Pular para o conteúdo principal

Destaques

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

Vender o Impossível: A Sedução da Direita e o Poder das Promessas Irrealizáveis

Vender o Impossível: A Sedução da Direita e o Poder das Promessas Irrealizáveis

Resumo

Este ensaio investiga por que o discurso de direita, sobretudo em suas vertentes populista e neoliberal, é capaz de mobilizar massas com promessas inviáveis, vendendo esperança e ilusão como se fossem programas políticos factíveis. A partir de uma revisão crítica de literatura acadêmica e de análises contemporâneas, o texto propõe que a eficácia desse discurso repousa na combinação entre apelos emocionais, narrativas simplificadoras e uma estrutura institucional que favorece elites econômicas. Ao mesmo tempo, discute os desafios da esquerda diante dessa retórica de fácil consumo e propõe caminhos para reconstruir a política como um espaço de honestidade e transformação real.

Introdução

Em tempos de crise e incerteza, a promessa de soluções simples sempre encontra terreno fértil. A história política moderna é atravessada por discursos que oferecem salvação imediata, moralidade redentora e uma esperança quase religiosa de que, bastando ‘voltar ao que era antes’, tudo se resolverá. Essa retórica encontra na direita política — especialmente em suas versões conservadora e populista — um campo privilegiado de atuação. A direita vende o impossível: a ideia de que o passado idealizado pode ser restaurado, que o mercado se autorregula em benefício de todos e que a obediência a valores tradicionais basta para alcançar prosperidade.
A esquerda, ao contrário, costuma lidar com o desconforto da realidade material — fala em desigualdade, redistribuição, conflito de classes e estrutura social. O discurso de direita, em contrapartida, simplifica o mundo em uma narrativa moral e emocionalmente confortável: o bem contra o mal, o trabalhador de bem contra o Estado corrupto, a família contra o caos. O presente trabalho busca compreender, com base em estudos acadêmicos e observação crítica, por que essa forma de comunicação é tão eficaz e quais são suas implicações políticas e sociais.

1. A sedução do impossível: o mito meritocrático e o discurso de esperança da direita

A promessa meritocrática é o coração simbólico do discurso de direita. Desde a ascensão do neoliberalismo, ela oferece a ilusão de que cada indivíduo é autor de seu destino, e que bastaria esforço e disciplina para alcançar o sucesso. No entanto, como demonstram estudos de Thomas Piketty (2019) e David Harvey (2005), a concentração de riqueza e o endurecimento estrutural das desigualdades inviabilizam essa promessa. O mérito, no capitalismo avançado, é mais uma narrativa legitimadora do que uma possibilidade real. Ainda assim, a esperança mobilizada por essa ficção mantém viva a adesão popular ao projeto neoliberal.

2. A retórica conservadora como tecnologia emocional

A força da direita está em transformar o medo em moral. A política conservadora opera por meio da manipulação emocional, criando inimigos simbólicos e convertendo angústias sociais em identidades políticas. O sociólogo Arlie Hochschild (2016) chama esse fenômeno de ‘paredes emocionais’: barreiras afetivas que impedem o diálogo e reforçam a sensação de pertença. A retórica da ordem, da família e da moralidade sexual funciona como um código de conforto em tempos de instabilidade econômica. O resultado é uma cultura política em que a emoção substitui o argumento, e a fidelidade simbólica supera o exame racional.

3. A economia política da ilusão: neoliberalismo e o “trickle-down”

Desde os anos 1980, líderes conservadores como Reagan e Thatcher propagaram a ideia de que reduzir impostos e desregular mercados estimularia o crescimento e, consequentemente, beneficiaria todos os cidadãos. Décadas de evidências econômicas, contudo, mostram que a riqueza não ‘escorre para baixo’. Estudos do London School of Economics (Hope & Limberg, 2020) e do FMI (2015) indicam que políticas de corte fiscal e flexibilização trabalhista aumentam a desigualdade e reduzem o crescimento inclusivo. O discurso neoliberal, porém, persiste porque oferece uma narrativa moral de recompensa: quem fracassa, fracassa por culpa própria. Essa moralidade é profundamente sedutora, pois transforma injustiça estrutural em falha individual.

