A ascensão social dos idiotas: poder, mídia e crise da racionalidade no século XXI
A ascensão social dos idiotas: poder, mídia e crise da racionalidade no século XXI
Data de publicação: 12 de janeiro de 2026
A expressão "a ascensão social dos idiotas", consagrada no imaginário brasileiro por Nelson Rodrigues (1912–1980), atravessou décadas como uma provocação incômoda e, ao mesmo tempo, surpreendentemente atual. Utilizada pelo dramaturgo e jornalista em suas crônicas a partir dos anos 1960, a ideia não se referia a limitações cognitivas no sentido clínico ou jurídico do termo "idiota", mas à emergência social e política de indivíduos desprovidos de reflexão crítica, preparo intelectual ou compromisso ético, alçados a posições de visibilidade e poder. Para Rodrigues, o século XX assistia ao triunfo do homem medíocre travestido de autoridade, fenômeno que, no século XXI, ganha novas camadas de complexidade com o avanço das tecnologias digitais, a crise das instituições democráticas e a transformação radical do ecossistema midiático.
No contexto histórico em que Nelson Rodrigues formulou sua crítica, o Brasil vivia intensos conflitos ideológicos, marcados pela Guerra Fria, pelo medo do comunismo e pelo fortalecimento de discursos autoritários que culminariam no golpe militar de 1964. A ascensão do "idiota" rodrigueano estava ligada à recusa do pensamento complexo e à valorização da obediência, da moral simplificada e da retórica fácil. Décadas depois, esse diagnóstico encontra eco em análises contemporâneas sobre o enfraquecimento da racionalidade pública, a erosão do debate informado e a substituição do conhecimento especializado por opiniões rasas amplificadas em larga escala.
A partir dos anos 2000, com a consolidação da internet e, posteriormente, das redes sociais digitais, o fenômeno ganha uma dimensão tecnológica inédita. Plataformas como Facebook, X (antigo Twitter), Instagram, TikTok e YouTube operam por meio de algoritmos que privilegiam engajamento, emoção e polarização, e não necessariamente veracidade ou profundidade. Segundo relatório do Reuters Institute Digital News Report 2024, mais de 58% dos brasileiros afirmam se informar prioritariamente por redes sociais, enquanto apenas 29% recorrem a veículos jornalísticos tradicionais. Esse deslocamento tem implicações diretas na formação da opinião pública, uma vez que conteúdos simplificados, sensacionalistas ou desinformativos tendem a circular com maior velocidade e alcance.
Estudos empíricos corroboram essa tendência. Pesquisa publicada na revista Science por Vosoughi, Roy e Aral (2018) demonstrou que notícias falsas se espalham até seis vezes mais rápido do que informações verificadas, sobretudo quando apelam a emoções como raiva e indignação. Esse ambiente favorece a visibilidade de figuras que dominam a retórica do escândalo, da provocação vazia e da falsa autoridade, reforçando o que o economista italiano Carlo Cipolla já descrevia, em termos satíricos, como o poder destrutivo da estupidez humana.
No campo político, a chamada ascensão dos "idiotas" manifesta-se de forma particularmente sensível. A literatura contemporânea sobre populismo e democracia iliberal aponta para a valorização de lideranças que desprezam o conhecimento técnico, atacam instituições científicas e estimulam uma relação direta, emocional e simplificada com o eleitorado. Casos como a negação sistemática das mudanças climáticas, o descrédito em relação às vacinas e a difusão de teorias conspiratórias durante a pandemia de Covid-19 ilustram como a falta de pensamento crítico em posições de poder pode gerar consequências concretas e mensuráveis. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, a hesitação vacinal contribuiu para a morte evitável de centenas de milhares de pessoas entre 2020 e 2022, especialmente em países onde lideranças políticas questionaram abertamente a ciência.
Esse processo também se relaciona ao conceito de "idiota útil", amplamente discutido na ciência política. Trata-se de indivíduos que, mesmo sem plena consciência das estruturas de poder que reforçam, reproduzem narrativas oficiais, discursos autoritários ou interesses econômicos concentrados, acreditando agir de forma autônoma. A ascensão social desses atores não é acidental, mas funcional a sistemas que se beneficiam da simplificação do debate público e da redução da complexidade social a slogans e inimigos imaginários.
No âmbito cultural, a crítica à ascensão dos idiotas inspira uma série de obras contemporâneas que dialogam com o diagnóstico rodrigueano. O livro Rendição ou a Ascensão dos Idiotas, de Pedro Gomes Sanches, insere-se nesse debate ao analisar o que o autor descreve como um colapso moral do Ocidente, marcado pela perda de referências éticas, pelo relativismo acrítico e pela mercantilização da atenção. Embora controversa, a obra contribui para um campo mais amplo de reflexões sobre a crise da autoridade intelectual e o desprestígio do saber especializado em sociedades hiperconectadas.
Visualmente, esse fenômeno pode ser representado por gráficos que relacionam o crescimento do uso de redes sociais como principal fonte de informação e o aumento da desconfiança em relação à ciência e às instituições democráticas. Figura 1 – Evolução do consumo de notícias por redes sociais no Brasil (2015–2024), com dados do Reuters Institute, evidencia uma correlação preocupante entre visibilidade digital e empobrecimento do debate público. Embora correlação não implique causalidade direta, o conjunto de evidências aponta para um ambiente informacional cada vez mais propício à ascensão de discursos tolos, autoritários ou anticientíficos.
Os desdobramentos futuros desse cenário colocam desafios centrais para a democracia, a justiça social e a inovação. A persistência da ascensão social dos idiotas tende a aprofundar desigualdades, enfraquecer políticas públicas baseadas em evidências e comprometer a capacidade coletiva de enfrentar problemas complexos, como a crise climática, a transição energética e as transformações do mundo do trabalho. Por outro lado, iniciativas de regulação das plataformas digitais, educação midiática e fortalecimento do jornalismo científico e investigativo despontam como caminhos possíveis para reverter, ao menos parcialmente, essa tendência.
A crítica formulada por Nelson Rodrigues, longe de ser um mero exercício retórico, revela-se um alerta estrutural sobre os riscos de uma sociedade que abdica do pensamento crítico em favor da facilidade, do espetáculo e da falsa simplicidade. Em um mundo saturado de informações, a verdadeira inovação social talvez resida menos em novas tecnologias e mais na reconstrução de uma cultura pública que valorize o conhecimento, a ética e a responsabilidade coletiva.
Bibliografia
RODRIGUES, Nelson. O óbvio ululante. 1. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1968.
VOSOUGHI, Soroush; ROY, Deb; ARAL, Sinan. The spread of true and false news online. Science, Washington, v. 359, n. 6380, p. 1146–1151, 2018. Disponível em: https://www.science.org. Acesso em: 10 jan. 2026.
REUTERS INSTITUTE. Digital News Report 2024. Oxford: University of Oxford, 2024. Disponível em: https://www.digitalnewsreport.org. Acesso em: 10 jan. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Global Vaccine Confidence Report. Genebra: OMS, 2023. Disponível em: https://www.who.int. Acesso em: 11 jan. 2026.
SANCHES, Pedro Gomes. Rendição ou a Ascensão dos Idiotas. 1. ed. São Paulo: Editora XYZ, 2021.
Créditos
Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi
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