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Por que precisamos tratar a Terra como uma nave espacial

Por que precisamos tratar a Terra como uma nave espacial Estamos fazendo com o nosso sistema de suporte de vida planetário o que nenhum astronauta faz com o dele: em uma nave, a sabotagem é impensável e socialmente intolerável, e seus colegas de tripulação e controle de missão interviriam imediatamente. ixpert/Shutterstock Chris Rapley , UCL Quatro humanos deram recentemente uma volta na Lua na missão Artemis. Sua nave, uma cápsula espacial, era uma fina estrutura metálica cujo sistema de suporte os mantinha vivos: ela fornecia uma atmosfera cuidadosamente equilibrada, um circuito fechado de água, um suprimento limitado de alimentos e um meio para eliminar resíduos humanos. O suporte de vida não era opcional. Era uma necessidade. Pense nisso: nem uma única vez na história dos voos espaciais tripulados se sabe de algum astronauta que tenha interferido em seu sistema de suporte de vida. Ninguém jamais decidiu liberar u...

Apesar da cordialidade com Lula, nova estratégia de segurança de Trump pressiona a América Latina

Apesar da cordialidade com Lula, nova estratégia de segurança de Trump pressiona a América Latina

Lívia Peres Milani, Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Dois dias antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca, em Washington (EUA), em 7 de maio, o governo dos Estados Unidos anunciou uma nova Estratégia Nacional de Contraterrorismo. O documento prioriza o combate ao crime organizado na América Latina.

O tema vem causando preocupação no governo brasileiro diante da possibilidade de facções criminosas do país serem enquadradas pelos Estados Unidos como Organizações Terroristas Estrangeiras (Foreign Terrorist Organization, sigla FTO). Ainda assim, contrariando expectativas, o assunto não entrou formalmente na pauta da reunião entre os dois presidentes, de acordo com relatos do staff brasileiro.

Publicamente, Lula afirmou que não discutiu “facções criminosas e terrorismo” com Trump. O silêncio diplomático sobre tema tão sensível talvez revele justamente o tamanho da tensão que o assunto produz entre Brasília e Washington. O Itamaraty já se declarou contrário à ideia de enquadrar facções brasileiras como organizações terroristas, avaliando que uma eventual designação abriria brechas para interferências externas e pressões políticas sobre a soberania nacional.

Nos bastidores, acredita-se que a movimentação de Trump atenderia a pressões políticas da extrema-direita brasileira em favor de uma aproximação com modelos norte-americanos de combate ao crime, já aplicados em outros países da América Latina. Para outros, há interesse explícito em aumentar a presença militar na região.

A posição brasileira é de que o problema deve ser tratado como questão de crime organizado transnacional, com reforço de compartilhamento de inteligência, cooperação policial e combate ao financiamento das facções — e não sob a lógica global da “guerra ao terror” adotada historicamente por Washington.

Lula, por sua vez, tenta evitar que o debate seja deslocado para um enquadramento jurídico de terrorismo, considerado excessivo e contraproducente. Não por acaso, o Planalto anunciou recentemente um novo plano nacional de combate ao crime organizado centrado no ataque às estruturas financeiras das facções.

O plano de Trump e a militarização

A nova Estratégia Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos amplia a prioridade da política de segurança norte-americana na identificação e repressão a ameaças na América Latina. O documento trata cartéis do narcotráfico e organizações criminosas transnacionais como riscos estratégicos comparáveis aos de grupos terroristas tradicionais.

Embora mantenha o combate a grupos jihadistas como Estado Islâmico e Al-Qaeda, a estratégia marca uma mudança de prioridade ao colocar a América Latina no centro da agenda de contraterrorismo dos Estados Unidos. O documento divulgado pela Casa Branca apresenta três categorias de ameaças: grupos jihadistas, cartéis do narcotráfico e grupos estadunidenses de “extrema-esquerda”. Nos dois primeiros casos, fala-se de terrorismo externo; no terceiro, de terrorismo interno.

Os cartéis latino-americanos passam a ocupar posição central na estratégia, superando o foco predominante no Oriente Médio desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O plano prevê reforço da vigilância de fronteiras e rotas marítimas, cooperação de inteligência, rastreamento financeiro e integração entre ações diplomáticas, militares e de segurança para combater tráfico de drogas, armas e pessoas.

Ao aproximar crime organizado e terrorismo, a estratégia favorece a militarização das relações entre os Estados Unidos e a América Latina. O enquadramento dos cartéis sob a lógica do contraterrorismo amplia o escopo político e jurídico para medidas mais agressivas, baseadas no uso da força, em legislações de excepcionalidade e em maior integração entre instrumentos militares, diplomáticos e de inteligência.

Essa mudança pode ampliar pressões por ações coordenadas de segurança, fortalecer mecanismos de vigilância e sanções financeiras e aumentar a influência da agenda securitária norte-americana sobre políticas internas dos países latino-americanos. O anúncio provocou preocupação diplomática em países como México e Brasil justamente por abrir espaço para maior intervenção política e operacional dos EUA na região. A estratégia também reforça a associação, defendida por Donald Trump, entre imigração irregular, narcotráfico e terrorismo.

