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Data centers, IA e meio ambiente: a nova fronteira energética do Brasi

Data centers, IA e meio ambiente: a nova fronteira energética do Brasil

Publicação: 24 de fevereiro de 2026

O avanço acelerado da inteligência artificial e da economia digital está transformando os data centers em uma infraestrutura estratégica global. No Brasil, o debate ganhou força após análises e alertas divulgados pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor sobre os impactos ambientais e sociais da expansão desses complexos tecnológicos. Embora essenciais para serviços online, nuvem e sistemas de IA, os data centers também exigem grandes volumes de energia elétrica e água para resfriamento, o que levanta questões importantes sobre sustentabilidade, planejamento energético e justiça ambiental.

Historicamente, os data centers surgiram como grandes instalações para armazenamento e processamento de dados corporativos nas décadas de 1960 e 1970, quando empresas e governos começaram a centralizar seus sistemas computacionais. A popularização da internet nos anos 1990 e, mais recentemente, a computação em nuvem e a inteligência artificial, ampliaram exponencialmente a demanda por infraestrutura digital. Hoje, gigantes da tecnologia como Google, Amazon Web Services e Microsoft operam redes globais de data centers capazes de processar trilhões de requisições diariamente.

No contexto brasileiro, a expansão dessas estruturas está ligada a três fatores principais: o crescimento do mercado digital, a necessidade de reduzir latência em serviços online e a disponibilidade relativa de energia elétrica em comparação a alguns países desenvolvidos. Contudo, especialistas apontam que o planejamento dessa expansão ainda carece de transparência e avaliação ambiental aprofundada. Estudos internacionais indicam que data centers já consomem cerca de 1% a 2% de toda a eletricidade mundial, com projeções de aumento significativo à medida que a IA generativa se torna mais difundida. Em sistemas avançados de aprendizado de máquina, o treinamento de modelos pode exigir milhares de processadores operando continuamente por semanas.

No Brasil, esse cenário se cruza com desafios estruturais da matriz energética e do uso de recursos naturais. Apesar de o país possuir uma das matrizes relativamente mais renováveis do mundo — com forte participação de hidrelétricas, além de crescimento da energia eólica e solar — a instalação de grandes data centers pode pressionar redes regionais de energia e recursos hídricos. Em algumas regiões, centros de dados utilizam sistemas de resfriamento que demandam grandes volumes de água, especialmente em períodos de altas temperaturas. Em um país que enfrenta ciclos recorrentes de seca e crise hídrica, esse fator torna-se central para o debate público.

Outro aspecto crítico é a desigualdade territorial na distribuição dos benefícios e impactos. A instalação de data centers costuma ser acompanhada de incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura, mas nem sempre gera empregos em larga escala ou desenvolvimento local proporcional. Pesquisas acadêmicas mostram que, embora esses centros exijam alto investimento inicial, sua operação cotidiana envolve equipes relativamente pequenas, altamente especializadas. Isso levanta questões sobre políticas públicas que garantam retorno social mais amplo, especialmente em áreas onde há pressão sobre recursos naturais.

A seguir, um quadro comparativo sintetiza alguns indicadores globais frequentemente citados em estudos recentes sobre data centers e sustentabilidade:

IndicadorEstimativa global recenteObservação
Participação no consumo global de eletricidade1% a 2%Pode crescer com expansão da IA
Crescimento anual do tráfego de dados~20% a 30%Impulsionado por streaming, nuvem e IA
Energia para treinamento de grandes modelos de IAmilhares de MWh por projetoVariável conforme escala e arquitetura
Tendência tecnológicaresfriamento líquido e energia renovávelBusca reduzir impacto ambiental

Fonte: síntese baseada em relatórios internacionais de energia e estudos acadêmicos sobre infraestrutura digital (IEA, universidades e centros de pesquisa).

O debate global mostra que a expansão de data centers não é apenas um tema tecnológico, mas também geopolítico e ambiental. Países europeus, por exemplo, têm discutido limites regulatórios para novos centros em regiões com escassez de energia. Nos Estados Unidos, cidades como Phoenix e áreas do Texas enfrentam debates públicos sobre consumo de água e eletricidade associados a essas instalações. Já em regiões nórdicas, governos incentivam a construção de data centers alimentados por energia renovável e clima frio, o que reduz a necessidade de resfriamento artificial.

No caso brasileiro, especialistas apontam que o país pode se tornar um polo estratégico de infraestrutura digital na América Latina, mas isso exigirá planejamento integrado entre política industrial, regulação ambiental e segurança energética. A expansão da IA e da computação em nuvem sugere que a demanda por processamento de dados continuará crescendo nas próximas décadas. Modelos de linguagem, sistemas de análise de grandes bases de dados e aplicações em saúde, indústria e serviços públicos dependem cada vez mais dessa infraestrutura.

Há também um debate emergente sobre soberania digital. Hospedar dados dentro do território nacional pode reduzir dependências externas e melhorar a governança de informações estratégicas. Ao mesmo tempo, a concentração de grandes empresas globais nesse setor levanta questões sobre regulação, tributação e controle sobre fluxos de dados.

No horizonte tecnológico, novas soluções estão sendo desenvolvidas para reduzir o impacto ambiental dos data centers. Entre elas estão o uso de inteligência artificial para otimizar consumo energético, sistemas avançados de resfriamento líquido, reaproveitamento de calor gerado pelos servidores e integração direta com fontes renováveis dedicadas. Em alguns países, projetos experimentais já conectam data centers a redes urbanas de aquecimento ou a parques de energia solar e eólica.

No entanto, a questão central permanece política: quem se beneficia dessa infraestrutura e quem arca com seus custos ambientais. A discussão proposta por organizações da sociedade civil destaca que a expansão digital precisa ser acompanhada por transparência, avaliação de impacto e participação pública. Sem isso, a promessa de desenvolvimento tecnológico pode reproduzir desigualdades históricas e pressões ambientais.

Em síntese, o avanço dos data centers representa uma transformação estrutural na economia contemporânea. Eles são a base invisível da inteligência artificial, do comércio eletrônico e dos serviços digitais que moldam o cotidiano moderno. Para o Brasil, o desafio é claro: aproveitar essa oportunidade estratégica sem comprometer recursos naturais, equilíbrio energético e justiça social.



Bibliografia (Normas ABNT)

INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. Data centers no Brasil: impactos ambientais e desafios com o avanço da IA. São Paulo: IDEC, 2025. Disponível em: https://idec.org.br/dicas-e-direitos/data-centers-no-brasil-meio-ambiente-ia. Acesso em: 24 fev. 2026.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Data centres and data transmission networks. Paris: IEA, 2024. Disponível em: https://www.iea.org. Acesso em: 24 fev. 2026.

JONES, Nicola. How to stop data centres from gobbling up the world’s electricity. Nature, London, 2023. Disponível em: https://www.nature.com. Acesso em: 24 fev. 2026.

MILLER, Rich. The global data center industry outlook. New York: Data Center Frontier, 2024. Disponível em: https://www.datacenterfrontier.com. Acesso em: 24 fev. 2026.

UNITED NATIONS. Digital economy report. New York: United Nations Publications, 2024. Disponível em: https://unctad.org. Acesso em: 24 fev. 2026.


Créditos

Reportagem: Fabiano C. Prometi
Edição: Fabiano C. Prometi

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