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🗳️ A revolta contra as Big Techs: eleitores dos EUA impõem derrota histórica à indústria da inteligência artificial

Horizontes do Desenvolvimento | 6 de novembro de 2026

Subtítulo: A rejeição popular à construção de megacentros de processamento de dados expõe os limites do poder das gigantes da tecnologia e coloca no centro do debate uma questão fundamental: quem deve pagar os custos ambientais, econômicos e sociais da revolução da inteligência artificial?

Por Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

🌎 Quando a população decide enfrentar o poder tecnológico

A expansão da inteligência artificial (IA), frequentemente apresentada pelas maiores empresas de tecnologia como um caminho inevitável para o futuro, acaba de encontrar um obstáculo político de grandes proporções nos Estados Unidos. Nas eleições de meio de mandato realizadas em 3 de novembro de 2026, eleitores de diferentes regiões do país rejeitaram projetos de instalação de centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, impondo uma derrota significativa aos interesses das grandes corporações tecnológicas.

O resultado representa mais do que uma resistência localizada à construção de instalações industriais. É um sinal de insatisfação social com um modelo de desenvolvimento tecnológico que concentra os lucros em poucas empresas, enquanto transfere parte considerável dos custos ambientais e de infraestrutura para comunidades locais.

Segundo levantamento publicado pela Agência Brasil em 6 de novembro, dos 41 plebiscitos locais realizados em dez estados norte-americanos durante o processo eleitoral, 40 terminaram com a rejeição popular às propostas relacionadas à expansão desses empreendimentos. Em Ottawa, no Kansas, por exemplo, uma proposta de proibição de instalações com demanda energética superior a 25 megawatts recebeu 72% dos votos contrários à construção.

A dimensão política desse resultado merece atenção. A resistência não surgiu exclusivamente de organizações ambientalistas ou de grupos contrários à inovação. Em muitas localidades, a mobilização partiu dos próprios moradores, que passaram a questionar o consumo de eletricidade, a utilização de água, a pressão sobre os serviços públicos e os possíveis efeitos desses empreendimentos sobre o custo de vida.

A mensagem é clara: desenvolvimento tecnológico não pode ser tratado como um cheque em branco concedido às grandes empresas.

Os resultados também coincidiram com uma expressiva vitória eleitoral dos democratas, que conquistaram as maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado, enfraquecendo a sustentação política do presidente Donald Trump. A mudança no equilíbrio de forças em Washington aumentou as expectativas de uma revisão das políticas federais relacionadas à inteligência artificial e à infraestrutura digital.

A reação dos mercados financeiros foi igualmente significativa. Em 5 de novembro, o índice Nasdaq Composite sofreu uma queda de aproximadamente 5,5%, enquanto ações de empresas ligadas à inteligência artificial e à infraestrutura de processamento de dados registraram perdas expressivas. O movimento revelou o receio dos investidores de que o novo cenário político resulte em regras mais rigorosas para o setor.

A reportagem da Reuters sobre a reação dos mercados identificou justamente essa preocupação: a possibilidade de que a vitória democrata dificulte a expansão acelerada da infraestrutura que sustenta os negócios de IA.

Não se trata, portanto, apenas de uma oscilação financeira. O episódio revela que o poder econômico das grandes empresas de tecnologia também depende de decisões políticas, licenças ambientais, disponibilidade de recursos naturais e aceitação social.

Agência Brasil+2

⚡ A infraestrutura invisível por trás da inteligência artificial

Para compreender a dimensão da revolta, é necessário observar o que existe por trás das ferramentas de IA utilizadas diariamente por milhões de pessoas. Chatbots, sistemas de reconhecimento de imagens, plataformas de tradução, mecanismos de recomendação e modelos generativos dependem de uma infraestrutura física gigantesca.

Os data centers são instalações que abrigam servidores, equipamentos de armazenamento, redes de comunicação e sistemas de refrigeração. São, em termos práticos, as fábricas da economia digital. Quanto mais sofisticados os modelos de inteligência artificial, maior pode ser a necessidade de processamento computacional, eletricidade e sistemas de resfriamento.

