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‘Corrupto, mas cristão’: como a ultradireita brasileira relativiza corrupção de aliados

 

‘Corrupto, mas cristão’: como a ultradireita brasileira relativiza corrupção de aliados

Péricles Andrade, Universidade Federal de Sergipe

Recentemente, o deputado estadual paulista Lucas Bove (PL-SP), durante participação no podcast Iron Talks, declarou apoiar o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mesmo considerando-o “corrupto”.

Lucas afirmou identificar o correligionário com o cristianismo e os valores conservadores, em oposição à esquerda. A declaração, repercutida pelo Farol da Bahia, explicita a contradição que orienta esta análise: a possibilidade de relativizar a honestidade de um candidato quando sua identidade religiosa e política é valorizada.

A discussão ganha relevância diante das investigação sobre Flávio Bolsonaro que correm no caso Dark Horse, que apura suspeitas de irregularidades no financiamento do filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, e o inquérito sobre lavagem de dinheiro desviado do INSS envolvendo o advogado do candidato, Willer Tomaz.

No caso do filme, a investigação examina negociações diretas de Flávio com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para financiamento da produção, incluindo a origem e o destino dos recursos e possíveis contrapartidas políticas. Flávio nega irregularidades e afirma que o financiamento foi privado, conforme reportagem da Folha de S.Paulo.

Não pretendo neste artigo antecipar julgamentos jurídicos: investigação não é condenação. Meu interesse é sociológico:

Como os eleitores avaliam informações negativas sobre lideranças com as quais se identificam? Por que a exigência de honestidade pode perder força quando as suspeitas atingem aliados?

Quando a corrupção vira uma disputa entre “nós” e “eles”

Desde as manifestações de 2013, especialmente na crise que antecedeu a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, o combate à corrupção ganhou centralidade na mobilização de setores da direita.

A rejeição ao PT, a crítica aos partidos tradicionais e a promessa de renovação moral passaram a integrar uma mesma narrativa. Estudos sobre protestos anticorrupção e polarização política ajudam a compreender como essa pauta se articulou às disputas que reorganizaram a política brasileira.

A corrupção tornou-se não apenas um problema de administração pública, mas também um marcador de identidade política.

Essa dinâmica se conecta à retórica antissistema do bolsonarismo: a oposição entre “sistema” e “antissistema” pode alimentar a percepção de que determinadas lideranças representam uma ruptura com a política tradicional. Isso mesmo quando atuam em suas estruturas institucionais. Essa contradição é discutida no artigo “Sistema e antissistema na crítica do bolsonarismo”.

Considero importante observar como essa retórica interfere no julgamento moral.

Denúncias contra aliados podem ser interpretadas como perseguição. Acusações contra adversários são tomadas como confirmação de sua corrupção. A pergunta deixa de ser apenas “este candidato é honesto?” e passa a incluir outra: “ele é preferível ao adversário que quero derrotar?”.

A meu ver, o antipetismo contribui para essa seletividade. Quando a rejeição à esquerda domina a disputa, suspeitas contra adversários, às vezes convertidos em inimigos, ganham destaque, enquanto questionamentos sobre aliados podem ser relativizados.

No caso Master, por exemplo, essa dinâmica também aparece na polarização em torno do STF. Questionamentos envolvendo ministros e a condução das investigações alimentam disputas sobre parcialidade, perseguição e abuso de poder. Isso não significa que as críticas sejam infundadas nem que as suspeitas comprovem irregularidades.

A questão é como a posição política dos envolvidos influencia a interpretação dos fatos e a exigência de responsabilização.

Por que a indignação nem sempre chega às urnas

Condenar a corrupção em abstrato não significa necessariamente punir eleitoralmente um candidato investigado. Entre a reprovação moral e o voto estão a confiança nas denúncias, a avaliação dos governantes, as políticas defendidas e a percepção das alternativas disponíveis.

Um eleitor pode condenar a corrupção e, ainda assim, apoiar um candidato sob suspeita porque acredita que ele entrega resultados, protege valores importantes ou impede a vitória de um adversário considerado pior.

