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Smartphones de luxo na era da IA: escassez de chips ameaça inclusão digital global

Smartphones de luxo na era da IA: escassez de chips ameaça inclusão digital global Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social 21 de fevereiro de 2026 Por Fabiano C. Prometi* – Reportagem e edição O smartphone, outrora símbolo de democratização da informação e do acesso digital, corre o risco de se transformar em artigo de luxo em 2026, à medida que a escassez de chips de memória – impulsionada pela voracidade da inteligência artificial (IA) – eleva preços e comprime a oferta para o consumidor comum. Analistas do Instituto para Estatísticas de Comércio de Semicondutores (WSTS) registram aumentos de 50% nos preços desses componentes no último ano, um choque que não apenas atrasa linhas de produção, mas ameaça reconfigurar o ecossistema de dispositivos móveis em escala global. Wolfgang Weber, da Associação Alemã da Indústria Eletroeletrônica e Digital (ZVEI), alerta que “a escassez de tecnologias-chave como essas é um problema massivo para a nossa economia”, evoca...

O fim anunciado dos PCs baratos: escassez de memória, concentração industrial e desigualdade digital no horizonte da IA

O fim anunciado dos PCs baratos: escassez de memória, concentração industrial e desigualdade digital no horizonte da IA

Por Fabiano C. Prometi
Horizontes do Desenvolvimento – Inovação, Política e Justiça Social
Blog: Grandes Inovações Tecnológicas
21 de fevereiro de 2026

Em um cenário que evoca os piores capítulos das crises cíclicas da indústria de semicondutores, o CEO da Phison Electronics, Khein-Seng Pua, lançou um alerta que transcende o jargão corporativo: “a eletrônica de consumo acabou” e “veremos muitas vítimas no segundo semestre de 2026” (PUA, 2026a, apud Canaltech, 2026). Não se trata de mera retórica de executivo sob pressão, mas de uma leitura interna da cadeia produtiva global de memória NAND e DRAM, onde a demanda explosiva por infraestrutura de inteligência artificial (IA) está reconfigurando prioridades, encarecendo componentes essenciais e ameaçando a viabilidade de pequenas e médias fabricantes de hardware. Este artigo examina as raízes históricas dessa crise, seus mecanismos econômicos atuais e suas projeções sociais, com ênfase no impacto sobre a inclusão digital em economias periféricas como a brasileira.

A trajetória da memória Flash – pilar da computação moderna – sempre foi marcada por uma lei inexorável de escala: mais densidade tecnológica, maior capacidade e queda contínua de preço. Desde os primeiros cartões SD e pendrives nos anos 2000, passando pela adoção massiva de SSDs em PCs a partir de 2010, o setor evoluiu sob o paradigma do 3D NAND, técnica que empilha camadas verticais de células de memória para superar limites físicos da litografia planar (Persistence Market Research, 2026). Em 2025, o 3D NAND já representava 86,8% do mercado global de NAND Flash, avaliado em cerca de 60 bilhões de dólares, com fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron projetando pilhas de 500 camadas ou mais até 2030 (Mordor Intelligence, 2026). Essa evolução sustentou a ilusão de um “armazenamento infinito e barato”, democratizando o acesso a computadores potentes em escala global e viabilizando desde o boom dos notebooks acessíveis até o armazenamento local em smartphones (TrendForce, 2024a).

O rompimento desse equilíbrio ocorreu de forma abrupta entre 2023 e 2025, impulsionado por três vetores interligados: a explosão da demanda por IA generativa, a concentração da capacidade produtiva em poucos atores e a rigidez crescente dos contratos de suprimento. A IA, particularmente modelos como os da OpenAI e Google, demanda quantidades colossais de memória para treinamento e inferência: um único data center de IA pode consumir SSDs na casa dos petabytes, com conteúdos médios de DRAM por servidor projetados para crescer 17,3% ao ano em 2024 (TrendForce, 2024b). Como resultado, os preços de contratos de SSD corporativos subiram mais de 25% em trimestres recentes, enquanto receitas dos fornecedores saltaram acima de 50% (TrendForce, 2024a). Pua relata que, em reuniões na China, grandes players de smartphones e automotivo “imploravam” por NAND, enquanto menores não conseguiam volume algum (PUA, 2026a, apud Tom's Hardware, 2026).