O problema é que a expansão dessa infraestrutura está avançando em uma velocidade que nem sempre é acompanhada pelo planejamento energético, ambiental e urbano.

Um relatório atualizado em 2026 pelo Lawrence Berkeley National Laboratory, vinculado ao Departamento de Energia dos Estados Unidos, estima que os centros de processamento de dados poderão representar 11,8% do consumo total de eletricidade norte-americano em 2030. Dependendo do cenário considerado, essa participação poderá variar entre 9,5% e 15,3%.

A projeção demonstra a dimensão do desafio. Uma infraestrutura que durante décadas permaneceu relativamente restrita ao funcionamento da internet e dos serviços corporativos passou a ocupar uma posição estratégica no planejamento energético de uma das maiores economias do planeta.

A Agência Internacional de Energia (IEA), por sua vez, estima que o consumo mundial de eletricidade dos data centers poderá aproximadamente dobrar, passando de 485 terawatts-hora em 2025 para 950 terawatts-hora em 2030. Os centros especializados em inteligência artificial deverão apresentar crescimento ainda mais acelerado.

Isso significa que a revolução tecnológica possui uma dimensão energética que não pode ser ignorada.

A chamada economia imaterial depende de estruturas extremamente materiais: terrenos, cabos, subestações, linhas de transmissão, turbinas, sistemas de refrigeração, água e equipamentos industriais. A promessa de uma sociedade cada vez mais digital não elimina a exploração dos recursos naturais. Em determinadas circunstâncias, apenas desloca essa exploração para regiões menos visíveis ao consumidor.

Energia Data Centers+2

💧 Água e energia: a conta que chega às comunidades

Um dos principais motivos da resistência popular está relacionado à utilização de água e eletricidade pelos grandes centros de processamento.

Os equipamentos computacionais produzem calor continuamente e precisam operar em condições térmicas controladas. Dependendo da tecnologia empregada, os sistemas de refrigeração podem consumir grandes volumes de água, além da eletricidade necessária para manter servidores, equipamentos auxiliares e instalações em funcionamento.

Um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, publicado em 31 de julho de 2026, sobre o consumo de água pelos data centers, apresenta uma estimativa particularmente reveladora: uma instalação de 100 megawatts pode consumir diretamente, em determinadas condições, um volume diário de água comparável ao utilizado por aproximadamente 2.600 residências.

O mesmo levantamento aponta que cerca de 97% da água utilizada diretamente pelos centros de dados norte-americanos provém de sistemas públicos de abastecimento, segundo uma análise citada pelo documento.

É necessário observar que o consumo varia conforme a localização, o clima, a tecnologia de refrigeração e a matriz energética. Portanto, não seria correto afirmar que todos os data centers apresentam o mesmo impacto ambiental.

Entretanto, a questão central permanece: quando uma instalação industrial de grande porte passa a disputar recursos com residências, estabelecimentos comerciais e outras atividades econômicas, a população precisa ter acesso às informações sobre a distribuição dos custos e dos benefícios.

A preocupação também envolve as tarifas de eletricidade. A expansão acelerada de instalações com demanda energética elevada pode exigir investimentos em geração, transmissão e distribuição. Caso esses investimentos sejam repassados inadequadamente aos consumidores, famílias e pequenos negócios poderão acabar financiando parte da infraestrutura necessária à expansão de empresas bilionárias.

O problema não é a existência dos centros de dados, indispensáveis à sociedade contemporânea. O problema é permitir que empreendimentos privados obtenham vantagens econômicas enquanto comunidades assumem riscos ambientais e despesas coletivas sem transparência ou participação efetiva.

O desenvolvimento tecnológico precisa respeitar limites ecológicos e direitos sociais. Sem essa condição, a inovação deixa de representar progresso compartilhado e se transforma em mais uma modalidade de concentração de riqueza.

Every CRS Report+2

📉 Wall Street descobre que a expansão da IA também tem riscos políticos

A reação dos mercados financeiros demonstrou como a indústria da inteligência artificial se tornou dependente das expectativas de crescimento contínuo.

