A Fifa poderia fazer mais para proteger os jogadores do calor na Copa do Mundo?
A Fifa poderia fazer mais para proteger os jogadores do calor na Copa do Mundo?
A Copa do Mundo, o evento esportivo mais assistido do mundo, começa no dia 11 de junho, cossediada pelo Canadá, México e Estados Unidos. Com 2026 já sendo considerado um dos anos mais quentes já registrados, especialistas e jogadores alertam que a Fifa não está fazendo o suficiente para proteger os jogadores do calor extremo.
Nossa nova pesquisa mostra que o estresse térmico que os jogadores podem enfrentar pode afetar negativamente seu desempenho e representar uma ameaça à sua saúde.
Muitos dos jogadores que representam seus países na Copa do Mundo deste ano estiveram em campo na Copa do Mundo de Clubes da Fifa 2025, onde os 32 melhores times de seis continentes se enfrentaram.
As partidas foram disputadas na mesma transição entre a primavera e o verão da Copa deste ano (junho-julho) e em vários dos mesmos locais que serão utilizados. Portanto, esse torneio serviu como um excelente estudo de caso para identificar prováveis desafios e possíveis soluções.
Utilizamos os próprios relatórios técnicos da Fifa para analisar o desempenho dos jogadores — corrida em baixa e alta velocidade e distância total percorrida por jogador — e dados disponíveis publicamente para as condições ambientais (por exemplo, temperatura e umidade do ar, radiação solar e velocidade do vento).
Das 63 partidas disputadas, analisamos dados de 57, ignorando as seis partidas disputadas dentro do Atlanta Stadium devido ao teto fechado e ao ar-condicionado, que mantêm a temperatura em confortáveis 22°C.
Quão quente é quente demais para jogar futebol?
As diretrizes de calor da Fifa são usadas como política padrão para proteger a saúde dos jogadores. Como muitas organizações esportivas, a Fifa usa a Temperatura Global de Bulbo Úmido (Wet Bulb Globe Temperature no original em inglês, ou WGBT) para calcular o estresse térmico. Essa medida leva em conta a temperatura do ar, o calor radiante da luz solar e o efeito refrescante da evaporação e da circulação do ar.
As diretrizes da Fifa utilizam uma WBGT “próxima, igual ou superior a 32°C” para definir um risco extremo de doenças causadas pelo calor, situação em que pausas para resfriamento se tornam obrigatórias ou a partida pode ser adiada ou cancelada.
Das 57 partidas disputadas durante a Copa do Mundo de Clubes da Fifa de 2025, 31 (54%) foram disputadas com uma WBGT de 28°C ou mais. Treze dessas partidas foram disputadas a 30°C ou mais e duas a 32°C ou mais. De acordo com especialistas do Colégio Americano de Medicina Esportiva, essas 31 partidas deveriam ter sido canceladas.
Em outras palavras, os jogadores foram, na maioria das vezes, expostos a um risco extremo de doenças causadas pelo calor.
Pense também nos espectadores, que chegam cedo, assistem à partida e depois saem mais tarde sem ar-condicionado. Uma onda de calor no centro e leste dos EUA fez com que mais de 100 milhões de pessoas em 726 condados enfrentassem temperaturas máximas diárias recordes de 22 a 25 de junho de 2025.
Calor e desempenho dos jogadores
Utilizamos modelagem estatística para avaliar como as condições ambientais afetaram a corrida em alta velocidade (20–25 m/h), velocidade moderada (15–20 km/h) e baixa velocidade (0–15 km/h), bem como a distância total percorrida pelos jogadores durante as partidas.
Constatamos que quanto mais alto a WBGT ou a temperatura ambiente, menor a distância percorrida pelos jogadores em todas as velocidades, enquanto a umidade ambiente mais elevada reduziu apenas a corrida em alta velocidade.
O fato de os jogadores correrem mais devagar e percorrerem menos distância pode ser explicado pelo calor, que aumenta suas temperaturas corporais profundas e musculares. Eles optam por diminuir o ritmo (pacing) para evitar lesões ou doenças causadas pelo calor. Isso também explica por que, no calor, jogadores e equipes optam por um estilo de jogo orientado para a posse de bola em vez de um estilo de jogo baseado em transições.
Hora do dia, posição do jogador e idade
Trinta e três partidas (58%) foram disputadas à tarde (17h ou antes). As 24 partidas restantes (42%) foram disputadas à noite (18h ou depois).
Os jogadores correram distâncias maiores à noite do que à tarde, com a simples explicação de que as partidas foram disputadas sob níveis mais baixos de estresse térmico. A temperatura e a umidade do ambiente, a radiação solar e a WBGT estavam todas mais baixas à noite do que à tarde.
A posição e a idade dos jogadores foram fatores importantes na determinação do desempenho, independentemente do estresse térmico. Os zagueiros correram as distâncias menores, os meio-campistas correram as maiores distâncias e os atacantes correram as maiores distâncias em altas velocidades. Quanto mais velho o jogador, menor a distância percorrida em todas as velocidades.
O que a Fifa deve fazer com esses dados?
As partidas não devem ser marcadas para a tarde, quando a WBGT e as temperaturas ambientes estão mais altas. Isso não deveria ser um problema para a Fifa, que transferiu a última Copa do Mundo para o inverno (novembro-dezembro) a fim de evitar o calor extremo do verão no Catar. A programação da Fifa, no entanto, reflete sua tentativa de equilibrar as condições de jogo para a saúde dos jogadores com janelas lucrativas de transmissão.
Como alternativa, a Fifa poderia usar estádios com teto fechado e ar-condicionado. Sete dos oito estádios da Copa do Mundo de 2022 utilizaram ar-condicionado.
Embora a Fifa tenha introduzido um intervalo de hidratação obrigatório de três minutos no meio de cada tempo de jogo, garantir que as bebidas estejam geladas e adicionar toalhas frias melhoraria a eficácia no intervalo.
Os treinadores também devem estar atentos às condições ambientais e adaptar seu plano de jogo às condições esperadas. Por exemplo, quando está calor, os jogadores devem optar mais por um estilo de jogo voltado para a posse de bola, empregar menos uma estratégia de alta pressão (para recuperar a bola) e fazer mais substituições precoces durante a partida.![]()
Toby Mündel, Professor in Kinesiology, Canada Research Chair in Extreme Human Environments, Brock University e Samuel Penna Wanner, Associate Professor, Department of Physical Education, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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