alinhada à preservação da memória coletiva e à sustentabilidade ambiental.

O avanço descrito recentemente reforça uma tendência clara: o futuro do armazenamento pode ser menos metálico e mais biológico. A questão não é apenas tecnológica, mas civilizatória. Em um mundo saturado de dados, a capacidade de armazenar informação de forma durável, sustentável e acessível será um dos pilares do desenvolvimento nas próximas décadas.


Bibliografia (Normas ABNT)

INTERNATIONAL DATA CORPORATION. Data Age 2025: The Evolution of Data to Life-Critical. Framingham: IDC, 2023. Disponível em: https://www.idc.com. Acesso em: 18 fev. 2026.

NATURE. DNA digital data storage is closer than you think. Londres: Nature Publishing Group, 2023. Disponível em: https://www.nature.com. Acesso em: 18 fev. 2026.

NATIONAL HUMAN GENOME RESEARCH INSTITUTE. The Cost of Sequencing a Human Genome. Bethesda: NHGRI, 2024. Disponível em: https://www.genome.gov. Acesso em: 18 fev. 2026.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Data Centres and Data Transmission Networks. Paris: IEA, 2024. Disponível em: https://www.iea.org. Acesso em: 18 fev. 2026.

HARVARD UNIVERSITY. Church, G. M. et al. Next-Generation Digital Information Storage in DNA. Science, Washington, 2012.


Créditos

Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

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