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🌍 O núcleo da Terra está mudando de direção — mas a verdadeira história é mais fascinante do que as manchetes sugerem


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🌍 O núcleo da Terra está mudando de direção — mas a verdadeira história é mais fascinante do que as manchetes sugerem

Estudos sísmicos indicam que o núcleo interno oscila em ciclos de aproximadamente 70 anos. Entenda o que a ciência realmente descobriu — e por que isso não significa uma catástrofe iminente.

20 de setembro de 2026

Leitura de 12 min
Pesquisas de sismologia revelam que o núcleo interno sólido gira em velocidade variável em relação ao manto terrestre, formando um ciclo geofísico de longa duração.

🌍 O núcleo da Terra está mudando de direção — mas a verdadeira história é mais fascinante do que as manchetes sugerem

Por Fabiano C. Prometi Editado por Fabiano C. Prometi

Publicado em 20 de setembro de 2026

Durante décadas, o interior da Terra permaneceu como uma das regiões mais misteriosas do Sistema Solar. A milhares de quilômetros abaixo de nossos pés, um núcleo metálico superaquecido produz o campo magnético que protege a vida da radiação cósmica, influencia a duração dos dias e participa da dinâmica geológica do planeta. Nos últimos anos, manchetes alarmistas passaram a afirmar que o núcleo da Terra "parou de girar" ou "inverteu sua direção", sugerindo consequências imediatas para a humanidade.

A realidade científica é muito mais interessante — e muito menos apocalíptica.

O estudo que originou essas notícias, publicado na revista Nature Geoscience por Yi Yang e Xiaodong Song, não afirma que o planeta deixou de girar. O que os pesquisadores observaram foi uma mudança na rotação diferencial do núcleo interno sólido em relação ao manto terrestre, um fenômeno lento, cíclico e detectado por meio da análise de ondas sísmicas produzidas por terremotos repetitivos.

Mais recentemente, uma segunda pesquisa publicada na revista Nature reforçou essa interpretação ao demonstrar que o núcleo realmente apresenta um movimento de avanço e retrocesso ao longo de décadas, compatível com uma oscilação natural do interior terrestre.

A descoberta representa um avanço importante para a geofísica, mas também expõe um problema recorrente da divulgação científica contemporânea: a transformação de resultados complexos em manchetes que confundem "inversão relativa" com "mudança na rotação da Terra".

🌋 O coração metálico do planeta

Para compreender a descoberta, é preciso imaginar a Terra como uma estrutura composta por camadas distintas.

A estrutura terrestre pode ser dividida em quatro grandes regiões:

Camada

Espessura aproximada

Estado físico

Crosta

5–70 km

Sólido

Manto

2.900 km

Rocha viscosa

Núcleo externo

2.260 km

Ferro e níquel líquidos

Núcleo interno

1.220 km de raio

Ferro sólido

O núcleo interno possui temperatura estimada entre 5.000 °C e 6.000 °C, semelhante à superfície do Sol. Apesar disso, permanece sólido devido às pressões gigantescas exercidas pelas camadas superiores.

É justamente esse núcleo sólido que parece girar em velocidade ligeiramente diferente do restante do planeta.

📡 Como cientistas observam algo invisível?

Ninguém jamais perfurou o núcleo terrestre. A profundidade máxima alcançada por seres humanos, no famoso Poço Superprofundo de Kola, na Rússia, foi de apenas 12,2 quilômetros — menos de 0,2% do caminho até o centro da Terra.

A solução veio da sismologia.

Quando ocorre um terremoto, ondas sísmicas atravessam diferentes materiais. Algumas cruzam o núcleo interno e chegam a estações espalhadas pelo mundo. Se terremotos quase idênticos acontecem anos depois no mesmo local, os pesquisadores conseguem comparar diferenças de poucos milissegundos no tempo de chegada dessas ondas.

Foi exatamente essa metodologia que Yang e Song aplicaram utilizando registros desde 1964, revelando uma mudança consistente na velocidade relativa do núcleo.

Disasters Strike: Global Seismograph Network Completed
Seismic Waves - Earths Formation
SON DEPREMLER LİSTESİ 24 MAYIS 2026: Adana, Osmaniye, Kahramanmaraş, Gaziantep'te deprem mi oldu? - Dünya Gazetesi

As chamadas ondas PKIKP atravessam o núcleo interno antes de emergirem na superfície, funcionando como uma espécie de tomografia natural do planeta.

🔄 O núcleo realmente inverteu sua rotação?

A resposta curta é: sim, mas apenas em relação ao manto — e isso é muito diferente do que parece.

O planeta continua girando normalmente em torno do próprio eixo, completando uma volta em aproximadamente 24 horas.

O que muda é a pequena diferença de velocidade entre duas partes internas da Terra.

Segundo o estudo, o núcleo interno apresentou três fases principais:

-0.8-0.400.40.819641972199020092023

Interpretação do gráfico: valores positivos representam uma super-rotação relativa; valores negativos indicam um movimento relativo mais lento em relação ao manto. Trata-se de uma representação qualitativa baseada na tendência observada pelos estudos, e não de velocidade angular absoluta.

A oscilação completa parece durar cerca de 70 anos, sugerindo que esse comportamento faz parte da dinâmica normal do planeta.

⏱️ Estamos sentindo os efeitos?