Em 5 de novembro, um dia depois da divulgação dos resultados eleitorais, os investidores passaram a reavaliar o risco regulatório associado às empresas de tecnologia. O Nasdaq Composite recuou aproximadamente 5,5%, registrando sua queda diária mais expressiva em 19 meses, segundo a Reuters.

O movimento atingiu especialmente empresas vinculadas à fabricação de semicondutores, à infraestrutura de computação e à operação de serviços em nuvem.

A Nvidia, uma das principais fornecedoras de processadores utilizados no treinamento de modelos de IA, esteve entre as companhias pressionadas. Outras empresas do setor também sofreram perdas expressivas.

A Reuters informou que a desvalorização refletiu o temor de que a nova configuração política norte-americana produza restrições à construção de data centers e aumente a fiscalização sobre a indústria.

O episódio evidencia uma contradição importante: empresas que frequentemente apresentam a inteligência artificial como uma transformação inevitável da humanidade continuam dependendo de condições políticas, econômicas e regulatórias bastante concretas.

O mercado financeiro não está reagindo necessariamente a uma redução imediata da demanda por inteligência artificial. Está reagindo à possibilidade de que o ritmo de expansão dos negócios deixe de ser determinado exclusivamente pelas estratégias das corporações.

Há também uma dimensão especulativa. Nos últimos anos, as expectativas de crescimento da IA estimularam investimentos bilionários, valorizações expressivas e projetos de infraestrutura construídos com base na previsão de uma demanda futura crescente.

Quando surgem obstáculos regulatórios, investidores passam a questionar a rentabilidade de projetos que exigem capital intensivo e longos períodos de retorno.

Isso não significa que a inteligência artificial esteja perdendo sua relevância econômica. Significa que a promessa de crescimento ilimitado começa a encontrar limites políticos, financeiros e materiais.

A queda das ações, portanto, precisa ser interpretada com cuidado. Ela não representa uma rejeição dos mercados à tecnologia em si, mas uma revisão das expectativas sobre o modelo de negócios que sustenta parte da atual corrida pela IA.

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🏛️ O voto como instrumento de controle democrático

Um dos aspectos mais importantes desse episódio é a participação direta dos cidadãos nas decisões sobre a infraestrutura tecnológica instalada em seus territórios.

De acordo com os resultados sistematizados pela Ballotpedia, organização independente que acompanha eleições e consultas populares nos Estados Unidos, 27 das 28 medidas eleitorais de 3 de novembro destinadas a limitar ou restringir a expansão dos data centers foram aprovadas. As outras 13 medidas, que buscavam facilitar ou apoiar esse desenvolvimento, foram derrotadas.

A única exceção entre os 41 plebiscitos ocorreu em Harwood, na Dakota do Norte, onde os eleitores rejeitaram uma proposta de revisão adicional para determinados empreendimentos industriais.

É importante fazer uma distinção: nem todas as 27 decisões representam proibições definitivas. Algumas estabeleceram moratórias, regras de zoneamento, exigências de consulta popular ou outras restrições. O conjunto, porém, demonstra uma resistência eleitoral bastante abrangente.

O levantamento também registra medidas de diferentes naturezas. Em algumas localidades, os eleitores aprovaram proibições completas. Em outras, estabeleceram limites para instalações de grande porte ou exigiram garantias financeiras das empresas responsáveis pelos projetos.

Em Grove City, no estado de Ohio, por exemplo, uma das propostas aprovadas estabeleceu exigências de aprovação popular para determinados empreendimentos que ultrapassem limites de utilização de terreno, energia ou água. A iniciativa também previu padrões de impacto comunitário.

Esse tipo de decisão representa uma mudança relevante na relação entre população, governos locais e grandes corporações.

Historicamente, decisões sobre investimentos industriais de grande porte costumam ser justificadas pela promessa de geração de empregos, arrecadação tributária e desenvolvimento econômico. Entretanto, os benefícios anunciados nem sempre são distribuídos de maneira proporcional aos custos suportados pelas comunidades.

No caso dos data centers, existe ainda uma característica particular: essas instalações podem movimentar investimentos gigantescos sem necessariamente produzir uma quantidade de empregos permanentes proporcional ao seu tamanho e consumo de recursos.

