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Comissão aprova PEC que propõe o fim da escala 6x1 e reacende debate sobre precarização histórica do trabalho no Brasil

  Comissão aprova PEC que propõe o fim da escala 6x1 e reacende debate sobre precarização histórica do trabalho no Brasil Publicado em 27 de maio de 2026 Por Fabiano C. Prometi A aprovação, na comissão especial da Câmara dos Deputados, do relatório da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 representa um dos movimentos mais relevantes da política trabalhista brasileira nas últimas décadas. A medida, que ainda seguirá para votação em plenário, estabelece mudanças profundas na organização da jornada de trabalho no país e recoloca no centro do debate a relação entre produtividade, qualidade de vida e direitos sociais em uma economia marcada por desigualdades estruturais. A chamada escala 6x1 — seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso — consolidou-se historicamente como um modelo predominante em setores como comércio, serviços, supermercados, logística, indústria alimentícia e telemarketing. Embora legalizada pela Consoli...

Na Copa do Mundo, a paixão pelo futebol terá uma forte concorrente: a obsessão pelas apostas

Na Copa do Mundo, a paixão pelo futebol terá uma forte concorrente: a obsessão pelas apostas

David Nemer, University of Virginia

Desde 1958, a Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo para o Brasil. Faz parte da identidade do país. Mas a partir do próximo dia 11 de junho, quando começar a Copa dos EUA, México e Canadá, as dezenas de milhões de brasileiros que acompanharão os jogos pela TV e internet vão compartilhar - pela primeira vez em larguíssima escala - um outro tipo de emoção além da felicidade das vitórias e a frustração das derrotas: a perigosa roleta-russa emocional e financeira das apostas.

Durante a maior parte da história do futebol, torcedores de todo o mundo comemoravam gols, grandes defesas, jogadas habilidosas, viradas e vitórias. Agora, plataformas online dividiram o jogo em centenas de pequenas apostas financeiras. Os torcedores podem apostar no placar final, mas também em cartões amarelos e vermelhos, escanteios, laterais, chutes a gol, defesas, faltas e quase todas as estatísticas que o jogo produz.

Essa mudança altera o que o futebol significa emocionalmente para muitos de seus torcedores. Por exemplo: alguém pode torcer por um escanteio contra o próprio time se isso ajudar na aposta. Pode-se torcer para que um zagueiro receba um cartão amarelo, mesmo que isso seja ruim para o time. Alguns podem se importar menos com como o Brasil está jogando e mais com quanto tempo de acréscimo haverá para ter outra chance de ganhar uma aposta.

Não se trata simplesmente de tornar a partida mais divertida. Isso transforma a paixão pelo esporte em uma transação. A magia do futebol vem de todos compartilharem a mesma esperança por um gol. As apostas quebram esse vínculo. Agora, uma falta não é apenas uma falta, é uma chance de ganhar dinheiro. Um escanteio se torna uma forma de lucrar.

Apostas e custos sociais

Isso é especialmente importante no Brasil, onde as apostas online agora fazem parte do dia a dia de muitas pessoas. As apostas com odds fixas se tornaram legais em 2018, mas a regulamentação de verdade só veio muito depois. Entre 2018 e 2024, as empresas cresceram rapidamente em uma área cinzenta da regulamentação, enchendo o futebol e as redes sociais com anúncios de apostas. Quando o mercado foi regulamentado em 2025, as apostas já estavam em toda parte.

Os números revelam o quão grande isso se tornou. Em 2025, o Brasil ficou em quinto lugar no mundo em receita de apostas online — os Estados Unidos ficaram em primeiro, seguidos pelo Reino Unido, Itália e Rússia. Integrantes de cerca de 26,3% dos lares brasileiros fizeram algum tipo de aposta esportiva. No ano passado, 39,5 milhões de brasileiros utilizaram plataformas de apostas. Só no primeiro trimestre de 2025 os sites de apostas no Brasil registraram mais de 5 bilhões de visitas — mais de 650 por segundo. Dados do Banco Central mostraram que os brasileiros movimentavam até R$ 30 bilhões (US$ 6 bilhões) por mês por meio dessas plataformas.