Desde a volta de Trump à presidência, o governo dos EUA tenta enquadrar o crime organizado sob a lógica do terrorismo, embora existam diferenças importantes entre ambos. O crime organizado possui objetivos econômicos, enquanto o terrorismo busca produzir medo e submeter sociedades por meio da violência política. Ainda assim, enquadrar discursiva e normativamente o crime como terror amplia a margem para respostas estatais mais duras e para o aprofundamento da militarização da política de segurança dos Estados Unidos para a América Latina.

Afinal, o que querem os EUA?

Nos anos 2000, o discurso da “guerra global contra o terror” foi o principal argumento utilizado pelos Estados Unidos para acelerar e militarizar o combate a ameaças consideradas estratégicas. Essa doutrina ampliou a influência dos militares sobre a formulação e a execução da política externa norte-americana e justificou ações baseadas no uso da força e da violência, especialmente no Oriente Médio.

Foi essa narrativa que sustentou as intervenções militares no Iraque e no Afeganistão. Ao mesmo tempo, a lógica do contraterrorismo consolidou processos de securitização, nos quais determinados temas passam a ser apresentados como ameaças existenciais capazes de justificar medidas excepcionais. Nesse contexto, o enquadramento de grupos como “terroristas” deixa de ser apenas uma classificação jurídica e se transforma em instrumento político e estratégico.

A atual Estratégia Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos se insere nessa tradição ao aproximar crime organizado e terrorismo e deslocar a América Latina para o centro da agenda de segurança norte-americana. Ao tratar cartéis e organizações criminosas transnacionais como ameaças comparáveis às de grupos jihadistas, o documento favorece a militarização das relações hemisféricas.

Militarização, neste caso, não significa apenas aumento do uso de forças armadas ou de operações de segurança, mas também a expansão da lógica militar para a condução da política externa e para o tratamento de problemas tradicionalmente associados à segurança pública.

Esse enquadramento amplia a possibilidade política e jurídica para sanções, operações financeiras restritivas, ações coordenadas de segurança e maior integração entre instrumentos militares, diplomáticos e de inteligência. A designação de grupos como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês) permite aos Estados Unidos impor sanções severas, incluindo restrições a transações financeiras envolvendo instituições norte-americanas, além de pressionar governos estrangeiros a adotar respostas mais duras.

Em novembro de 2025, por exemplo, a designação como FTO de um presumido Cartel de los Soles, supostamente liderado por Nicolás Maduro, foi incorporada ao discurso estadunidense sobre uma possível ação militar na Venezuela. O episódio ilustra como a classificação de grupos como terroristas pode servir de base para ampliar pressões políticas e justificar escaladas de força.

Os riscos dessa lógica não são apenas teóricos. Durante a “guerra ao terror”, vieram à tona graves violações de direitos humanos cometidas pelas Forças Armadas dos EUA, incluindo tortura em Abu Ghraib e abusos contra prisioneiros mantidos na base de Guantánamo, em Cuba. A narrativa antiterror daquele período ajudou a legitimar, frente aos cidadãos americanos, práticas excepcionais em nome da segurança.

Na América Latina, a intensificação do combate armado na Colômbia também mostrou consequências preocupantes. No contexto do Plano Colômbia — programa de ajuda econômica e militar dos Estados Unidos —, a associação entre crime e insurgência contribuiu para o aumento da violência e para o escândalo dos “falsos positivos”, no qual milhares de civis foram assassinados e apresentados falsamente como integrantes de grupos armados. Este cenário também mostra os riscos de instrumentalização política da narrativa de combate ao terror, situação que também se mostra presente no documento divulgado pela Casa Branca, que elogia a designação do grupo político Antifa como terrorista.

Deste modo, o enquadramento de organizações como terroristas é um assunto com consequências sérias e preocupantes e evitá-lo é de pleno interesse para o Brasil. O temor é que a ampliação da lógica do contraterrorismo para o combate ao crime organizado fortaleça abordagens militarizantes, aumente pressões externas sobre políticas de segurança nacionais e amplie a margem para medidas de exceção e violações de direitos.

A estratégia do governo brasileiro tem sido clara nesta direção: mostrar oposição ao enfoque defendido pelo governo estadunidense e, ao mesmo tempo, manter-se cooperativo e receptivo a formas multilaterais de combate ao crime organizado. O governo brasileiro prioriza operações focadas em inteligência, cooperação latino-americana e desmantelamento de esquemas financeiros e de lavagem de dinheiro. Nas palavras de Lula, o Brasil se mantém aberto ao diálogo, “mas não abre mão da democracia e da nossa soberania”.The Conversation

Lívia Peres Milani, Doutora e mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas e pesquisadora I no Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais, Universidade Estadual Paulista (Unesp)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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