A automação e a elevada especialização técnica reduzem a necessidade de grandes contingentes de trabalhadores durante a operação cotidiana. Embora existam empregos na construção, manutenção, segurança, engenharia e administração, a população local precisa avaliar se os benefícios prometidos justificam os custos de infraestrutura e os impactos ambientais.

A consulta popular introduz uma exigência fundamental: o direito de decidir sobre o próprio território.

O resultado também ajuda a compreender por que o debate sobre inteligência artificial ultrapassou os limites das empresas de tecnologia e passou a integrar a agenda eleitoral. A questão deixou de ser exclusivamente sobre inovação e competitividade para envolver democracia econômica, planejamento urbano e justiça ambiental.

A pesquisa de boca de urna da NBC News, citada pela Agência Brasil, acrescenta outro indicador importante: 57% dos entrevistados acreditavam que a inteligência artificial faria mais mal do que bem à sociedade, enquanto 76% se opunham à construção de data centers em suas comunidades.

Esses números não significam que a maioria da população rejeite todas as aplicações da inteligência artificial. Revelam, sobretudo, uma desconfiança crescente em relação à forma como a tecnologia está sendo desenvolvida e implantada.

Ballotpedia News+2

⚖️ Trump, Big Techs e a disputa pelo controle da tecnologia

A derrota eleitoral dos interesses ligados à expansão dos data centers também precisa ser analisada dentro do cenário político norte-americano.

Durante o governo Donald Trump, a orientação predominante foi favorecer investimentos privados e reduzir obstáculos regulatórios considerados prejudiciais à competitividade tecnológica dos Estados Unidos.

Em setembro de 2026, Trump anunciou uma agenda de autorregulação para o setor, segundo a Agência Brasil. A proposta atribuía às próprias empresas a responsabilidade de estabelecer mecanismos de segurança e controle para suas atividades.

Essa abordagem representa uma visão específica sobre a relação entre Estado e mercado: a de que a indústria deve possuir ampla liberdade para desenvolver tecnologias e estabelecer padrões de funcionamento, com intervenção governamental limitada.

Entretanto, a experiência demonstra que a autorregulação possui limitações importantes quando estão em jogo interesses públicos de grande dimensão.

Empresas privadas têm incentivos econômicos para ampliar mercados, acelerar lançamentos, conquistar usuários e reduzir custos. Esses objetivos não necessariamente coincidem com a proteção ambiental, a segurança dos consumidores ou a distribuição equilibrada dos benefícios tecnológicos.

Quando os próprios agentes econômicos definem os limites de suas atividades, surge um problema de conflito de interesses.

O desafio não consiste em impedir a inovação, mas em estabelecer regras independentes, transparentes e fiscalizáveis.

Nesse contexto, a vitória democrata cria condições políticas para uma disputa legislativa sobre a governança da inteligência artificial. A deputada eleita Yassmin Ansari, do Arizona, defendeu uma pausa no desenvolvimento de IA avançada, regulamentação mais rigorosa e restrições à chamada superinteligência artificial.

A declaração indica que parte da oposição pretende ir além da regulamentação dos data centers, discutindo também os riscos associados ao desenvolvimento de sistemas cada vez mais autônomos e poderosos.

Entretanto, a mudança de maioria no Congresso não significa que todas essas propostas serão automaticamente aprovadas. O processo legislativo norte-americano envolve negociações entre partidos, interesses empresariais, governos estaduais e diferentes setores da sociedade.

Existe ainda uma questão econômica incontornável: os Estados Unidos disputam com a China a liderança mundial em semicondutores, infraestrutura computacional e inteligência artificial.

Uma política excessivamente restritiva pode afetar a competitividade industrial norte-americana. Por outro lado, permitir que a expansão ocorra sem critérios adequados pode produzir custos ambientais, sociais e econômicos igualmente prejudiciais à posição internacional do país.

A verdadeira disputa, portanto, não é simplesmente entre desenvolvimento e regulação. É sobre qual modelo de desenvolvimento tecnológico deve orientar o futuro.