Essa dinâmica não é mero acidente conjuntural. A capacidade global de produção de wafers de NAND e DRAM, embora em expansão, prioriza clientes de alto volume: data centers de hyperscalers como AWS, Azure e Google Cloud travam a maior parte da oferta via contratos plurianuais, frequentemente com cláusulas de pagamento antecipado (Heise Online, 2025a). Pua menciona explicitamente que um fabricante de memória passou a exigir três anos de compromisso financeiro para garantir suprimento – uma barreira intransponível para integradoras regionais ou marcas de PCs de entrada (PUA, 2026a, apud Canaltech, 2026). Em paralelo, módulos eMMC de baixa capacidade, usados em TVs, roteadores e dispositivos IoT, registraram aumentos de até 13 vezes em preço, de 1,50 para 20 dólares por unidade (Tom's Hardware, 2026). Para o varejo, o impacto é imediato: SSDs de 1 TB como o Kingston NV3 triplicaram de preço no Brasil sem ganhos proporcionais de performance (Canaltech, 2026).

Os desdobramentos econômicos são de concentração acelerada. O mercado de NAND, projetado para 76-85 bilhões de dólares até 2033, cresce puxado por data centers (45% da demanda) e automotivo, enquanto o segmento de consumo encolhe para menos de 20% (Persistence Market Research, 2026; Mordor Intelligence, 2026). Pequenas fabricantes enfrentam uma “tempestade perfeita”: custos voláteis, estoques imprevisíveis e concorrência desigual com gigantes que internalizam produção ou negociam em escala (Heise Online, 2025b). Pua prevê “mortes de fabricantes” e uma crise que pode durar até 2030, com um “superciclo” de memória impulsionado por IA (PUA, 2026b, apud Yahoo Finance, 2025). Analistas divergem sobre a duração – alguns veem alívio em 2026 com novas fábricas –, mas concordam no risco de oligopolização (Forbes, 2025).

No plano social, especialmente no Brasil, essa crise ameaça reverter ganhos de inclusão digital. Com 70% das residências possuindo pelo menos um PC ou notebook (CGI.br, 2024), o encarecimento de SSDs e DRAM impacta diretamente programas como o ProInfo e o MEC Digital, que dependem de máquinas acessíveis para escolas públicas. Famílias de baixa renda, já limitadas a smartphones compartilhados, perdem capacidade para tarefas que demandam armazenamento local, como edição de vídeo, programação ou teletrabalho (IBGE, 2025). Globalmente, reforça a “inclusão precária”: acesso à IA via nuvem, mas sem hardware local para customização ou privacidade (UNESCO, 2025). Em economias dependentes de importação, como a brasileira, isso agrava vulnerabilidades cambiais e logísticas.

Frente a esse quadro, respostas políticas são urgentes. Modelos como o National Semiconductor Technology Center dos EUA ou o European Chips Act demonstram que investimentos públicos em produção local de componentes podem mitigar dependências (TechInsights, 2026). No Brasil, uma agenda de soberania digital poderia incluir subsídios a montadoras locais, parcerias com universidades para R&D em memória alternativa (como MRAM ou Optane) e regulação de “prioridade social” em suprimentos críticos. Sem isso, o risco é um futuro onde a IA beneficia elites globais, enquanto o PC básico – ferramenta de empoderamento – vira relíquia.

O alerta da Phison não é profecia de fim, mas convite a ação. A crise de memória expõe que a infraestrutura da IA não é neutra: ela redistribui poder, riqueza e acesso. Cabe à sociedade decidir se aceita essa concentração ou constrói caminhos para uma tecnologia verdadeiramente inclusiva.

Referências

CANALTECH. CEO da Phison prevê fim dos PCs baratos e falência em massa na tecnologia. São Paulo: Canaltech, 18 fev. 2026. Disponível em: https://canaltech.com.br/hardware/ceo-da-phison-preve-fim-dos-pcs-baratos-e-falencia-em-massa-na-tecnologia/. Acesso em: 21 fev. 2026.

