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Vapor de Vida: A Teoria de que a Vida Emergiu em Gêiseres Termais Redefine Nossa Origem

Vapor de Vida: A Teoria de que a Vida Emergiu em Gêiseres Termais Redefine Nossa Origem

Data de publicação: 06 de janeiro de 2026
Por Fabiano C. Prometi – Repórter Científico
Editado por Fabiano C. Prometi

Há quase meio século, a ciência debate uma das questões mais fundamentais para a compreensão da nossa existência: onde e como a vida na Terra começou? Uma das hipóteses mais robustas e pesquisadas — a de que a vida emergiu em ambientes geotérmicos semelhantes a gêiseres, como vulcões submersos, tem ganhado evidências experimentais e teóricas que a colocam no centro da investigação científica moderna. Esta reportagem analisa o avanço dessa teoria, suas bases científicas, implicações tecnológicas e sociais, e o que ela significa para nossa visão do universo e de possíveis formas de vida além da Terra.

Desde o encontro inesperado com comunidades biológicas em fontes termais no fundo do oceano em 1977, liderado pelo geofísico John Corliss e sua equipe usando o submersível Alvin — que revelou ecossistemas inteiros florescendo na ausência de luz solar — os cientistas passaram a considerar ambientes geotérmicos como candidatos plausíveis para o berço da vida. Wikipedia

A hipótese central sustenta que condições químicas e térmicas únicas em gêiseres e fontes hidrotermais submarinas criaram gradientes de energia — como diferenças de pH e potencial redox — capazes de promover reações químicas complexas que culminaram na formação de moléculas orgânicas essenciais, protocélulas e, eventualmente, nas primeiras formas de vida celular. PubMed

Pesquisas de ponta demonstram que esses ambientes geotérmicos oferecem ingredientes cruciais para a síntese de blocos básicos da vida: moléculas orgânicas como ácidos orgânicos e compostos de carbono simples que podem resultar da interação entre água rica em CO₂, hidrogênio e minerais catalisadores presentes nas paredes das chaminés hidrotermais. Agência Fapesp Estudos indicam que as estruturas minerais nas proximidades desses gêiseres podem funcionar como catalisadores naturais, desempenhando papel semelhante às enzimas, acelerando reações químicas pré-bióticas sem a necessidade de organismos vivos. ScienceDaily

A teoria ganhou força com a chamada hipótese dos “gêiseres alcalinos”, uma variante que descreve fontes hidrotermais que expelem fluidos menos ácidos e ricos em minerais alcalinos, criando gradientes de pH e potencial elétrico que poderiam ter alimentado as primeiras formas de química metabólica. Essas condições lembram as que alimentam processos bioquímicos em células modernas, como a força próton-motiva usada pelas mitocôndrias, sugerindo uma ligação entre geologia e biologia fundamental. NASA Jet Propulsion Laboratory (JPL)

O consenso científico, ainda em formação, afirma que não há apenas um modelo isolado para a origem da vida, mas que ambientes hidrotermais — sejam marinhos profundos ou até mesmo gêiseres terrestres em locais vulcânicos — oferecem um cenário promissor ao combinar energia, química e estabilidade física em uma escala que poderia ter permitido a formação de protocélulas auto-organizadas. MDPI

Uso atual e implicações tecnológicas

Embora a hipótese ainda não seja universalmente aceita — pois a origem da vida permanece um campo com múltiplas teorias concorrentes e lacunas empíricas —, ela tem fomentado avanços em áreas tecnológicas e científicas interdisciplinares. Projetos de astrobiologia, por exemplo, utilizam modelos baseados em gêiseres terrestres para orientar a busca por vida em outros corpos do sistema solar, como as luas geladas Europa e Encelado, que abrigam oceanos subterrâneos aquecidos por energia geotérmica. A pesquisa sobre ambientes hidrotermais também inspira tecnologia de energia sustentável: estruturas semelhantes a chaminés podem funcionar como fontes de gradientes químicos úteis na produção de energia em processos biomiméticos. NASA Jet Propulsion Laboratory (JPL)

No nível educacional e cultural, esse campo científico tem estimulado colaboração internacional e interdisciplinaridade, reunindo geólogos, biólogos, químicos e engenheiros para reconstruir um capítulo primordial da história da vida. Descobertas de componentes químicos considerados pré-bióticos em ambientes extremos também reforçam a noção de que a vida pode surgir em ambientes que antes se julgavam inóspitos, abrindo espaço para debates sobre vida extraterrestre e os limites da habitabilidade planetária. Woods Hole Oceanographic Institution

Desdobramentos futuros

O futuro da pesquisa promete ainda mais refinamentos e desafios. Experimentos laboratoriais cada vez mais sofisticados buscam replicar as condições geotérmicas primordiais para observar se moléculas complexas, capazes de auto-replicação ou metabolismo básico, podem surgir espontaneamente. O uso de simulações por computador, juntamente com dados geológicos e químicos de fontes termais modernas, oferece uma plataforma robusta para testar hipóteses e reduzir o escopo de incertezas. A integração de descobertas de missões planetárias com modelos teóricos certamente ampliará a compreensão não apenas da Terra, mas de ambientes potencialmente habitáveis em outros planetas e luas. University College London

Conclusão crítica

A ideia de que a vida emergiu em ambientes geotérmicos, como gêiseres e fontes hidrotermais, representa mais do que uma teoria sobre nossas origens: ela é um convite a repensar as fronteiras entre geologia e biologia. Ao investigar processos naturais que podem ter sido fundamentais para a formação da vida, a ciência contemporânea também nos impulsiona a refletir sobre a natureza da existência, sobre a possibilidade de vida além da Terra e sobre como a vida — como fenômeno físico e químico — se encaixa nas leis naturais. Mesmo diante de debates e evidências ainda incompletas, essa perspectiva continua sendo uma das mais férteis e instigantes da astrobiologia moderna.

Bibliografia (normas ABNT)

L. UCL. Deep sea vents had ideal conditions for origin of life. Nature Ecology & Evolution, 2019. Disponível em: https://www.ucl.ac.uk/news/2019/nov/deep-sea-vents-had-ideal-conditions-origin-life. Acesso em: 5 jan. 2026. University College London

J. FAPESP. Underwater thermal vents may have given rise to the first molecular precursors of life. Agência FAPESP, 2025. Disponível em: https://agencia.fapesp.br/underwater-thermal-vents-may-have-given-rise-to-the-first-molecular-precursors-of-life/56220. Acesso em: 5 jan. 2026. Agência Fapesp

N. Origin of life: Chemistry of seabed’s hot vents could explain emergence of life. ScienceDaily, 2015. Disponível em: https://www.sciencedaily.com/releases/2015/04/150427101635.htm. Acesso em: 5 jan. 2026. ScienceDaily

M. Russell. The Origin of Life in Alkaline Hydrothermal Vents. PubMed, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26841066/. Acesso em: 5 jan. 2026. PubMed

Créditos
Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi
Este conteúdo pertence ao blog Grandes Inovações Tecnológicas. Reprodução proibida sem autorização prévia. Licença de uso: Todos os direitos reservados.

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