🌐 Uma tendência mundial que ultrapassa as fronteiras norte-americanas

O que acontece nos Estados Unidos tem repercussões internacionais porque as grandes empresas de tecnologia operam em escala global.

Microsoft, Google, Amazon, Meta e outras companhias precisam ampliar continuamente sua infraestrutura para atender à demanda por computação em nuvem e inteligência artificial.

A construção de novos data centers tornou-se uma das principais frentes de investimento da economia digital. Países e governos disputam esses empreendimentos oferecendo terrenos, incentivos tributários, infraestrutura energética e condições regulatórias favoráveis.

Entretanto, essa competição pode produzir uma espécie de corrida por investimentos na qual as exigências ambientais e sociais acabam tratadas como obstáculos.

O problema não é exclusivo dos Estados Unidos. A pressão por energia, água e terrenos também aparece em regiões da Europa, da Ásia e da América Latina.

A Agência Internacional de Energia estima que o consumo global de eletricidade dos data centers chegará a aproximadamente 950 terawatts-hora em 2030, caso se confirme sua projeção central. O crescimento deverá ser impulsionado principalmente pela expansão dos serviços digitais e pela inteligência artificial.

Essa tendência exige políticas públicas capazes de integrar planejamento energético, gestão hídrica, eficiência computacional e proteção ambiental.

Também é necessário discutir a transparência. A sociedade precisa conhecer o consumo efetivo de recursos dessas instalações, os incentivos públicos concedidos, os compromissos de geração de empregos e as responsabilidades financeiras das empresas.

Não basta anunciar bilhões de dólares em investimentos. É necessário demonstrar quanto desse valor se transforma em benefícios concretos para a população.

🇧🇷 O que o Brasil pode aprender com a revolta americana?

O episódio norte-americano oferece uma oportunidade para o Brasil antecipar discussões que tendem a ganhar importância nos próximos anos.

O país possui vantagens estratégicas para atrair investimentos em infraestrutura digital. Sua matriz elétrica apresenta participação relevante de fontes renováveis, dispõe de potencial de expansão energética e conta com condições geográficas favoráveis à instalação de determinadas estruturas tecnológicas.

Entretanto, essas vantagens não eliminam os riscos.

O crescimento de data centers exige planejamento integrado entre energia, água, telecomunicações, ocupação territorial e políticas industriais. A instalação de grandes empreendimentos em regiões com disponibilidade hídrica limitada ou infraestrutura elétrica insuficiente pode gerar conflitos entre interesses empresariais e necessidades coletivas.

Além disso, o Brasil precisa evitar que sua participação na economia da inteligência artificial se limite à oferta de território, energia e recursos naturais para empresas estrangeiras.

A soberania digital exige investimentos em pesquisa científica, formação profissional, desenvolvimento de semicondutores, infraestrutura nacional de computação e capacidade própria de desenvolver sistemas de inteligência artificial.

Sem uma estratégia industrial consistente, o país corre o risco de assumir os custos materiais da revolução tecnológica enquanto permanece dependente das plataformas, dos equipamentos e dos serviços controlados por corporações internacionais.

O debate também envolve a política tributária. Incentivos concedidos a grandes empreendimentos precisam ser transparentes e condicionados a contrapartidas verificáveis, como empregos qualificados, transferência de conhecimento, investimentos em energia limpa, eficiência hídrica e desenvolvimento regional.

Não seria razoável que recursos públicos fossem utilizados para subsidiar instalações privadas sem uma avaliação rigorosa dos benefícios sociais.

Outro ponto fundamental é a participação das comunidades. Moradores precisam ter acesso aos estudos de impacto ambiental, às informações sobre consumo de água e energia e aos compromissos assumidos pelas empresas antes da aprovação dos projetos.

A experiência norte-americana demonstra que a ausência de diálogo pode transformar investimentos anunciados como oportunidades de desenvolvimento em fontes de conflito político.

Para um país marcado por desigualdades sociais e regionais, a discussão precisa incorporar também a justiça ambiental: os custos da transformação digital não podem ser concentrados justamente nas comunidades com menor capacidade de influência econômica e política.

