💥 A economia do endividamento: por que gigantes como Habib's, Casas Bahia e Braskem estão entrando em recuperação judicial?
Horizontes do Desenvolvimento
💥 A economia do endividamento: por que gigantes como Habib's, Casas Bahia e Braskem estão entrando em recuperação judicial?
Publicado em 28 de agosto de 2026 · Reportagem especial
Reportagem: Fabiano C. Prometi · Edição: Fabiano C. Prometi
A explosão de pedidos de recuperação judicial entre algumas das maiores empresas brasileiras não representa apenas uma sucessão de crises corporativas. Ela revela um problema estrutural da economia nacional: um modelo de crescimento excessivamente dependente do crédito, pressionado por juros elevados, governança fragilizada e profundas transformações nas relações de trabalho.
Em 2026, nomes historicamente consolidados — como Habib's, Casas Bahia, Marabraz, Braskem, Raízen, Grupo Toki (Tok&Stok e Mobly), Casa & Vídeo, Le Biscuit, St. Marché e diversas outras companhias — passaram a renegociar bilhões de reais em dívidas para evitar a falência. O fenômeno ocorre em praticamente todos os setores produtivos, mas atinge com maior intensidade o varejo, cuja sobrevivência depende diretamente da circulação de crédito entre bancos, fornecedores e consumidores.
Mais do que uma crise empresarial isolada, trata-se de um alerta sobre os limites de um capitalismo financeirizado, no qual o custo do dinheiro frequentemente supera a capacidade real de geração de riqueza.
📉 O retrato de uma crise que não para de crescer
Segundo dados da consultoria RGF, especializada em reestruturação empresarial, o Brasil alcançou 6.341 empresas em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026. Isso representa um crescimento de 66% em apenas três anos, demonstrando que o problema deixou de ser excepcional para tornar-se sistêmico.
Empresas em recuperação judicial por setor (2026)
Participação dos setores nas recuperações judiciais
Os três setores somam quase 60% dos processos registrados, evidenciando que a dificuldade financeira não está restrita ao comércio tradicional. A indústria sofre com custos elevados de financiamento e investimentos intensivos, enquanto o agronegócio enfrenta oscilações cambiais, clima extremo e encarecimento do crédito rural.
🏦 A Selic elevada é parte do problema — mas não explica tudo
A taxa básica de juros permaneceu em 14% ao ano, um dos patamares mais altos entre grandes economias. Em termos práticos, isso significa que empresas pagam muito mais caro para financiar estoques, expandir operações ou simplesmente manter capital de giro.
Entretanto, atribuir toda a responsabilidade à política monetária seria uma simplificação conveniente. O próprio Ministério da Fazenda argumenta que diversos indicadores continuam demonstrando dinamismo econômico, enquanto especialistas apontam uma combinação de fatores estruturais muito mais complexa.
Os pesquisadores identificam três vetores principais para a atual onda de recuperações:
juros elevados e restrição ao crédito;
decisões estratégicas equivocadas durante e após a pandemia;
deterioração da gestão de pessoas e perda de capital humano qualificado.
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Essa leitura é importante porque desloca o debate da polarização política para uma análise econômica baseada em evidências.
🛒 O varejo vive o choque entre lojas físicas e economia digital
Durante décadas, grandes redes brasileiras cresceram seguindo uma lógica simples: abrir mais lojas significava vender mais. Esse modelo funcionou relativamente bem enquanto o consumo era impulsionado pela expansão do crédito e pelo aumento da renda.
A pandemia, contudo, alterou profundamente essa equação.
Empresas aceleraram investimentos em e-commerce, logística e tecnologia entre 2020 e 2021. A transformação digital era necessária, mas muitas organizações assumiram dívidas gigantescas justamente quando os juros estavam em mínimos históricos. Quando a Selic saltou de 2% para níveis superiores a 14%, o custo dessa expansão tornou-se explosivo.
O resultado foi uma combinação perigosa:
Antes da pandemia | Após 2024 |
|---|---|
Expansão acelerada de lojas | Fechamento de unidades |
Crédito abundante | Financiamento caro |
Crescimento do consumo | Consumidor endividado |
Juros historicamente baixos | Selic em dois dígitos |
A Casas Bahia simboliza essa mudança. A empresa chegou a operar mais de mil lojas no país e precisou fechar centenas de unidades, além de promover milhares de demissões durante seu processo de reestruturação. Especialistas afirmam que parte dessas lojas jamais deveria ter sido inaugurada, pois não possuíam rentabilidade sustentável.
👥 A crise silenciosa da média gerência
Um dos aspectos menos discutidos dessa transformação é o desaparecimento da média gerência.
Entre 2020 e 2025, o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerentes e diretores, com saldo negativo superior a 112 mil postos nesses cargos.
À primeira vista, cortar níveis hierárquicos parece aumentar eficiência. Na prática, muitas empresas eliminaram justamente os profissionais responsáveis por conectar estratégia e operação.
Sem esses líderes intermediários, diretores passaram a acumular funções de recursos humanos, tecnologia, ESG, inovação, marketing e finanças simultaneamente. A consequência foi uma redução na qualidade das decisões e maior dificuldade para responder rapidamente às mudanças do mercado.
Essa tendência acompanha um movimento global observado também nos Estados Unidos e na Europa, onde consultorias como McKinsey e Deloitte vêm alertando para o chamado management gap — o vazio de liderança criado por cortes excessivos em estruturas organizacionais.
