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Quando a desinformação veste gravata: o caso Vorcaro expõe a crise de credibilidade do jornalismo político brasileiro

  Quando a desinformação veste gravata: o caso Vorcaro expõe a crise de credibilidade do jornalismo político brasileiro Publicado em 17 de maio de 2026 Por Fabiano C. Prometi A recente repercussão da reportagem publicada pela revista Veja , reproduzindo informações atribuídas ao jornalista Lauro Jardim sobre o banqueiro Daniel Vorcaro e supostos impactos eleitorais envolvendo Flávio Bolsonaro , reacendeu um debate antigo, mas cada vez mais urgente: o papel da grande mídia na fabricação de narrativas políticas e na circulação de conteúdos sem comprovação robusta. A controvérsia, inicialmente tratada como bastidor político-financeiro, rapidamente ganhou contornos mais amplos ao evidenciar práticas recorrentes de reprodução acrítica de informações em um ecossistema midiático pressionado por velocidade, influência política e disputa por audiência. A matéria publicada pela Revista Fórum acusa diretamente a Veja de amplificar uma narrativa sem provas concretas, reproduzindo informa...

O que é evidência científica e o que é especulação sobre o El Niño que vem por aí

O que é evidência científica e o que é especulação sobre o El Niño que vem por aí

Regina Célia dos Santos Alvalá, CEMADEN; José Antônio Marengo, CEMADEN e Marcelo Seluchi, Universidad de Buenos Aires

O El Niño é um fenômeno amplamente estudado e cada vez mais associado a impactos no clima e no meio ambiente em diversas áreas. Para este ano, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), uma das principais referências mundiais no diagnóstico e prognóstico do fenômeno, aponta uma probabilidade de 60% de desenvolvimento do “El Niño”, para o trimestre maio-junho-julho, chances que se elevam a mais de 90% a partir da próxima primavera, em setembro.

Em outras palavras, é praticamente certo que o fenômeno se desenvolverá na segunda metade do ano. Atualmente vários jornais vêm noticiando a previsão de um El Niño de forte intensidade para o período 2026-2027. Mas é possível prever a intensidade do fenômeno com tanta antecedência?

A verdade é que a previsão da intensidade do El Niño para a próxima primavera de 2026, atualmente, é motivo de especulações e, às vezes, de informações sensacionalistas.

Os modelos acoplados de última geração permitem prever a evolução do El Niño com meses de antecedência, estimando as anomalias na temperatura do ar e seus possíveis impactos, o que possibilita a adoção de ações preventivas em áreas estratégicas.

Por outro lado, modelos complexos que simulam o oceano e a atmosfera permitem prever, com antecedência de 1 a 3 meses, os possíveis impactos com precisão. Mas previsões com prazos maiores podem apresentar mais incertezas e levar a prognósticos incorretos.

Primeiras observações do El Niño

No século XIX, pescadores do norte do Peru e do Equador observaram, em algumas ocasiões próximas ao Natal, que um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial impactava a pesca, o que foi interpretado como um “sinal” para deixar de trabalhar e celebrar o nascimento do “El Niño” Jesus, dando, assim, nome ao fenômeno.

Mais tarde, na década de 1920, o cientista Gilbert Thomas Walker (1868-1958) identificou que este fenômeno estava associado a diferenças na pressão atmosférica observadas entre regiões do Oceano Pacífico, bem como a mudanças na velocidade dos ventos na região equatorial, que, por sua vez, alteravam as correntes oceânicas que regulam a temperatura do mar. A partir da década de 1980, o fenômeno passou a ser extensamente estudado, após o El Niño intenso de 1982-83.

O que é El Niño?

El Niño é um fenômeno climático-oceânico que ocorre no Oceano Pacífico tropical, quando as águas da região equatorial centro-leste do oceano ficam mais quentes do que o normal. Ele faz parte de um ciclo natural chamado El Niño – Oscilação Sul (ENOS) e pode afetar o clima em todo o mundo.