IEA+2

🔍 O futuro da inteligência artificial precisa de responsabilidade pública

Existe uma diferença fundamental entre ser contrário à tecnologia e exigir que ela seja desenvolvida de maneira responsável.

A inteligência artificial oferece possibilidades extraordinárias para a medicina, a educação, a pesquisa científica, a indústria, a agricultura e a administração pública. Pode contribuir para diagnósticos mais precisos, acelerar descobertas científicas, melhorar processos produtivos e ampliar o acesso à informação.

Entretanto, seus benefícios não justificam a ausência de limites.

A concentração de poder tecnológico nas mãos de poucas empresas cria riscos que vão além do consumo energético. Também envolve privacidade, vigilância, manipulação informacional, precarização do trabalho, concentração econômica e influência política.

Quando essas empresas passam a exercer influência sobre decisões públicas sem mecanismos adequados de fiscalização, a própria democracia fica vulnerável.

O episódio norte-americano demonstra que a população não está necessariamente rejeitando a inteligência artificial. Está questionando quem controla seu desenvolvimento, quem recebe seus benefícios e quem assume seus custos.

Essa distinção é essencial para compreender o momento histórico.

A tecnologia não é neutra em suas consequências sociais. Sua utilização depende de escolhas econômicas, políticas e institucionais. Portanto, o futuro da inteligência artificial não pode ser determinado exclusivamente pelas estratégias comerciais de empresas que possuem recursos financeiros superiores aos orçamentos de muitos países.

A regulação democrática não representa, por definição, um inimigo da inovação. Pode, ao contrário, estabelecer condições para que a inovação seja socialmente útil, ambientalmente sustentável e economicamente equilibrada.

Também é necessário evitar que o debate seja reduzido a uma disputa partidária. Embora a vitória democrata tenha contribuído para a mudança de cenário, a resistência aos data centers foi expressa diretamente por eleitores em diferentes localidades e contextos políticos.

O que emerge dessa experiência é uma reivindicação de participação popular nas decisões sobre o futuro tecnológico.

📊 Os números que explicam a dimensão da revolta

Indicador

Resultado

Plebiscitos em 3 de novembro

41

Consultas favoráveis a restrições

40

Medidas restritivas aprovadas

27 de 28

Medidas favoráveis à expansão derrotadas

13 de 13

Eleitores que veem mais riscos do que benefícios na IA

57%

Eleitores contrários a data centers em suas comunidades

76%

Queda do Nasdaq em 5 de novembro

5,5%

Participação estimada dos data centers na eletricidade dos EUA em 2030

11,8%

Fontes: Ballotpedia, NBC News (pesquisa citada pela Agência Brasil), Reuters e Lawrence Berkeley National Laboratory. Os indicadores eleitorais referem-se às consultas de 3 de novembro de 2026; os indicadores financeiros, a 5 de novembro. A projeção energética é uma estimativa para 2030.

🌱 Uma escolha entre progresso compartilhado e concentração de poder

A derrota dos interesses das Big Techs nas urnas norte-americanas representa um acontecimento importante na história recente da relação entre tecnologia e democracia.

Durante anos, as grandes corporações digitais conseguiram apresentar sua expansão como uma consequência inevitável do progresso. Governos disputavam investimentos, investidores apostavam em valorizações crescentes e comunidades recebiam promessas de desenvolvimento econômico.

Agora, uma parcela expressiva da população está exigindo explicações.

O resultado eleitoral mostra que a transformação digital precisa passar por um processo de responsabilização pública. Não é aceitável que empresas privadas decidam unilateralmente como utilizar recursos naturais, ocupar territórios e influenciar a organização econômica das comunidades.

O verdadeiro progresso não pode ser medido apenas pela capacidade de processamento de computadores, pelo tamanho dos investimentos ou pelo valor de mercado das corporações.

Deve ser avaliado também pela melhoria das condições de vida, pela distribuição dos benefícios, pela preservação ambiental, pela qualidade dos empregos e pelo fortalecimento das instituições democráticas.

A inteligência artificial pode ser uma das ferramentas mais importantes do desenvolvimento humano neste século. Mas, para cumprir esse potencial, precisa estar subordinada a princípios que coloquem a sociedade acima dos interesses particulares.