A expressão “rouba, mas faz” sintetiza essa tensão entre a exigência de integridade e os resultados atribuídos ao governante, tema discutido em estudo sobre corrupção e comportamento político.

Não considero esse comportamento exclusivo da direita. Diferentes grupos podem relativizar irregularidades de seus representantes.

O que me interessa é compreender quando a identificação política enfraquece a cobrança, especialmente porque o discurso anticorrupção ganhou força nos movimentos e nas lideranças que se projetaram após 2013.

Entre setores da direita, a rejeição à esquerda pode combinar-se com a identificação religiosa e a defesa de pautas conservadoras.

Um candidato é avaliado não apenas por sua conduta, mas também pelo que simboliza. Se representa a família, a religião ou uma visão de sociedade considerada ameaçada, denúncias contra ele podem perder peso diante da percepção de que defende uma causa superior.

Não concluo daí que a religião produza tolerância à corrupção. Minha hipótese é mais delimitada: quando a identidade religiosa se articula à identidade política, pode ajudar a preservar a confiança em um representante apesar de informações negativas.

Cordialidade: quando a proximidade pesa mais do que a regra

Em Raízes do Brasil, de 1936, Sérgio Buarque de Holanda formulou o conceito de “homem cordial” para analisar a força dos vínculos pessoais e afetivos nas relações sociais brasileiras. Cordialidade não significa simplesmente gentileza ou bondade, mas a prevalência das relações pessoais, que podem entrar em tensão com a aplicação impessoal das regras na vida pública.

Essa interpretação ajuda a compreender por que a avaliação de um representante pode ultrapassar o julgamento de sua conduta. A confiança, a identificação e o sentimento de pertencimento podem pesar mais

do que a aplicação uniforme de um princípio moral. A lealdade ao grupo pode favorecer a tolerância com aliados e tornar mais severo o julgamento dos adversários.

Não é preciso considerar a corrupção legítima para tolerá-la em uma situação concreta: alguém pode condenar desvios de recursos públicos e, ao mesmo tempo, encontrar justificativas para continuar apoiando seu candidato. Essa tensão entre reprovação e tolerância é discutida por Fernando Filgueiras em análise sobre corrupção e moralidade na sociedade brasileira.

Não proponho uma aplicação automática do conceito de cordialidade ao comportamento eleitoral contemporâneo. Utilizo essa aproximação como chave interpretativa para investigar como o pertencimento político pode entrar em conflito com regras que deveriam valer igualmente para todos.

Não se trata de atribuir a tolerância à corrupção a uma característica geral da sociedade brasileira, mas de compreender como vínculos de identificação e lealdade interferem no julgamento moral.

A honestidade vale também para os aliados

Minha interpretação é que, em ambientes polarizados, as denúncias são julgadas também pela identidade de quem denuncia e de quem está sob suspeita. Quando a investigação é percebida como um ataque ao próprio grupo, a cobrança pode dar lugar à defesa do acusado.

Isso não significa que todos os eleitores de direita sejam indiferentes à corrupção, mas que a polarização pode reduzir o impacto das denúncias e dificultar a responsabilização eleitoral.

Vejo um problema democrático quando a corrupção é inaceitável se envolve adversários, mas tolerável quando atinge aliados. Nesse caso, a indignação deixa de funcionar como princípio universal e passa a servir à disputa política.

Não atribuo a todos os eleitores de direita a mesma atitude, mas considero legítimo perguntar se a honestidade e a responsabilidade pública são exigidas dos próprios representantes com o mesmo rigor aplicado aos adversários.

A questão decisiva não é se um candidato é cristão, conservador ou de direita, mas se a honestidade continuará sendo exigida quando as suspeitas atingirem alguém com quem o eleitor se identifica.

Uma política anticorrupção coerente começa quando os aliados são submetidos aos mesmos critérios de julgamento aplicados aos adversários.The Conversation

Péricles Andrade, Professor Titular do Departamento de Ciências Sociais e docente permanente dos Programas de Pós-Graduação em Ciências da Religião e em Sociologia., Universidade Federal de Sergipe

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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