Os custos sociais são evidentes. Dezenove por cento dos apostadores, cerca de 7,5 milhões de pessoas, afirmaram ter gasto dinheiro com jogos de azar de forma a comprometer sua renda de subsistência. Quarenta e um por cento abriram mão de outras compras para apostar. Dezessete por cento deixaram de pagar uma conta para jogar. Vinte e nove por cento acabaram em listas de inadimplentes por causa das apostas. O gasto médio mensal foi de R$ 187, e para os apostadores de baixa renda, foi de R$ 151,98. Para famílias pobres, esse dinheiro poderia ter sido melhor gasto em alimentação, transporte, fraldas, luz ou aluguel.

E isso não é um problema exclusivamente brasileiro. Uma pesquisa nos EUA descobriu que quase um terço dos apostadores da Pensilvânia está em risco de desenvolver problemas com o jogo. Na Austrália, os danos causados pelo jogo provavelmente são subnotificados, enquanto no Reino Unido uma pesquisa mostrou que os jogadores não compreendem o verdadeiro custo das chamadas “apostas grátis” — ofertas como bônus de boas-vindas no primeiro depósito e outros incentivos financeiros.

Ligações com a masculinidade

Nas favelas do Brasil, apostar raramente é apenas um passatempo, como observei durante dois anos de trabalho de campo em comunidades carentes da cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. As pessoas veem isso como uma esperança — uma maneira de esticar um pouco o dinheiro quando os salários não são suficientes.

Um jovem me contou que começou a apostar porque um colega de trabalho disse que um aplicativo “dava dinheiro”. Ele resumiu assim: “quem não quer ganhar dinheiro hoje em dia?”. Outro destacou que as pessoas só compartilham seus ganhos, não suas perdas. Muitos sabiam que as probabilidades estavam contra eles. Como disse uma pessoa: “quem realmente ganha são os donos das plataformas”.

As apostas em futebol também estão ligadas a noções de masculinidade. Muitos dos jovens com quem conversei viam as apostas esportivas como uma forma de mostrar seu conhecimento, controle e habilidade sobre o tema. Apostar no futebol era prova de que você entendia de times, desempenho, posse de bola, rivalidades e odds. Barbearias e grupos do WhatsApp se tornaram lugares onde os homens compartilham dicas e conselhos. Uma pessoa me disse que apostar era mais comum entre os homens porque se trata de futebol; outra disse que os jovens “vão mais fundo”, arriscando mais dinheiro para ganhos maiores.

Não é que as mulheres não apostem; elas apostam. Mas as apostas em futebol costumam carregar uma imagem masculina: o homem como especialista, estrategista e provedor. Quando o dinheiro está curto, as apostas dizem aos jovens que eles podem transformar conhecimento de futebol em dinheiro, e dinheiro em orgulho. Perder é vergonhoso, então os ganhos são exibidos, e prejuízos são mantidos em segredo. Essa demonstração de controle esconde o fato de que a plataforma é quem realmente manda.

Regras e regulamentações mais rígidas

A Copa do Mundo de 2026 tornará tudo isso ainda maior. Haverá jogos diários, orgulho nacional, anúncios com celebridades, dicas de influenciadores, links de apostas, transferências instantâneas de dinheiro via pix e mercados ao vivo durante os jogos. O torneio será promovido como um festival de futebol. Para as empresas de apostas, também será uma chance de altos lucros.

É uma ironia cruel. Os brasileiros depositarão suas esperanças na seleção nacional, mas muitos também arriscarão seu aluguel, salários e fundos de emergência em apostas sobre cartões, faltas e escanteios. Nesse jogo, os verdadeiros vencedores não são os torcedores; são as plataformas de apostas.

Isso não significa que os brasileiros devam deixar de amar o futebol. Significa que eles precisam proteger o esporte para que ele não se transforme em apenas mais uma forma de ganhar dinheiro. Simplesmente licenciar empresas e cobrar impostos não é suficiente. O Brasil precisa de regras rígidas sobre publicidade, limites reais para perdas e depósitos, restrições às microapostas durante a partida que transformam cada falta em uma aposta, e campanhas de saúde pública que não culpem as pessoas por um sistema criado para prendê-las.

A Copa do Mundo deve nos lembrar por que o futebol é importante. Sua beleza não está em quantas apostas você pode fazer. Está no gol impossível, na emoção compartilhada, na alegria de vencer juntos e na dignidade de perder sem comprometer o dinheiro de que você precisa para viver.The Conversation

David Nemer, Associate Professor in the Department of Media Studies, University of Virginia

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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