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A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou Raquel Lobão , Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi , Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Depa...

A ascensão social dos idiotas: poder, mídia e crise da racionalidade no século XXI

A ascensão social dos idiotas: poder, mídia e crise da racionalidade no século XXI

Data de publicação: 12 de janeiro de 2026

A expressão "a ascensão social dos idiotas", consagrada no imaginário brasileiro por Nelson Rodrigues (1912–1980), atravessou décadas como uma provocação incômoda e, ao mesmo tempo, surpreendentemente atual. Utilizada pelo dramaturgo e jornalista em suas crônicas a partir dos anos 1960, a ideia não se referia a limitações cognitivas no sentido clínico ou jurídico do termo "idiota", mas à emergência social e política de indivíduos desprovidos de reflexão crítica, preparo intelectual ou compromisso ético, alçados a posições de visibilidade e poder. Para Rodrigues, o século XX assistia ao triunfo do homem medíocre travestido de autoridade, fenômeno que, no século XXI, ganha novas camadas de complexidade com o avanço das tecnologias digitais, a crise das instituições democráticas e a transformação radical do ecossistema midiático.

No contexto histórico em que Nelson Rodrigues formulou sua crítica, o Brasil vivia intensos conflitos ideológicos, marcados pela Guerra Fria, pelo medo do comunismo e pelo fortalecimento de discursos autoritários que culminariam no golpe militar de 1964. A ascensão do "idiota" rodrigueano estava ligada à recusa do pensamento complexo e à valorização da obediência, da moral simplificada e da retórica fácil. Décadas depois, esse diagnóstico encontra eco em análises contemporâneas sobre o enfraquecimento da racionalidade pública, a erosão do debate informado e a substituição do conhecimento especializado por opiniões rasas amplificadas em larga escala.

A partir dos anos 2000, com a consolidação da internet e, posteriormente, das redes sociais digitais, o fenômeno ganha uma dimensão tecnológica inédita. Plataformas como Facebook, X (antigo Twitter), Instagram, TikTok e YouTube operam por meio de algoritmos que privilegiam engajamento, emoção e polarização, e não necessariamente veracidade ou profundidade. Segundo relatório do Reuters Institute Digital News Report 2024, mais de 58% dos brasileiros afirmam se informar prioritariamente por redes sociais, enquanto apenas 29% recorrem a veículos jornalísticos tradicionais. Esse deslocamento tem implicações diretas na formação da opinião pública, uma vez que conteúdos simplificados, sensacionalistas ou desinformativos tendem a circular com maior velocidade e alcance.

Estudos empíricos corroboram essa tendência. Pesquisa publicada na revista Science por Vosoughi, Roy e Aral (2018) demonstrou que notícias falsas se espalham até seis vezes mais rápido do que informações verificadas, sobretudo quando apelam a emoções como raiva e indignação. Esse ambiente favorece a visibilidade de figuras que dominam a retórica do escândalo, da provocação vazia e da falsa autoridade, reforçando o que o economista italiano Carlo Cipolla já descrevia, em termos satíricos, como o poder destrutivo da estupidez humana.

No campo político, a chamada ascensão dos "idiotas" manifesta-se de forma particularmente sensível. A literatura contemporânea sobre populismo e democracia iliberal aponta para a valorização de lideranças que desprezam o conhecimento técnico, atacam instituições científicas e estimulam uma relação direta, emocional e simplificada com o eleitorado. Casos como a negação sistemática das mudanças climáticas, o descrédito em relação às vacinas e a difusão de teorias conspiratórias durante a pandemia de Covid-19 ilustram como a falta de pensamento crítico em posições de poder pode gerar consequências concretas e mensuráveis. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, a hesitação vacinal contribuiu para a morte evitável de centenas de milhares de pessoas entre 2020 e 2022, especialmente em países onde lideranças políticas questionaram abertamente a ciência.

Esse processo também se relaciona ao conceito de "idiota útil", amplamente discutido na ciência política. Trata-se de indivíduos que, mesmo sem plena consciência das estruturas de poder que reforçam, reproduzem narrativas oficiais, discursos autoritários ou interesses econômicos concentrados, acreditando agir de forma autônoma. A ascensão social desses atores não é acidental, mas funcional a sistemas que se beneficiam da simplificação do debate público e da redução da complexidade social a slogans e inimigos imaginários.

No âmbito cultural, a crítica à ascensão dos idiotas inspira uma série de obras contemporâneas que dialogam com o diagnóstico rodrigueano. O livro Rendição ou a Ascensão dos Idiotas, de Pedro Gomes Sanches, insere-se nesse debate ao analisar o que o autor descreve como um colapso moral do Ocidente, marcado pela perda de referências éticas, pelo relativismo acrítico e pela mercantilização da atenção. Embora controversa, a obra contribui para um campo mais amplo de reflexões sobre a crise da autoridade intelectual e o desprestígio do saber especializado em sociedades hiperconectadas.

Visualmente, esse fenômeno pode ser representado por gráficos que relacionam o crescimento do uso de redes sociais como principal fonte de informação e o aumento da desconfiança em relação à ciência e às instituições democráticas. Figura 1 – Evolução do consumo de notícias por redes sociais no Brasil (2015–2024), com dados do Reuters Institute, evidencia uma correlação preocupante entre visibilidade digital e empobrecimento do debate público. Embora correlação não implique causalidade direta, o conjunto de evidências aponta para um ambiente informacional cada vez mais propício à ascensão de discursos tolos, autoritários ou anticientíficos.

Os desdobramentos futuros desse cenário colocam desafios centrais para a democracia, a justiça social e a inovação. A persistência da ascensão social dos idiotas tende a aprofundar desigualdades, enfraquecer políticas públicas baseadas em evidências e comprometer a capacidade coletiva de enfrentar problemas complexos, como a crise climática, a transição energética e as transformações do mundo do trabalho. Por outro lado, iniciativas de regulação das plataformas digitais, educação midiática e fortalecimento do jornalismo científico e investigativo despontam como caminhos possíveis para reverter, ao menos parcialmente, essa tendência.

A crítica formulada por Nelson Rodrigues, longe de ser um mero exercício retórico, revela-se um alerta estrutural sobre os riscos de uma sociedade que abdica do pensamento crítico em favor da facilidade, do espetáculo e da falsa simplicidade. Em um mundo saturado de informações, a verdadeira inovação social talvez resida menos em novas tecnologias e mais na reconstrução de uma cultura pública que valorize o conhecimento, a ética e a responsabilidade coletiva.


Bibliografia

RODRIGUES, Nelson. O óbvio ululante. 1. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1968.

VOSOUGHI, Soroush; ROY, Deb; ARAL, Sinan. The spread of true and false news online. Science, Washington, v. 359, n. 6380, p. 1146–1151, 2018. Disponível em: https://www.science.org. Acesso em: 10 jan. 2026.

REUTERS INSTITUTE. Digital News Report 2024. Oxford: University of Oxford, 2024. Disponível em: https://www.digitalnewsreport.org. Acesso em: 10 jan. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Global Vaccine Confidence Report. Genebra: OMS, 2023. Disponível em: https://www.who.int. Acesso em: 11 jan. 2026.

SANCHES, Pedro Gomes. Rendição ou a Ascensão dos Idiotas. 1. ed. São Paulo: Editora XYZ, 2021.


Créditos

Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

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