💳 O consumidor também está quebrado
Não existe recuperação empresarial sem recuperação do poder de compra das famílias.
Hoje, 39% dos brasileiros encontram-se inadimplentes, reduzindo drasticamente sua capacidade de consumir bens duráveis, móveis, eletrodomésticos e produtos financiados.
Essa estatística ajuda a explicar por que empresas podem até aumentar seu faturamento nominal e, ainda assim, enfrentar dificuldades de caixa. O crescimento da receita frequentemente é absorvido pelas despesas financeiras decorrentes dos empréstimos.
O economista Armando Castelar observa que muitos trabalhadores já comprometem parte significativa do salário com empréstimos consignados, criando um ciclo no qual famílias e empresas passam a disputar o mesmo recurso escasso: crédito acessível.
🌍 Uma tendência mundial, mas agravada no Brasil
Embora o Brasil apresente características próprias, o fenômeno dialoga com uma realidade internacional.
Nos últimos três anos, empresas dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha também enfrentaram aumento de insolvências após o ciclo global de alta dos juros iniciado em 2022. A diferença brasileira está na intensidade da dependência do crédito para financiar consumo e capital de giro.
Enquanto economias desenvolvidas possuem mercados de capitais mais diversificados, grande parte das empresas brasileiras continua excessivamente dependente do sistema bancário tradicional. Isso amplia o impacto de qualquer elevação da taxa básica.
Além disso, investidores pressionam executivos por crescimento contínuo, frequentemente premiando abertura de lojas e expansão territorial com bônus milionários. O incentivo acaba privilegiando volume em vez de rentabilidade, produzindo empresas maiores, porém financeiramente mais frágeis.
📊 Infográfico — O ciclo da recuperação judicial
Legenda: O processo normalmente resulta da combinação entre crédito caro, queda do consumo, aumento da dívida e decisões gerenciais inadequadas. Fonte: elaboração do Horizontes do Desenvolvimento com base em dados da RGF, BBC News Brasil e especialistas citados na reportagem.
⚖️ Recuperação judicial não é sinônimo de falência
Existe um equívoco frequente na cobertura econômica: recuperação judicial não significa encerramento das atividades.
Na recuperação judicial, a empresa renegocia suas dívidas sob supervisão da Justiça, preservando empregos, contratos e operações enquanto tenta reorganizar seu fluxo financeiro. Já a recuperação extrajudicial permite negociar apenas com parte dos credores antes da homologação judicial. A falência, por outro lado, representa o reconhecimento de que a empresa perdeu definitivamente sua capacidade de cumprir suas obrigações.
Essa distinção é fundamental para compreender por que gigantes como Americanas continuam operando mesmo após processos bilionários de reestruturação.
🔮 O futuro: menos expansão e mais eficiência
A expectativa de juros em dois dígitos até pelo menos 2028 indica que muitas empresas precisarão abandonar definitivamente a lógica do crescimento ilimitado.
As organizações mais resilientes tendem a compartilhar algumas características:
Modelo antigo | Nova tendência |
|---|---|
Abrir lojas continuamente | Otimizar unidades rentáveis |
Crescer via endividamento | Crescimento baseado em geração de caixa |
Cortar líderes intermediários | Requalificar gestores |
Bonificar expansão | Bonificar rentabilidade e produtividade |
Foco exclusivo em vendas | Integração entre experiência física e digital |
A inteligência artificial, a automação logística e a análise preditiva deverão ganhar importância, mas especialistas alertam que tecnologia não substitui governança. Sistemas sofisticados podem melhorar previsões de demanda; não conseguem corrigir decisões estratégicas equivocadas nem substituir liderança qualificada.
🧭 Uma crise de modelo, não apenas de conjuntura
A narrativa de que todas as dificuldades decorrem exclusivamente da política de juros ou, em sentido oposto, de que tudo resulta de má gestão, empobrece um debate muito mais complexo.
O Brasil enfrenta simultaneamente um consumidor altamente endividado, empresas pressionadas por financiamento caro, investidores exigindo crescimento acelerado e um mercado de trabalho que perdeu parte significativa de seus quadros gerenciais experientes. Esse conjunto produz uma economia menos resiliente e mais vulnerável a choques externos.
Se a década passada foi marcada pela obsessão em crescer a qualquer custo, os próximos anos provavelmente serão definidos pela capacidade de gerar valor com eficiência, governança e responsabilidade financeira. A verdadeira inovação empresarial talvez não esteja em abrir a milésima loja, mas em construir organizações capazes de sobreviver quando o dinheiro deixa de ser barato.
📚 Bibliografia (ABNT)
BBC NEWS BRASIL. Do Habib's às Casas Bahia, por que tantas empresas estão quebrando no Brasil? São Paulo, 27 ago. 2026. Disponível no arquivo fornecido pelo usuário. Acesso em: 28 ago. 2026.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Política monetária e taxa Selic. Brasília: BCB, 2026.
FUNDAÇÃO DOM CABRAL (FDC). Estudos sobre estratégias competitivas e reestruturação empresarial. Nova Lima: FDC, 2026.
FGV IBRE – FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Análises econômicas sobre crédito, juros e insolvência empresarial. Rio de Janeiro: FGV, 2026.
MINISTÉRIO DA FAZENDA. Indicadores macroeconômicos e mercado de crédito. Brasília: Governo Federal, 2026.
✍️ Créditos
Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi
Publicação: Horizontes do Desenvolvimento
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