Neste ciclo ENOS, o oposto do El Niño é a La Niña, que consiste no resfriamento das águas superficiais no centro-leste do Oceano Pacífico tropical. Na América do Sul, o ENSO também causa alterações na precipitação e na temperatura, embora de forma distinta em cada região.

Entre os vários impactos do El Niño, destacam-se o aumento das chuvas no sul do Brasil e ao longo do litoral do Peru e do Equador; secas na Amazônia e no Nordeste brasileiro; maior frequência de ondas do calor no centro do Brasil; menor frequência de furacões no Atlântico Norte; e aumento das temperaturas globais.

Grandes secas na Amazônia ocorreram durante anos de El Niño: 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24.

No entanto, secas também ocorreram na ausência do El Niño, como em 1963 e 2005 na região amazônica e em 2012 no Nordeste do Brasil, estas relacionadas à variabilidade da temperatura da superfície do mar (TSM) no Atlântico tropical Norte.

Estudos conduzidos na década de 1990 precisam ser atualizados, considerando o El Niño e a nova realidade das mudanças climáticas. Além disso, o monitoramento contínuo torna-se fundamental para compreender o que está acontecendo no presente e, portanto, o que pode acontecer no futuro.

El Niño e desastres relacionados ao clima

O El Niño não causa desastres climáticos diretamente, mas aumenta ou reduz a probabilidade de eventos extremos no Brasil, o que permite subsidiar a elaboração de previsões de risco com antecedência.

Chuvas intensas ou ondas de calor podem ocorrer com ou sem atuação do El Niño, embora o estabelecimento deste fenômeno possa aumentar as chances e os impactos, como aconteceu em 2023 e 2024, quando eventos combinados de calor e seca intensificaram a quantidade de incêndios de vegetação na Amazônia e no Pantanal, e quando mais de 200 botos-cor-de-rosa morreram devido ao estresse térmico.

No Sul do Brasil, inundações generalizadas impactaram o estado do Rio Grande do Sul na primavera de 2023 e no outono de 2024.

Ressalta-se que os riscos de desastres dependem não somente da ameaça de fatores climáticos extremos, mas também da exposição e da vulnerabilidade da população, bem como da capacidade de proteção e das ações de mitigação.

El Niño em 2026-2027

Atualmente, a previsão indica que haverá a atuação de um novo El Niño entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Mas no momento as previsões sobre a sua intensidade ainda carecem de confiabilidade.

Segundo fontes oficiais e autorizadas, atualmente há 25% de chance de ocorrer um El Niño de intensidade forte e outros 25% de probabilidade de se configurar um fenômeno de intensidade muito forte, o que ocorre quando a temperatura na porção central do Oceano Pacífico supera em mais de 2°C o valor normal.

Contudo, o Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI), outro dos institutos internacionais mais renomados no tema, destaca que as previsões feitas nesta época do ano apresentam alta incerteza quanto à intensidade do ENOS. Desta forma, será necessário aguardar até o próximo inverno para dispor de previsões mais precisas sobre a intensidade e os possíveis impactos do El Niño em desenvolvimento.

Finalmente, é importante ressaltar que a previsão climática sazonal para o trimestre de maio a julho não indica uma influência clara do El Niño nas precipitações no Brasil. Outro aspecto relevante é que não há relação direta entre a intensidade do fenômeno e a gravidade de seus impactos, embora, normalmente, durante episódios mais intensos, a influência do El Niño (aumento da chuva no sul e diminuição no norte do Brasil) se torne mais evidente.

Algumas notícias recentemente divulgadas apontam secas severas na Amazônia e no Nordeste brasileiro, assim como chuvas com potencial catastrófico na Região Sul. Mas não estão sustentadas por dados científicos confiáveis e, em muitas ocasiões, resultam de meras especulações.The Conversation

Regina Célia dos Santos Alvalá, Diretora, CEMADEN; José Antônio Marengo, Coordenador geral de pesquisa e desenvolvimento, CEMADEN e Marcelo Seluchi, Doutor em Ciências Meteorológicas, Universidad de Buenos Aires

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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