O recado das urnas norte-americanas é significativo: a população não quer permanecer como espectadora de uma revolução tecnológica cujas consequências afetam diretamente sua vida.

A tecnologia deve servir à humanidade, e não transformar a humanidade em instrumento de acumulação de riqueza para uma pequena elite empresarial.

📚 Referências bibliográficas

As referências abaixo foram organizadas conforme os princípios da ABNT NBR 6023:2018, com identificação dos autores institucionais ou pessoais, títulos, datas e endereços eletrônicos.

1. AGÊNCIA BRASIL. LEÓN, Lucas Pordeus. Eleitores dos EUA derrotam big techs e ações de IA despencam. Brasília, 6 nov. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-11/eleitores-dos-eua-derrotam-big-techs-e-acoes-de-ia-despencam. Acesso em: 6 nov. 2026.

2. BALLOTPEDIA. Voters favored limiting data center development in 40 of 41 local ballot measures on Nov. 3. 6 nov. 2026. Disponível em: https://news.ballotpedia.org/2026/11/06/voters-favored-limiting-data-center-development-in-40-of-41-local-ballot-measures-on-nov-3/. Acesso em: 6 nov. 2026.

3. CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE. Data Centers and Water: Frequently Asked Questions. Report R49057. Washington, D.C., 31 jul. 2026. Disponível em: https://www.everycrsreport.com/reports/R49057.html. Acesso em: 6 nov. 2026.

4. INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Key Questions on Energy and AI: Executive Summary. Paris: IEA, 2026. Disponível em: https://www.iea.org/reports/key-questions-on-energy-and-ai/executive-summary. Acesso em: 6 nov. 2026.

5. LAWRENCE BERKELEY NATIONAL LABORATORY. SMITH, Sarah Josephine et al. United States Data Center Energy Usage Report: 2025 Update. Berkeley: Lawrence Berkeley National Laboratory, 2026. Disponível em: https://seta.lbl.gov/publications/united-states-data-center-energy-2025. Acesso em: 6 nov. 2026.

6. REUTERS. LAWDER, David; HOLLAND, Steve; RANDWICH, Noel. Democrats' election win spooks AI investors, hammering stocks. Washington, D.C., 5 nov. 2026. Disponível em: https://www.fidelity.com/news/article/us-markets/202611051800RTRSNEWSCOMBINED_KCN3WG0VR-OUSPO_1. Acesso em: 6 nov. 2026.

7. REUTERS. Data centers took a beating in the midterms. AI firms felt the pain. 6 nov. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/donald-trump/data-centers-took-beating-midterms-ai-firms-felt-pain-2026-11-06/. Acesso em: 6 nov. 2026.

8. ASSOCIATED PRESS. How major US stock indexes fared Thursday 11/5/2026. 6 nov. 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/afe254c608c3d1fe2ea792812ba9765a. Acesso em: 6 nov. 2026.

📰 Créditos editoriais e direitos autorais

Horizontes do Desenvolvimento

Inovação, Política e Justiça Social

Reportagem: Fabiano C. Prometi

Edição: Fabiano C. Prometi

Publicação: 6 de novembro de 2026.

Veículo: Blog Grandes Inovações Tecnológicas.

Linha editorial: Progressista, democrática, crítica e comprometida com os direitos humanos, a justiça social, a sustentabilidade e a informação fundamentada.

Direitos autorais: © 2026 Grandes Inovações Tecnológicas. Todos os direitos reservados.

A reprodução integral ou parcial desta reportagem depende de autorização prévia e expressa do titular dos direitos autorais, com identificação da autoria e da publicação original.

Licença de uso: Todos os direitos reservados. Não está autorizada a reprodução comercial ou republicação sem consentimento.

Nota editorial: os dados eleitorais e financeiros foram confrontados com levantamentos da Ballotpedia, Reuters e Associated Press, além dos documentos técnicos do Lawrence Berkeley National Laboratory e da Agência Internacional de Energia. As projeções são estimativas, não resultados futuros garantidos.

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