4. O populismo de direita e o teatro da redenção nacional

O populismo de direita combina messianismo político e ressentimento social. Autores como Cas Mudde (2007) e Federico Finchelstein (2017) mostram que sua estrutura discursiva divide o mundo entre ‘povo puro’ e ‘elite corrupta’. Essa oposição moral simplifica a complexidade da política moderna e cria um terreno fértil para líderes autoritários. Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán são expressões de um mesmo fenômeno: a encenação da redenção nacional por meio da destruição simbólica de inimigos internos. O populismo promete devolver dignidade, mas entrega submissão — e é justamente essa promessa impossível que o torna emocionalmente eficaz.

5. A maquinaria da desinformação e o consumo emocional da política

O avanço das redes sociais aprofundou o poder da retórica conservadora. O ecossistema digital recompensa emoções fortes, não argumentos complexos. Pesquisas recentes (Bakshy et al., 2015; Vosoughi et al., 2018) mostram que notícias falsas se espalham mais rápido que as verdadeiras, especialmente quando apelam a medo ou indignação. A direita entendeu isso antes: sua comunicação é performática, simbólica e adaptada à lógica algorítmica. O resultado é uma política transformada em espetáculo, onde a verdade é apenas mais uma narrativa concorrente.

6. Discussão crítica: a esquerda diante da promessa impossível

A esquerda enfrenta um desafio duplo: combater a mentira sem perder a esperança. O discurso racional, baseado em dados e complexidade, muitas vezes falha em competir com a simplicidade emocional da direita. No entanto, como aponta Chantal Mouffe (2018), a alternativa não é abandonar o afeto, mas disputar o campo simbólico. A esquerda precisa aprender a comunicar esperança sem recorrer à ilusão — a mostrar que o impossível da direita é o adiamento do possível coletivo. Política não é gestão de milagres, mas construção de realidades compartilhadas.

Conclusão

O sucesso do discurso de direita em vender o impossível revela uma verdade incômoda: as pessoas preferem crenças que lhes confortam a verdades que exigem mudança. Enquanto a política for tratada como consumo emocional, as promessas fáceis continuarão a vencer. Romper esse ciclo implica reconstruir a confiança pública, democratizar a informação e recuperar a dimensão ética da política. A esquerda, se quiser reconquistar corações, precisa falar de futuro — mas de um futuro tangível, solidário e humano. Somente assim poderá competir com o mercado das ilusões.

Referências

 BAKSHY, E.; MESSING, S.; ADAMIC, L. Exposure to ideologically diverse news and opinion on Facebook. *Science*, v.348, n.6239, 2015.
 FINCHELSTEIN, F. *From Fascism to Populism in History*. University of California Press, 2017.
 HARVEY, D. *A Brief History of Neoliberalism*. Oxford University Press, 2005.
 HOCHSCHILD, A. *Strangers in Their Own Land: Anger and Mourning on the American Right*. The New Press, 2016.
 HOPE, D.; LIMBERG, J. The economic consequences of major tax cuts for the rich. *LSE / London School of Economics*, 2020.
 MOUFFE, C. *For a Left Populism*. Verso, 2018.
 MUDDE, C. *Populist Radical Right Parties in Europe*. Cambridge University Press, 2007.
 PIKETTY, T. *Capital et Idéologie*. Seuil, 2019.
 VOSOUGHI, S.; ROY, D.; ARAL, S. The spread of true and false news online. *Science*, v.359, n.6380, 2018.
 FMI. *Causes and Consequences of Income Inequality: A Global Perspective*. International Monetary Fund, 2015.

Comentários