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A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

Smartphones de luxo na era da IA: escassez de chips ameaça inclusão digital global



Smartphones de luxo na era da IA: escassez de chips ameaça inclusão digital global

Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social
21 de fevereiro de 2026

Por Fabiano C. Prometi* – Reportagem e edição

O smartphone, outrora símbolo de democratização da informação e do acesso digital, corre o risco de se transformar em artigo de luxo em 2026, à medida que a escassez de chips de memória – impulsionada pela voracidade da inteligência artificial (IA) – eleva preços e comprime a oferta para o consumidor comum. Analistas do Instituto para Estatísticas de Comércio de Semicondutores (WSTS) registram aumentos de 50% nos preços desses componentes no último ano, um choque que não apenas atrasa linhas de produção, mas ameaça reconfigurar o ecossistema de dispositivos móveis em escala global. Wolfgang Weber, da Associação Alemã da Indústria Eletroeletrônica e Digital (ZVEI), alerta que “a escassez de tecnologias-chave como essas é um problema massivo para a nossa economia”, evocando prejuízos de mais de 102 bilhões de euros na Alemanha só entre 2021 e 2023. Essa crise, longe de ser pontual, reflete uma tensão estrutural entre a infraestrutura da IA e o direito básico ao acesso tecnológico, com impactos desproporcionais sobre populações vulneráveis.

A origem dos semicondutores móveis remonta aos anos 1970, com o advento dos circuitos integrados de silício que miniaturizaram transistores e permitiram os primeiros celulares analógicos. A revolução veio nos anos 2000, com a integração de chips SoC (System on Chip) que combinam processadores ARM, GPUs e memória embarcada – NAND Flash para armazenamento e DRAM para processamento em tempo real –, viabilizando smartphones como o iPhone (2007) e o Android massivo. Hoje, esses dispositivos consomem cerca de 20% da produção global de memória, com NAND representando o núcleo do armazenamento não volátil e DRAM alimentando multitarefas e IA on-device. Em 2025, o mercado de smartphones movimentou 1,4 trilhão de dólares, mas projeções da Counterpoint Research indicam recuo de 2,1% nos embarques globais em 2026, com preço médio de venda subindo 6,9% devido a gargalos em semicondutores.

O epicentro da crise atual é a demanda explosiva por chips de alto desempenho para IA. Data centers e aceleradores como os da NVIDIA Blackwell absorvem até três vezes mais wafers de silício para HBM (High Bandwidth Memory) do que DRAM convencional, redirecionando a capacidade produtiva de fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron para servidores em detrimento de celulares. A SK Hynix esgotou sua produção para 2026, enquanto preços de DRAM subiram 70-80% e NAND 80-100% só em dezembro de 2025, segundo a TrendForce. No Brasil, Gustavo Assunção, vice-presidente da Samsung, prevê aumentos de 10-20% em smartphones, afetando especialmente modelos básicos e intermediários. Estudo da IDC estima altas de 3-5% em cenários moderados ou até 8% em pessimistas, marcando “o fim da era de memórias baratas”.

Essa reorientação produtiva consolida tendências globais de concentração. Marcas menores já enfrentam cortes de fornecimento, favorecendo gigantes como Apple e Samsung, que negociam volumes prioritários. Na Alemanha, a Bitkom prevê estagnação nas vendas de consumo, com demanda enfraquecida. No Brasil, onde 85% da população usa smartphones como principal meio de acesso à internet (CGI.br, 2024), o encarecimento ameaça programas como o Wi-Fi Brasil e o Auxílio Brasil Digital, aprofundando a “inclusão precária” – uso limitado a dados móveis básicos sem capacidade para apps pesados ou armazenamento local.