Essa é a afirmação mais problemática presente em muitas reportagens.

Os pesquisadores encontraram uma correlação entre a oscilação do núcleo e pequenas variações na duração do dia, conhecidas como Length of Day (LOD). Essas mudanças existem, mas são extremamente pequenas: estamos falando de milissegundos, imperceptíveis para qualquer pessoa no cotidiano.

Fenômeno

Ordem de grandeza

Duração média do dia

86.400 segundos

Variação observada

1–3 milissegundos

Percepção humana

Impossível sem instrumentos

Ou seja, dizer que "os humanos já estão sentindo os efeitos" é uma extrapolação indevida. Os efeitos são detectados por relógios atômicos, satélites e sistemas geodésicos, não pelo organismo humano.

Essa distinção entre efeitos mensuráveis e efeitos perceptíveis é fundamental para evitar desinformação científica.

🧲 O campo magnético pode mudar?

O núcleo externo líquido funciona como um gigantesco dínamo elétrico.

Seu movimento gera o campo magnético terrestre, responsável por proteger a atmosfera contra partículas solares. Embora exista relação física entre núcleo, manto e magnetismo, os estudos atuais não demonstram que a inversão relativa do núcleo interno causará uma inversão dos polos magnéticos.

As inversões magnéticas realmente ocorreram muitas vezes na história geológica — centenas de eventos ao longo de milhões de anos — mas são processos completamente diferentes e muito mais lentos.

🌐 Por que essa descoberta importa?

A pesquisa vai muito além da curiosidade.

Ela melhora modelos utilizados em diversas áreas:

  • previsão do comportamento do campo magnético;

  • calibração de sistemas globais de navegação (GPS e GNSS);

  • compreensão da evolução térmica da Terra;

  • estudos sobre terremotos profundos;

  • modelos de formação de planetas rochosos.

Além disso, a descoberta possui implicações para a exploração espacial. Entender como núcleos metálicos evoluem ajuda cientistas a interpretar dados de Marte, Mercúrio e exoplanetas semelhantes à Terra.

⚠️ O problema das manchetes científicas

A divulgação científica enfrenta um dilema permanente: simplificar sem distorcer.

No caso do núcleo terrestre, três afirmações circulam frequentemente:

Manchete

O que a ciência diz

O núcleo parou de girar

❌ Não. A Terra continua girando normalmente.

O núcleo inverteu

✅ Sim, relativamente ao manto terrestre.

Humanos já sentem efeitos

⚠️ Apenas instrumentos detectam pequenas variações temporais.

A própria Nature publicou uma análise destacando que nem todos os pesquisadores concordam integralmente com os modelos de interpretação, embora haja consenso de que mudanças relativas foram observadas nas ondas sísmicas. A ciência continua refinando essas medições conforme novos terremotos são registrados.

Essa cautela metodológica é justamente o oposto da lógica viral das redes sociais, onde nuances costumam desaparecer em favor de títulos dramáticos.

🔬 O futuro da pesquisa do interior da Terra

Em 2024, um novo estudo ampliou significativamente o conjunto de dados sísmicos, analisando 143 pares de terremotos repetitivos entre 1991 e 2023. Os autores concluíram que o núcleo avançou mais rapidamente entre 2003 e 2008 e depois iniciou um retorno gradual, reforçando a hipótese de um movimento oscilatório.

Nos próximos anos, redes sísmicas mais sensíveis, inteligência artificial aplicada à interpretação de terremotos e modelos computacionais do geodínamo deverão produzir a imagem mais detalhada já construída do centro da Terra.

A maior lição dessa descoberta talvez seja filosófica: mesmo vivendo na era dos telescópios espaciais e da exploração lunar, continuamos conhecendo menos sobre o planeta sob nossos pés do que imaginamos. O núcleo terrestre permanece invisível, inacessível e extraordinariamente ativo — lembrando que algumas das maiores fronteiras da ciência não estão apenas nas estrelas, mas também a 6.371 quilômetros abaixo de nós.

📊 Infográfico-resumo

Fonte: Adaptado de Yang & Song (2023) e Wang et al. (2024).

📚 Bibliografia (ABNT)

YANG, Yi; SONG, Xiaodong. Multidecadal variation of the Earth's inner-core rotation. Nature Geoscience, v. 16, n. 2, p. 182–187, Londres: Springer Nature, 2023. Disponível em: DOI 10.1038/s41561-022-01112-z. Acesso em: 20 set. 2026.

WANG, Wei et al. Inner core backtracking by seismic waveform change reversals. Nature, v. 631, p. 340–343, Londres: Springer Nature, 2024. Disponível em: DOI 10.1038/s41586-024-07536-4. Acesso em: 20 set. 2026.

WITZE, Alexandra. Has Earth’s inner core stopped its strange spin? Nature, Londres, 2023. Disponível em: DOI 10.1038/d41586-023-00167-1. Acesso em: 20 set. 2026.

SONG, Xiaodong; RICHARDS, Paul G. Seismological evidence for differential rotation of the Earth’s inner core. Nature, Londres: Nature Publishing Group, 1996.

✍️ Créditos

Reportagem: Fabiano C. Prometi

Edição: Fabiano C. Prometi

Publicação: Grandes Inovações Tecnológicas — Horizontes do Desenvolvimento

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