CGI.BR. Pesquisa sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação nos domicílios brasileiros. São Paulo: CETIC.br, 2024. Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/tic-domicilios/2024/. Acesso em: 21 fev. 2026.

FORBES. Storage and memory price surges supporting AI demand likely temporary. Nova Iorque: Forbes Media, 10 out. 2025. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/tomcoughlin/2025/10/10/storage-and-memory-price-surges-supporting-ai-demand-likely-temporary/. Acesso em: 21 fev. 2026.

HEISE ONLINE. Storage crisis: Flash is scarcer than ever. Hannover: Heise Medien, 11 nov. 2025. Disponível em: https://www.heise.de/en/news/Storage-crisis-Flash-is-scarcer-than-ever-11073694.html. Acesso em: 21 fev. 2026.

HEISE ONLINE. Phison CEO warns of manufacturer deaths and a long crisis. Hannover: Heise Medien, 2026. Disponível em: https://www.heise.de/en/news/Phison-CEO-warns-of-manufacturer-deaths-and-a-long-crisis-11180146.html. Acesso em: 21 fev. 2026.

IBGE. PNAD Contínua: Tecnologia da Informação e Comunicação. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9171-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-mensal.html. Acesso em: 21 fev. 2026.

MORDOR INTELLIGENCE. NAND Flash Memory Market Size & Share Analysis. Hyderabad: Mordor Intelligence, 5 jan. 2026. Disponível em: https://www.mordorintelligence.com/industry-reports/nand-flash-memory-market. Acesso em: 21 fev. 2026.

PERSISTENCE MARKET RESEARCH. Global NAND Flash Market Analysis & Forecast 2033. Nova Iorque: Persistence Market Research, 13 jan. 2026. Disponível em: https://www.persistencemarketresearch.com/market-research/nand-flash-market.asp. Acesso em: 21 fev. 2026.

PUA, Khein-Seng. Entrevista concedida ao Canaltech. In: CANALTECH, 2026.

PUA, Khein-Seng. Entrevista concedida ao Tom's Hardware. In: TOM'S HARDWARE. Phison CEO thinks NAND shortages could shut down entire consumer electronics companies in 2026. Nova Iorque: Future US, 17 fev. 2026. Disponível em: https://www.tomshardware.com/pc-components/storage/phison-ceo-thinks-nand-shortages-could-shut-down-entire-consumer-electronics. Acesso em: 21 fev. 2026.

TECHINSIGHTS. Memory Market Outlook: AI Demand and Tight Supply Drive Resurgence. Ottawa: TechInsights, 19 fev. 2026. Disponível em: https://www.techinsights.com/blog/memory-market-outlook-ai-demand-and-tight-supply-drive-resurgence. Acesso em: 21 fev. 2026.

TRENDFORCE. AI Demand Drives Enterprise SSD Contract Prices Up by Over 25% in 2Q24. Taipé: TrendForce, 12 set. 2024. Disponível em: https://www.trendforce.com/presscenter/news/20240913-12303.html. Acesso em: 21 fev. 2026.

TRENDFORCE. AI’s Rocketing Demand to Drive Server DRAM and Enterprise SSD Growth in 2024. Taipé: TrendForce, 4 fev. 2024. Disponível em: https://www.trendforce.com/presscenter/news/20240205-12021.html. Acesso em: 21 fev. 2026.

UNESCO. Digital Inclusion in the Age of AI. Paris: UNESCO, 2025. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000381234. Acesso em: 21 fev. 2026.

YAHOO FINANCE. Phison CEO claims NAND shortage could last a staggering 10 years. Nova Iorque: Yahoo, 2 out. 2025. Disponível em: https://finance.yahoo.com/news/phison-ceo-claims-nand-shortage-164407452.html. Acesso em: 21 fev. 2026.

Créditos
Reportagem e edição: Fabiano C. Prometi. Conteúdo exclusivo do blog Grandes Inovações Tecnológicas. Reprodução apenas com autorização prévia. Licença restrita para fins informativos.

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