Para ilustrar o impacto, considere a tabela abaixo, compilada a partir de dados de consultorias setoriais, comparando a evolução projetada de preços de componentes e smartphones:

Componente/DispositivoAumento 2025 (%)Projeção 2026 (%)Fonte
DRAM (global)70-8020-40TrendForce 
NAND Flash80-10010-20DigiTimes 
Smartphones básicos5-1010-20Samsung Brasil 
Smartphones premium2-53-8IDC 

Legenda: Tabela de projeções de aumentos de preço devido à escassez de chips. Fontes: TrendForce, IDC e Samsung Brasil. Nota: Variações dependem de negociações e capacidade instalada.

Futuramente, a crise pode se agravar com a adoção de 6G e IA edge, demandando mais memória por dispositivo, mas também abrir caminhos para diversificação – como chips RISC-V open-source ou produção local via Lei de Semicondutores brasileira. Sem regulação, porém, o risco é um “mercado de luxo”: smartphones topo de linha acessíveis às elites, enquanto classes médias e baixas ficam presas a aparelhos obsoletos.

Essa narrativa não é neutra: revela como a infraestrutura da IA, financiada por capital concentrado, externaliza custos sociais para o Sul Global. Políticas de soberania tecnológica – incentivos fiscais a fabs locais, estoques estratégicos e cláusulas de prioridade social em contratos – são imperativas para mitigar o fosso digital. Caso contrário, o smartphone, ferramenta de empoderamento, relega-se a privilégio, perpetuando desigualdades na era da hiperconectividade.

Bibliografia (normas ABNT)

DEUTSCHE WELLE. Com chips em falta, smartphones podem virar artigo de luxo? Bonn: DW, 15 fev. 2026. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/com-chips-em-falta-smartphones-podem-virar-artigo-de-luxo/a-75982675. Acesso em: 21 fev. 2026.

TERRA. Com chips em falta, smartphones podem virar artigo de luxo? São Paulo: Terra, 14 fev. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/economia/com-chips-em-falta-smartphones-podem-virar-artigo-de-luxo,.... Acesso em: 21 fev. 2026.

EXAME. Escassez de chips de memória deve piorar em 2026, alertam empresas. São Paulo: Exame, 26 nov. 2025. Disponível em: https://exame.com/tecnologia/escassez-de-chips-de-memoria-deve-piorar-em-2026-alertam-empresas/. Acesso em: 21 fev. 2026.

TRIBUNA DO NORTE. Crise dos chips: entenda por que seu celular pode ficar mais caro em 2026. Natal: TN, 14 dez. 2025. Disponível em: https://tribunadonorte.com.br/economia/crise-dos-chips-entenda-por-que-seu-celular-pode-ficar-mais-caro-em-2026/. Acesso em: 21 fev. 2026.

TERRA BYTE. Crise dos chips: entenda por que seu celular pode ficar mais caro em 2026. São Paulo: Terra, 10 dez. 2025. Disponível em: https://www.terra.com.br/byte/crise-dos-chips-entenda-por-que-seu-celular-pode-ficar-mais-caro-em-2026,.... Acesso em: 21 fev. 2026.

TIMES BRASIL. Escassez de chips impulsionada pela IA pode elevar os preços dos smartphones em 2026. São Paulo: Times Brasil, 15 dez. 2025. Disponível em: https://timesbrasil.com.br/.... Acesso em: 21 fev. 2026.

CLIPPING ABINEE. Escassez de chips: Eletrônicos podem subir 20% no Brasil, alerta Samsung. São Paulo: Abinee, 16 dez. 2025. Disponível em: https://www.clipping.abinee.org.br/escassez-de-chips-eletronicos-podem-subir-20-no-brasil-alerta-samsung/. Acesso em: 21 fev. 2026.

CGI.BR. TIC Domicílios 2024: Pesquisa sobre o uso das TICs nos domicílios brasileiros. São Paulo: CETIC.br, 2024. Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/tic-domicilios/2024/. Acesso em: 21 fev. 2026.

Créditos
Reportagem e edição: Fabiano C. Prometi. Equipe editorial: Horizontes do Desenvolvimento. Conteúdo pertence ao blog Grandes Inovações Tecnológicas. Reprodução só com autorização prévia. Licença restrita para fins educativos e jornalísticos não comerciais.

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